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sexta-feira, 21 de julho de 2023

VERSOS D'ALCOVA

VERSOS D'ALCOVA

 

Ainda em meio ao banho, por espelhos,

Te observava os reflexos no azulejo.

Desnuda-se a beleza n’um lampejo:

Curvas d’ombros, seios, nádegas, joelhos...


Mas, se paixões desdenham de conselhos,

Baldo é ditar razões contra o desejo…!

Ao toque de meus dedos, suave arpejo,

Deixaste nossos corpos já parelhos.

 

Logo não serei mais do que a loucura

De, ávido, m’embriagar da formosura

De tuas nuas curvas femininas. 

 

Após, abandonado sobre a alcova,

Com teus olhos nos meus eu me comova,

Revendo o teu prazer pelas retinas.

 

Belo Horizonte – 02 02 1992


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

SOBRESSALTO

SOBRESSALTO

 

De súbito me vêm uns calafrios,

Como se aragem forte em corredor

Levantando papéis ao meu redor

Se fizesse presença nos vazios.

 

Pego-me a perscrutar sótãos sombrios,

De todo enmimesmado n’um torpor:

— “Felizes para sempre enquanto for…

Parece uivar o vento entre baldios.

 

Trêmulo, fecho os olhos e me cubro,

Enquanto outro crepúsculo aurirrubro

Prenuncia nos campos mais geada.

 

E incerto da verdade que me pasma,

Fico como esperasse algum fantasma

Em vigília por toda a madrugada.

 

Betim - 06 06 1992 


DE PARTE A PARTE

DE PARTE A PARTE

 

Se partes não suporto o olhar perdido 

De quem me vê passar pelo caminho. 

Se recomponho o rosto em desalinho, 

Suponho-me uma máscara ao vivido. 

 

Assim como eu, tu tens te aborrecido

Ao vagares alhures sem carinho. 

Pois mesmo acompanhado anda sozinho, 

Quem leva o coração ‘inda partido. 

 

De parte a parte, apenas solidão

Trazemos tendo os olhos marejadas

De tanto recordar cada senão…

 

Basta! Sejam passados os passados.

Se careces de mim, de ti preciso:

Volte com teus carinhos meu sorriso!

 

Belo Horizonte - 11 07 1992 


terça-feira, 22 de novembro de 2022

ONTEM À NOITE

ONTEM À NOITE 

 

Não cabe já em mim qualquer tristeza: 

Algo de muito bom me aconteceu...! 

O meu olhar cruzou de novo o teu, 

E o que vi fora bem mais do que beleza. 

 

Vi que a minha paixão saiu ilesa, 

Mesmo depois de tudo que se deu. 

Vi que te agrada ter alguém como eu

Admirando-te o espírito e a agudeza. 

 

Tenho andado nas nuvens desde então,

Mas na ânsia de falar-te ao coração, 

Eu fui antes sincero que galante…

 

Perdoa se me faço inoportuno,

Apenas esperanças vãs reúno

Para t’enternecer de novo amante.


Belo Horizonte - 20 09 1992 


domingo, 20 de novembro de 2022

VOCALISES

VOCALISES

 

Não t’entendi a letra da canção,

Contudo, à tua voz reconhecia. 

Lembrava-me uma alegre algaravia

De vogais se alongando em cantochão…

 

Inventaste uma língua de ocasião,

Cuja compreensão eu desconhecia.

Qual fosse instrumental a melodia,

Cantada sincopada à percussão.

 

Mas teu canto um lamento pareceu, 

Porque sei que essa dor que te alucina, 

No insincero sorriso s’escondeu. 

 

Divavas mil solfejos, cristalina,

Ao êxtase de todos, menos eu,

A t’esperar aos prantos na cortina. 

 

Belo Horizonte - 11 10 1992 


sexta-feira, 18 de novembro de 2022

ESBOÇOS PARA UM RETRATO

ESBOÇOS PARA UM RETRATO

 

Tentei então traçar o teu retrato 

Em folha de papel acartonado

Entretanto, o olhar semicerrado

Borrou-se n’uma lágrima de ingrato…

 

Aquilo que figura queda abstrato.

Ao mostrar sobretudo o que guardado

Se sugere em contorno esfumaçado,

Enquanto mil estrelas no chão cato.

 

Bem pude colocar ali o encanto, 

Que cultivo por ti, facto constante,

Apesar dos pesares e do instante.

