terça-feira, 3 de novembro de 2026

NEGAÇÃO

NEGAÇÃO 

Procuro algum sentido ao que vivi,
Depois de m'entender em negação.
Não obstante, atravesso a solidão,
N'um descaminho vão longe de ti. 

Negaste-me três vezes… Eis aqui:
“Sinto muito, eu não sinto nada não.”
Perdi a hora, o sentido e a direção;
E o chão sob os meus pés já não senti.

A realidade impôs o seu vazio
Às tardes onde vi, em desvario,
O amor dourar as nuvens e a lagoa.

Sem ti, outra manhã cinza m'espera.
E eu, que celebrei a primavera,
Me vejo andando só sob a garoa.

Belo Horizonte - 04 04 1992


PIN-UP

PIN-UP 

Senhora dos prazeres, a dileta.
Eis aqui suas graças femininas:
Pupilas, duas verdes turmalinas;
Curvas mesmas de vespa a silhueta… 

N'alva pele a libido já repleta!
Cabelos, feito jubas leoninas,
Esvoaçando sobre espáduas finas
Enquanto o seio níveo me inquieta. 

É bela essa mulher!...  D’olhar ausente,
S'exibe no divã languidamente,
Ao dobrar sensualíssima seu dorso. 

Lábios a colibri esperam meu beijo,
Assim como o seu colo onde o desejo
Parece me chamar sem mais esforço.

Sapucaia do Norte - 12 11 1994

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

UM ANDARILHO

UM ANDARILHO


Nuvens escuras cobrem todo o céu
Como fossem um forro espesso e baixo…
Caminho na avenida cabisbaixo,
Enquanto o rio fede feito fel.

Outra tarde caía ao olhar incréu,
Com torrentes descendo morro abaixo.
Na curta trégua a vida toda encaixo,
Antes que o céu desabe n’um tropel

Vento de terras úmidas distantes
Sopra sobre as árvores da estrada,
Anunciando a próxima pancada.

Escapo do dilúvio um cadinho antes,
Abrigado n'algum albergue imundo,
A tempo de assistir o fim do mundo.

Belo Horizonte - 08 12 1995



STELLA MATUTINA

STELLA MATUTINA

Alva estrela que luz na madrugada,
‘Pós outra noite em claro amanhecida,
Volve a mim tua face enternecida
E me conduz na longa caminhada.

Escura ainda está a minha estrada
E muito longe d’eu topar guarida.
Clareia lá no céu essa partida,
Me acompanhando até vir a chegada.

Em cada encruzilhada seja um norte
E quando o próprio sol luzir mais forte,
Esteja, embora oculta, me valendo.

Tão logo o sol se pôr, volta a brilhar
A tempo de poder me ver findar
Outra jornada ainda entardecendo.

Belo Horizonte - 12 09 1995

ESTUDOS PARA NU

ESTUDOS PARA NU

 

Se do teu corpo moldo meu desejo,

– Pondo, em mármore ou bronze, eternidade –

Sobre o sexo postulo mais verdade

Do que vãos moralistas com seu pejo.

 

Prazeres na beleza antevejo.

Nas formas, ao buscar mais liberdade,

Recriar-te com frieza de deidade,

Embora ao toque vibres qual arpejo…

 

Registro em ti efêmero momento

E nos olhos febris muda mensagem,

Fazendo dos sentidos sentimento.

 

À flor da pele, sexos que reagem:

Em vista d’um fugaz contentamento,

Sejas tu pelos séculos imagem!

 

Betim - 02 05 1995


DIA DE FINADOS

DIA DE FINADOS

—”Oh vida, vem vindo teu fim.
Oh, sim, teu fim vem vindo,
D’esse mundo eu, enfim partindo,
Vou me despedindo de mim.

 —”Oh morte, me vens vindo sim.
Senão longe, ao menos lindo,
O lugar aonde estou indo...
Eu que não sei nem d’onde vim.            

—”Oh morte, és um túnel ainda…
Um túnel sem fim e sem fundo,
Que dizem dar no Fim-do-Mundo. 

