quarta-feira, 14 de outubro de 2026

DECRÉPITO

DECRÉPITO 

De tanto negar-me ócios, negocio
Com Deus e todo mundo por mais vida.
Eu cumpro esta idade desvalida,
Feito sol a decair n'um céu sombrio.

Ainda as minhas cãs a andar vadio
Carrego na alameda entardecida:
Passados tantos anos, mais se olvida
Que recorda a memória em desvario…

Talvez não tenha visto o que me alegra
Quando fiz do dinheiro a minha regra,
Juntando muito mais do que preciso. 

Hoje, tarde demais para viver,
Me ocupo tão-somente em esquecer
Por trás do meu mais cínico sorriso.

Vitória - 11 10 2026

VERBALIZADO

VERBALIZADO


Livrar a palavra; soltar o verbo!

Eis quanto me proponho quando poeto.

Eu substantivo acções sem um objeto,

Enquanto outro adjetivo vão adverbo…


Escrever assim não me faz soberbo,

Ao contrário, hermetiza-me o soneto.

Se o poema de mim mesmo está repleto

É porque antes mazelas exacerbo.


Metalinguagens à parte, o meu verso;

Pretendo-o, sobretudo, controverso,

A irromper na mente feito penetras.


Pois, no final das contas, o que fica,

Muito mais do que rima pobre ou rica,

É me fazer pensar com belas letras.


Vitória - 12 10 2026

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PAÇO DA GRÃ-VENTURA

PAÇO DA GRÃ-VENTURA


Muito distante já — no tempo e no espaço —

Vejo a felicidade que era minha:

Fugaz luzia em débil estrelinha

A indicar os pináculos do Paço!...


Ínvias trilhas seguia sem cansaço,

Certo que aquela estrela se avizinha.

Falaz luzia ou falso me sustinha

Ao longo do caminho, passo a passo.


Luz na primeira e vera primavera:

Quando a felicidade era a procura

E à procura da estrela eu feliz era.


Jaz anos-luz a estrela à Grã-Ventura!

Eu estou onde estava a estrela outr'era.

E ela ainda longe: Lá, na noite escura.


Betim - 02 05 1995

terça-feira, 6 de outubro de 2026

METICULOSO

METICULOSO

Buscava para tudo o que senti
Algo que m'explicasse outra ilusão.
— Tão ardente quisera o coração
Alguém que depois desconheci!

Todas as circunstâncias eu revi,
Ao pormenor de cada sim e não,
Até quedar de novo em solidão
E a gente se afastar, cada um por si.

Vivendo sob o império dos sentidos,
Lancei-me encantado à desventura
D'um amor e seus males consentidos.

Logo o que me restou foi amargura.
Sem respostas por meus sonhos perdidos,
Sigo às cegas alguma estrada escura...

Belo Horizonte - 04 04 1992

MIASMAS

MIASMAS

Os eflúvios nocturnos d'ares sujos,
Oriundos d'uma cloaca pantanosa,
S'espalham pela noite tormentosa
No visco de nojentos caramujos.

A tasca nauseabunda do marujos.
Empesteia a ribeira onde andrajosa
Alguma sifilítica 'inda goza
Outro cancroso amor co'os ditos cujos.

O zunido voraz dos pernilongos
Lhes ressoa à cabeça em hora vária
Ao banzo de lembrar distantes Congos...

Vem mosquitada vindo temerária
Por mundo afora; pelos cais oblongos,
Febre amarela, dengue e até malária.

Betim - 29 03 1994

MOÇAMBIQUES

MOÇAMBIQUES

A guarda se perfila p'ro folguedo
E a santa do Rosário os abençoa.
O encontro faz maior cada pessoa
Aquando do entrevero audaz e ledo.

Há gerações repetem esse enredo
Onde homens-instrumentos d'hora boa:
Em caixas, guizos, sinos mais ressoa
A música dançada desde cedo.

Ao bater uns contra outros os seus paus
Aqui vêm s'enfrentar, nem bons nem maus,
Os guerreiros com fitas mais espetos.

As lanças s'entrechocam tão ritmadas
Que a gente a batucar pelas calçadas
S'exalta face à Virgem Mãe dos Pretos!

Contagem - 14 10 1993 

MUTATIS MUTANDIS

MUTATIS MUTANDIS

O mundo tudo muda ao seu humor,
Como a bela entre a dança e contradança...
No mundo, o que não muda é a mudança,
Seja para melhor ou para pior...!

Mudando o que se deve, ao meu redor
O mundo todo muda na lembrança.
Ou melhor, eu que mudo de esperança.
Face a quem sem mais me nega amor.

Aquela que me amou não ama mais,
Pois, bela e desdenhosa de meus ais,
Dá voltas como o mundo em torno a si.

Ela mudou de ideia e de vontade.
E agora, oferecendo-me amizade,
Fez o mundo mudar qual nunca vi!

Belo Horizonte - 06 06 1995