 

Foi assim, com os olhos em quebranto, 

Que te pus entre estrelas e ilusões

N’um papel sem maiores pretensões.

 

Belo Horizonte - 01 09 1992

terça-feira, 18 de outubro de 2022

À PROCURA

À PROCURA 


Busco-me rabiscando com a pena 

O pálido papel até que expresse

Em esboços e letras uma prece

Que à guisa de poesia s’encadena.

 

Basta da realidade que a Hora encena! 

Tão mortal quanto o mal que não s’esquece,

A cada dia basta o seu estresse:

À noite se contemple a lua plena…

 

Poeto, mas o óbvio impõe-me a irrelevância

Mediante obscuras obras de loucura, 

Que ainda me alimentam a alma de ânsia. 

 

Mesmo assim, não me curvo à desventura:

A razoáveis razões oponho a infância, 

Enquanto vago as noites à procura. 

 

Belo Horizonte - 10 10 1992 

sábado, 20 de agosto de 2022

PLATINUM BLONDE

PLATINUM BLONDE


Apesar da azulzíssima mirada, 

Seu sorriso metálico enferruja…

De facto, é de admirar na dita cuja

Pátinas pela pele salpicada.


Do certo modo a loura platinada

Anda, de cara limpa e boca suja,

A ocultar sob as luzes quanto fuja

Da imagem de mulher enamorada.


Desinibida sim, mas mais ainda:

Estava tão marcante quanto linda,

Fazendo brilhar olhos onde passa.


Promessa de prazer sua beleza.

Ostenta, balzaquiana, essa certeza

De ser, a um só tempo, ardor e graça.


Belo Horizonte - 15 08 1992

terça-feira, 31 de março de 2020

UM CORAÇÃO PURO

UM CORAÇÃO PURO

Talvez seja, de facto, irreal virtude
Pretender manter puro o coração,
Se é tudo n'essa vida uma ilusão,
Sobretudo para aquele que se ilude...

Alguns chamam "maldade" a inquietude
Em antever dos outros a intenção:
Presumir inocência fosse opção
Ninguém hesitaria ante o desnude.

Com ou sem Deus, buscasse a liberdade
D'haver quanto a ternura mais acalma,
Enquanto a insegurança à mente invade.

Ao acolhimento do outro elevo a palma
Sem julgar se bondade ou se maldade
Aquilo que lhe passa por sua alma.

Betim - 03 03 1992

segunda-feira, 30 de março de 2020

EM TODO CASO

EM TODO CASO

Ao ocaso do acaso onde o amor se viu
Entre a melancolia e os céus lilases.
Inútil discutir; fazer as pazes,
Se tudo é decadência... Tudo é vil...!

Ao acaso do ocaso onde o sol partiu
Já à procura de almas mais audazes.
Eis: A lua tem ciclos; o amor, fases...
E o nosso finalmente em si caiu.

Graves, como convém, nos afastemos
Em direções distantes e distintas
A fim-de que nós sós nos encontremos.

Em todo caso, espero que tu sintas
Por este mesmo ocaso que ora vemos
As nossas emoções em vão retintas.

Betim - 12 12 1992

domingo, 29 de março de 2020

À NANQUIM

À NANQUIM

Busco-me ao rabiscar: Bico de pena
No pálido papel talvez revele
Algo de mim nas linhas tortas d'ele,
Enquanto o gestual se me apequena.

Paisagem interior; obscura cena
Onde a tinta s'espalha à flor da pele.
Um contraste absoluto fora aquele,
Pois traço rebuscado da hora plena.

Aí, encontre sentido onde não há
Ou dê significado ao que não tem
Mesmo que não pareça que haverá.

Passem por ideogramas para alguém
Que os traduza eloquentes, tarde já,
Da mídia indiferente que os sustém.

Belo Horizonte - 15 10 1992

sábado, 28 de março de 2020

MAR ICÁRIO

MAR ICÁRIO

Alimentando de sonhos sua mente,
Enchia de visões seu triste lar.
Logo, só ao sol, faz-se-lhe agitar
Asas de cera e penas, displicente.

Voa alto, preocupando-se somente
Em do sol forte não se aproximar,
Enquanto atravessava o imenso mar
E avistava terras jônias do oriente.