—”Oh vida, és mais bela por finda:
Toda a existência n’um segundo!
Após, o escuro mais profundo.

Belo Horizonte  –  02 11 1991

ACTO DE CONTRIÇÃO

ACTO DE CONTRIÇÃO  

Confesso que já cri muito no mundo; 
Hoje - devo admitir - ando descrente, 
Não só de mim, mas sim de toda a gente.
O que vem a ser o mesmo no fundo...  

Sim, eu me sinto um tanto quanto imundo 
Por ver-me mais e mais indiferente, 
Face ao que venha a ter à minha frente,
Tornando-me, afinal, algo infecundo:  

Juiz-pecador, cujos dons obtidos 
Da Natureza em sós obras terrenas, 
Desperdiçou nos mais tolos desguidos.  

Mereço em penitência duras penas
Por pretender-me um deus de desvalidos,
Sendo nem sequer bom: Humano apenas. 

Salvador - 19 09 1995

domingo, 1 de novembro de 2026

FREUDIANO

FREUDIANO

 

ALTER EGO:     — “Se tem o dia um sol à beira-mar

E o mar, um azul para cada dia,

Dize-me: Por que tal desalegria?

Por que distante sei eu t’encontrar?”

 

“Diz, que melancolia tens n’olhar?

Se o teu olhar no meu se consumia…

Se hoje, tão lindo o mar, mais se perdia

Nas ondas do horizonte o teu cismar ?” 

 

  EGO:                        — ‘Envidar a si mesmo sem intento,

Não nos faria mais do que insensatos

Que veem em sua paz o seu tormento...’

 

  ALTER EGO:       —  “Oras, ao inferno tu com teus recatos!

Antes perder-se no mar do sentimento,

Que andar ensimesmado entre os pacatos.

 

                Salvador - 18 09 1995


ZENITAL

 ZENITAL

 

— ”Andemos, nossa morte já não tarda:

Para o zênite, o sol subirá alto!

O horizonte derrete-se no asfalto,

E o caminho se perde em terra parda.” —

 

Eis o arauto, distante, que alto alarda

O fim do mundo pelo sol de assalto…

Que diremos d’oráculo do arauto

Que do sol e do fim histórias guarda?

 

— ”Além d'esse caminho há outro — respondo —

Não há um fim no mundo, antes promessas:

Luza ao zênite o sol, após se pondo…” 

 

Como crer em histórias iguais a essas?

— ”Se for esse o meu fim, onde m’escondo?

Caia-nos logo o sol pelas cabeças!"

 

Betim - 01 11 1993


DAMA DA NOITE

 DAMA DA NOITE

Atravessa comigo a noite em claro,
No bar onde reviro os meus espólios...
Com sombras bem escuras pelos olhos,
Que de verde-esmeralda o brilho raro.

A roupa exuberante lhe reparo,
Pois, perfumada com marcantes óleos
De essências a exalar flores aos molhos.
E eu a morrer d’amor sem seu amparo...

Não sei por onde andou ou o que procura,
Quem, insone, me fez sonhar fecundo
Em face d’um sorriso de luz pura.

Só sei que me devassa o olhar profundo,
Enquanto me entorpece com brandura
A nuca mais cheirosa d’este mundo.

Belo Horizonte – 10 12 1995 

EPITALÂMIO

EPITALÂMIO

Tua beleza oculta atrás do véu
Revele-se bondade em tudo o que és.
Recebe a mim inteiro ora a teus pés,
Embora às vezes rei; às vezes réu.  

Prometo em meu amor te ser fiel,
Em plena abundância ou no revés.
Que nada nos afaste mais! Ao invés,
Andemos lado a lado sob o céu.

Saiba eu o quão sensível é teu peito…
D’oravante, tenhamos a viver
Só dias de carinho e de respeito.

Sejamos tudo o que pudermos ser:
A felicidade em nós seja um direito.
A sinceridade em nós seja um dever.

Belo Horizonte - 01 07 1993