segunda-feira, 5 de novembro de 2018

CINÁBRIO

CINÁBRIO

Todo o sangue vertido do dragão
Escorrera pela forjas de Vulcano
Até petrificarem, salvo engano
Em límpidos cristais de vermelhão.

Os homens s'encantaram desde então
Co'o rubro pigmento soberano
Onde, em forte desvio de seu plano,
A luz aprisionada faz clarão.

D'estarte pela cor ensimesmada
Os olhos logo veem o ser alado,
De cujo sangue a força é revelada.

Reluz desde o infinito outro passado
Ainda, pela pétrea e só jornada,
Capaz de revelar d'homens o Fado.

Betim - 05 11 2018






domingo, 4 de novembro de 2018

DE PÉS JUNTOS

DE PÉS JUNTOS

Ele jurou. Não apenas pelos céus
Ou nem "por esta luz que me alumia!"...
E jurou, "de pés juntos", qual dizia
Minha finada avó por sob os véus.

Como o acusado n'um banco de réus
Ou como o cristão-novo junto à pia.
Verdade verdadeira sim -- dir-se-ia --
A de doutor dar fé; tirar chapéus...

E, embora fosse laico o juramento,
Evocava o Senhor todo momento,
Por lhe fazer o Altíssimo fiador.

Ao final, convencendo tudo e todos,
Traiu, mentiu e baniu de muitos modos,
Distorcendo a verdade ao seu sabor!

Betim - 04 11 2018

PENINSULAR

PENINSULAR

À tarde sigo ao farol:
No extremo peninsular
Se vê igualmente o sol
Nascer e morrer no mar.

Costão avançado às ondas...
Enfrentando o oceano à terra
Pergunto sem que respondas:
-- "Mar, por que de tanta guerra?"

"Por que agitado me assombras
Co'as vagas a ir e vir
Enquanto a tarde nas sombras
Apressa o sol a partir?"

"Por que furioso levantas
Montanhas contra o rochedo
Se só a Neptuno cantas
O teu profundo segredo?"

"Ouve, mar, o vento uivante
Onde as gaivotas dançando
Vêm saudar o navegante
Refesteladas em bando!"

"Ouve as doçuras das flores
Tão agrestes a irromper
Das rochas onde primores
Vêm em cores oferecer."

"Descansa de tua faina
Brutal de banhar a costa
E mais teu ardor amaina
À praia que se desgosta."

"Cuida que a noite caia
N'uma paz crepuscular
A ver o sol que desmaia
Nascer e morrer no mar."

Peruíbe - 20 07 2018

sábado, 3 de novembro de 2018

CANÇÃO DO COVEIRO

CANÇÃO DO COVEIRO

Cava, escava, cava a cova!
Sua, pena, sangra, lida...
Diz ao morto em despedida:
-- "Eis tua morada nova!
A última de tua vida."

Repete ele um canto antigo
(Elegíaco, em verdade...)
Pela funda cavidade:
-- "Eis tua morada, amigo,
Para toda a eternidade!"

Se incerta a vida futura
D'alma que partira enfim,
Ao corpo ele diz assim:
-- "Eis tua morada escura
Onde t'encontras um fim!

Mais arruma enquanto canta...
Mais amarra seu pé junto...
Sem olhar para o defunto:
-- "Eis tua morada santa,
Onde o silêncio é assunto!"

Fechando a tampa sem dó,
Bate os pregos do caixão
E sussurra-lhe a canção:
-- "Eis tua morada só,
A sete palmos do chão...

Desce o esquife até o fundo
Feito semente plantada
À derradeira mirada:
-- "Eis tua morada-mundo,
 Tu que vais do nada ao nada!

Cobre, espalha, lança, enterra...
Fecha a cova para os vivos,
Que já se afastam altivos:
-- "Eis tua morada-terra
D'onde voltam redivivos."

Pondo o nome do sujeito,
Resta ele apenas, funéreo,
A cantar no cemitério:
-- "Eis tua morada e leito
Onde dormes duro e sério!"

Canta ainda ao falecido
Na lápide a lhe escrever
Outro epitáfio sem ler:
-- "Eis tua morada ao Olvido,
Onde tu deixas de ser..."

Canta o coveiro a canção
Que na morte faz igual
A todo humano e mortal:
-- "Eis tua morada, irmão,
Até o Juízo Final!

E ao fim da canção coveira
Quando o silêncio se faz
Encerra àquele que jaz:
-- "Eis tua morada inteira
Onde descansas em paz!"

Belo Horizonte - 02 11 2018

ORTODOXIA

ORTODOXIA

Duplipensar católico ou marxista
No qual, ora o indivíduo; ora a doutrina
Expressa uma verdade vespertina
Acerca e enfim de tudo quanto exista.

Deveras, eis a ideia posta em revista
Quando ao crivo d'um sistema se refina!
Parece antes palavra clandestina,
Cujo verso ao censor após despista.

Percebe esquizofrênico o pensar
Quem tão-só se limita ao já pensado
Com vozes bem distintas ao falar.

Visto que, para além de certo e errado,
Sua própria opinião se faz calar
Sob outra mais correta do passado...

Betim - 03 11 2018

MALDITOS! n°3

MALDITOS! n°3

Peno eu -- três ou quatro gerações --
Amaldiçoando todos no pecado
Que nos predestinou junto aos vilões!

Deveras, parvo e obscuro antepassado,
Pus minha iniquidade sobre os meus
Uma vez para sempre amaldiçoado...

Antes já natimorto entre os plebeus
Que agora constranger-nos desde o gen
Viver em guerra infinda contra Deus!

Como ignorasse d'onde a bênção vem,
Sem temer me cobrir de pestilências...
Maldito, escolho o mal e evito o bem.

Ao desdenhar de Deus suas violências
Sobre mim e meus tristes descendentes
É que busquei nos vícios experiências.

Uma vez condenado, ranjo os dentes
Urrando contra as hostes celestiais
E a multidão submissa de seus crentes.

Sim, vêm me perseguir feito animais
Pois co'a marca de Caim, homem de cor,
Com os filhos de Cam eu ergui baais!

Excluído do povo do Senhor,
Sigo a errar d'outro lado do Jordão
Como a face d'opróbrio e do terror:

Quem de longe me vê na imensidão
M'escojura qual visse o deus Moloque
Com chifres a queimar na escuridão!

E vem me apedrejar sem que o provoque
Para que assim me afaste mais ainda,
Pintando-me um demônio sem retoque.

Certo que minha culpa jamais finda,
Aos olhos d'estes homens bons e justos
Convém lhes evitar a terra linda.

Vagando nos desertos entre arbustos
A medo de topar quem quer que seja
E alerta de perigos e outros sustos...

Resta rogar a Deus, por onde esteja,
Que me mate antes qu'eu, de todo aflito,
Devolva ao mundo o mal que me deseja!

Só sei não ver justiça no infinito
Expurgo de más culpas cuja pena
Me faz eternamente ser maldito.

Betim - 03 11 2018

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

GATILHOS

GATILHOS

Deus! Quanta neurociência para nada?!
Ferrar a mente e após manipulá-la...
Quanta miséria cabe n'uma fala
Que abertamente faz d'alguém escada?!

Buscando uma reacção mesmerizada,
Apenas vende ideias enquanto fala
Desejoso de a ouvir quando se cala
Repetida e, por fim, amplificada.

Ao vício de querer-se aprovação,
Com curtidas, aplausos ou joinhas
Constrói outra forçada interação...

Tudo para induzir forças daninhas
Capazes de alinhar-nos a opinião
Em torno das propostas mais mesquinhas.

Betim - 02 11 2018