Contudo, tendo aberto todo o céu,
Suas asas derretem sob o sol
Até que se precipite n'um tropel.

E o mar que testemunha seu estol
Sepulta seu destino tão cruel
Onde de Ícaro o nome fez-se atol.

Belo Horizonte - 30 07 1992

À PARTE

À PARTE

Se partes me suporto entorpecido;
Perdido d'entre as pedras do caminho...
Se ponho a recompor-me o desalinho
Suponho-me pior do que hei vivido.

Se posto-me de todo surpreendido
Ao procurar embalde o teu carinho,
Somente por sem ti estou sozinho,
Embora o coração sinta partido.

Se partiste em promessas de delícias,
Apartado da luz de teu sorriso,
Passei noites insones sem carícias.

À parte tudo, volta pois preciso...
Passo o dia a sonhar-te impudicícias
E perder-me o que resta de juízo.

Belo Horizonte - 10 09 1992

terça-feira, 3 de março de 2020

APELO

APELO

Eu, que nunca te quis senão amante,
Como posso querer-te agora amiga?
Temo que simplesmente não consiga:
Tenho-de me fazer de ti distante.

Não peças que te veja tão radiante
E finja não sentir a chama antiga…
O que a civilidade nos obriga
É que cada um de nós se desencante.

Quero sigas os mais belos caminhos
E que de vez em quando meus carinhos
Recordes com saudade e com desejo.

Melhor eu me afastar enquanto posso,
Que t'esconder o ardor quando te roço
Ou não dizer te amar quando te vejo.

Betim - 03 03 1992

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O SOL E A LUA - eclipse solar

O SOL E A LUA - eclipse solar

Quem prevalecerá, o Sol ou a Lua?…
Ambos astros observo ao firmamento,
Superpostos por tão breve momento,
Que aligeirada pena perpetua.

Resplandecente o Sol, à vista nua
Malferia em beleza ao surgimento.
Logo após, chega a Lua àquele evento
A projetar em mim a sombra sua.

O sol recente aurora sucedia
A altíssimo reinar 'té o arrebol
Sendo surpreendido hoje, todavia:

Visto que em pleno dia, igual farol,
Aquela que a coroas desafia…
A Lua totalmente eclipsa o Sol!

Belo Horizonte - 24 10 1992

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

SOL E LUA

SOL E LUA

Quando n’um mesmo céu o sol e a lua
São vistos juntos pelo firmamento,
Admirado eu contemplo esse momento,
Que a minha pena agora perpetua:

O sol, cujo declínio se acentua,
Parece obscurecido e, em descontento,
Sofre da lua estranho enfrentamento
Como se a lhe depor da alteza sua.

Sombria, à Terra a lua eclipsa o sol.
Algumas horas antes do arrebol,
Vencia a lua ao sol que se desterra...

Não sei já se de noite ou se de dia,
Mais tarde um sol a lua parecia:
Sol de prata, o luar brilha sobre a Terra.

Belo Horizonte - 30 06 1992

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

RELO DE PIPA

 RELO DE PIPA 

 

Solta pipa o menino a sol a pino,

Que contra o vento forte sobe ao céu. 

Taquara de bambu; seda o papel, 

É branca sobre o azul horizontino!

 

Solta versos o poeta a voar sem tino,

Em jogo de palavras saindo ao léu.

N’um momento, rodando o carretel,  

O poeta ao tempo volta pequenino. 

 

Descarregando a linha na ousadia,

Mais rebola a rabiola a fantasia,

Assim como a memória e o pensamento. 

 

Mas logo a linha rela com cerol,

E o poeta, pipa voada atrás do sol,

Se deixa levar longe pelo vento…

 

Betim - 19 09 1992


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

FLERTES

FLERTES

Só de longe; de longo e oblíquo olhar
Tenho eu te conhecido... Olhos furtivos
Que ficam te admirando os atrativos,
Conquanto seja tolo ou até vulgar.

De facto, não tem hora nem lugar
Para perdido em teus olhos tão vivos
Eu tenha por fim meus olhos captivos
Por força já de tanto eu te mirar.

Dona, porém, de meus olhos e olhares
Não me percebes todo este cuidado
Com que, em silêncio, eu tenho te amado.

Tudo isso saberás quando me olhares...
Ou não... Se tão altiva quanto o sol,
Que ignora a devoção d'um girassol...

Belo Horizonte - 21 10 1992