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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

OPALESCÊNCIAS

OPALESCÊNCIAS

 

Como crer na algidez de tuas falas,
Quando em teus olhos vejo tanto ardor?
Ou como ainda negas teu amor,
Se quando eu te confronto tu te calas?

Olhos, que a me luzir duas opalas,
Com negra iridescência têm calor
Em contraste co’os lábios já sem cor,
De quanto, inconvincente, tu me falas.

Pois entre o que se diz e o que se pensa,
Não raro pode haver distância imensa,
Mesmo que o coração esteja à palma.

Até porque, nos lábios, a verdade
Esconde-se com mais facilidade…
Já olhos dizem ser janelas d’alma!

Belo Horizonte - 10 10 1991


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

RASURAS

RASURAS 

 

Seu nome estava  em minha pele escrito,  
Feito tatuagem p'reu nunca esquecer. 
Letras que pareciam me envolver  
N'um amor extremado e quase aflito.  
Por meses eu segui o extremo rito,  

De amizade tornada bem-querer.  
Amava em desespero de a perder, 
Quer porque poeta; quer porque maldito. 

A rir-me pôs seu nome à flor da pele,  
Mas, após ver a quanto o amor impele,  
Deixara-me à mercê só de loucuras: 

Um nome escrito como se feitiço, 
Não por enamorada, longe d'isso... 
Para ao final oculto sob rasuras. 

Belo Horizonte – 01 11 1991  

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

PAPEL DE CARTA

PAPEL DE CARTA

Na folha perfumada, a sua escrita
Tornara-se poesia simplesmente
Pelo esmero co'a letra que, inocente,
De vermelho entendia mais bonita.

Um menino que poeta se acredita
— E todo mundo sabe diferente... —
Escreve para a bela tendo em mente,
Que a carta findará tanta desdita.

No envelope escarlate, exagerado,
Floreia o nome d'ela tão amado
Com voltas de cursivos rococós.

Mas, tímido demais para assinar,
Sem remetente deixa o seu lugar
Como secretamente amam os sós.

Belo Horizonte - 08 07 1991

terça-feira, 24 de março de 2020

AMANHECER

AMANHECER

Admiro o fim da noite da janela.
Desce às serras a lua já minguante,
Enquanto n'um clarão chega, destoante,
A aurora airosamente clara e bela.

Melancólica a lenta vinda d’ela,
Perseguida p'lo sol ainda infante,
Que vai amanhecer qualquer instante,
Enquanto o firmamento se desvela.

Antes do sol nascer detrás do ramo,
Eu tive a paz que há muito não sentia,
Alheio ao que lamento ou que reclamo

Começa em soledade mais um dia...
Na cabeça, saudades de quem amo;
Nos olhos, longe o sol resplandecia.

Betim - 10 12 1991

SERENATA

SERENATA

Meu olhar pelo teu tem procurado,
Tanto tua beleza em mim atua...
Sigo te procurando pela rua
Para te olhar e ver enamorado.

Deveras, eu pareço enfeitiçado...
E à noite, na luz pálida da lua,
Eu encontro a formosa forma tua,
Debruçada à janela do sobrado:

-- "Divina, escuta a voz de teu fiel!
A teus pés eu suspiro essa cantiga
Como súbito eu subisse até o céu..."

"Junto a ti, minha língua vã se abriga
E busca de teus lábios o troféu...
Eis, linda, quanto amor um peito obriga!"

Belo Horizonte - 12 12 1991

domingo, 30 de setembro de 2018

ATRÁS DAS GRADES

ATRÁS DAS GRADES

Por fim prendi o mundo atrás das grades
Enquanto m'embriagava em minha varanda:
Desde que contra tudo pus demanda,
Privo os outros de suas liberdades.

Ébrio, fico a observar duas cidades
A de quem é mandado e a de quem manda,
Onde cada um que pelas ruas anda
Prisioneiro é das próprias inverdades.

Verdadeira somente a dor que sinto
Por quem manda qual por quem é mandado,
Que os vejo andando em vão n’um labirinto.

E acabo na varanda embriagado,
A olhar na solidão do vinho tinto
Todo o mundo por mim aprisionado...

Belo Horizonte – 20 11 1991

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

LUSA E BRASILEIRA

LUSA E BRASILEIRA

A lusa navega entre o tu e o você,
Cruzando todo o Atlântico: Alma e Oceano...
Mas maluca comete um ledo engano,
Pois, mameluca lá e cá se vê.

A lusa, sem que já saibam por quê,
S’enamora e amorena ano após ano.
Mestiça de ameríndio e de africano,
Eis-me a lusa cafuza n’um fuzuê!

De facto, uma mestiça mui preciosa:
Cor-de-cobre, descubro-a ainda presa
A seu jeito dengoso em tirar prosa.

Dos poetas a cantar sua beleza,
Sou mais um cuja pena caprichosa
Canta essa crioula língua portuguesa.

Belo Horizonte – 11 11 1991                

sábado, 19 de novembro de 2016

RECTIDÃO

RECTIDÃO

A vida tinha a minha desolada:
Olhava e o olhar distante nada via...
Distante estava eu todo da alegria;
Na hora vazia, não havia nada.

Vi certo dia a vida toda errada;
O errado era eu ou nada errado havia.
-- "Tens a vida correta" -- alguém dizia,
Indo direto e reto pela estrada.

Sim, tinha a vida minha em linha reta...
Certo que bem mais longe iria andar,
Mas sozinho a caminho vã a meta.

Vazio o caminhar por caminhar.
Seja torto o caminho mais correto,
Ou, decerto, o caminho entortar.

Belo Horizonte - 19 11 1991

CERTOS ERROS

CERTOS ERROS

Se em buscar a verdade mais me alerto,
Eu sempre do correto me quis membro.
Contudo, erro por mim que não me lembro
Mais do tempo em qu'eu andei desperto.

Parte de mim do fim se sente perto;
Mas outra, além do bem e mal relembro:
Andara sob as chuvas de setembro
Pelos limites já do errado e certo

Eu me perdi tentanto defini-los,
Pois, vi o errado certo e certo errado,
Qual variações d'um tema sob estilos.

Não havendo n’um mundo tão  mudado
Mais qualquer verdade a dividi-los,
Certo e errado são um mesmo lado.

Belo Horizonte - 24 09 1991

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

PARABÉNS!!

PARABÉNS!!

Se não soubesses ser eu o teu poeta,
Talvez até a ti surpreenderia
Ter tua sereníssima alegria
Como fotografia predileta.

O telegrama em mãos d'um estafeta
Do meu amor por ti mais te diria.
Ou ainda um ramalhete ao fim do dia
Te celebre a conquista d'essa meta.

Do jardim dos meus anos, a mais linda
Flor entre as flores, cuja boa vinda
Nos traz pura beleza desde os gens.

Por ti possam se abrir de novo os céus,
A que recebas este e outros troféus:
-- "Felicidades, linda! Parabéns!! "

Belo Horizonte - 11 12 1991