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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O AMANHÃ DE ONTEM É HOJE

O AMANHÃ DE ONTEM É HOJE

Vivemos no país do futuro que nunca se cumpriu. Um grande território na América do Sul onde os europeus enxergavam um paraíso perdido e cheio de possibilidades para o Capitalismo recém-formatado pelo Pacto Colonial Mercantilista. Esse olhar europeu sobre os nossos trópicos nos definiu como subdesenvolvidos antes mesmo de nos entendermos como povo. Estruturalmente divididos entre ricos brancos e pobres pretos ou mestiços, somos uma tentativa de democracia republicana. Esses ricos, por sinal, têm incutido há séculos nas mentalidades dos brasileiros um complexo de inferioridade visceral transmitido religiosamente de geração em geração. Com vergonha dum povo analfabeto e desnutrido, a inteligência tupiniquim sempre se acreditou mais europeia do que sulamericana, desdenhando, arrogante, qualquer saber ou valor oriundos dessa gente de pele mais escura e de fala menos formal. O curioso é que ao invés de democratizar o acesso à educação ocidental para que o povo do qual tanto se envergonham possa dominar o instrumental tecnológico e desenvolvimentista, nossa elite pseudoeuropeia sempre usou de sua formação educacional privilegiada para a manutenção do grande fosso segregador de existências que todos os dias vemos se aprofundar entre as favelas e os condomínios fechados nos espaços urbanos brasileiros.

Estas eleições têm me angustiado tremendamente. Tenho consciência histórica e sei que as fronteiras se movem enquanto os regimes evoluem entre ascensão e queda. Passada a apuração do pleito de 02 de outubro de 2022, muitos dos que se arvoram patriotas a partir de hoje seguirão lideranças num cenário de autodestruição. Sim, estamos falando de um pós-Brasil, segregacionista e ditatorial, talvez na iminência de ser reformatado por novos parlamentares conservadores a reboque dum Governo inspirado por AI-5s! Isso é a própria falta de amanhã. As manifestações cretinas de bolsonaristas contra os nordestinos, bem como as fantasias separatistas tanto entre Sul e Norte como entre Evangélicos e Não-Evangélicos… No limite dessa tendência, a criação de Pós-Brasis é o país dividido que enfim se separa para manter os autocratas militaristas e evangélicos com um país desenvolvido para chamar de seu.

Não obstante, o amanhã de ontem é hoje. Ou seja, o presente é resultado dos desejos do passado para o futuro. Desejar pouco é reflexo de quem não tem quase nada. Em que posso pensar e querer se me é vedado observar mais longe e ver que o mundo é maior do que a minha alvorada periférica? Hoje é um dia decepcionante porque ontem não se quis o bastante esse amanhã melhor que a maioria diz desejar. Tenho escrito muito por aí, mas não chego ao coração das pessoas… Arrogância intelectual do escritor ou má-fé sistemática dos leitores? Talvez ambos! Eis o que tenho escrito:

Tenho fobia a neonazistas, racistas, xenófobos, misóginos, desbocados, mentirosos, valentões, armamentistas, milicianos, rachadores, compradores de imóveis em espécie e, sobretudo, imbrocháveis que vivem andando de moto e jet ski ao invés de trabalhar pelo povo. #ForaBolsonaro

Lembro-me que fui uma pessoa muito religiosa na juventude. Católico, participei de pastorais na paróquia e de grupos cursilhistas na universidade. Afastei-me aos poucos vendo a expansão dos reacionários de extrema-direita entre os cristãos. Esses grupos que citei acima eram os que percebia ao meu redor. A Teologia da Prosperidade arrastava corações e mentes para as promessas de riqueza material duma espiritualidade familiar moralista e patriarcal. Afastei-me, junto com a esquerda militante em geral, das questões sobrenaturais para as dificuldades reais dos excluídos. A verdade é que o liberalismo econômico meritocrático sempre deixa o povo sem oportunidades no meio do caminho do progresso. N’outras palavras, o Primeiro Mundo tem levantado muros para deixar a miséria do outro lado, longe da vista deles. Pós-Brasis expressam o separatismo definitivo entre desenvolvidos e subdesenvolvidos dentro do nosso território. Todavia, não há desenvolvimento real sem desenvolvimento humano. Continuar sonhando com a Europa vivendo no Brasil é a neurose da nossa elite que sempre xinga o povo quando este se rebela contra o mandonismo, mesmo que seja pelo voto secreto.

Cego, o povo de Deus finge não ver as relações do bolsonarismo com os milicianos que dominam territórios da metrópole carioca. Protegidos por políticos, grupos armados parasitam o comércio e abrem loteamentos clandestinos em áreas de proteção ambiental enquanto a polícia estadual lhes faz vistas grossas. O armamentismo, que tenta fazer tolerável a existência de grupos usurpadores aqui e ali, tende a dar ao poder econômico enfim capacidade de intimidação sobre comunidades. A democracia está em risco num país, de religiosos de direita que tolera milicianos e exalta bilionários enquanto execra multidões de populares limitados desde o berço por um sistema que se reconhece conservador na sociedade, liberal na economia e reacionário nos costumes.

Se hoje temos um estado de coisas tão desfavorável, precisamos lembrar dos desejos que nos trouxeram até aqui, nesse dia seguinte do primeiro turno das eleições de 2022, com a eleição de senadores e deputados abomináveis. Sonhamos muito com uma vitória do campo progressista e não percebemos o risco de nos dividirmos entre candidatos de várias denominações enquanto egressos quase caricatos do Governo conquistavam mandatos no Congresso…

Temos mais vinte e sete dias de campanha eleitoral pela frente e vamos nos animando para conquistar a presidência da república para o campo progressista, apesar de todas as incertezas desse momento. O amanhã de ontem, quando pensávamos estar diante duma eleição ganha e da volta da normalidade social, é um novo chamado à luta para confirmar a vitória já parcialmente apresentada. Uma luta que não pode ser deixada de lado sob pena de nos esvaziarmos de humanidade em face dum país em risco de deixar de ser. Tenho claro que as elites não hesitariam em nos dividir em vários países se necessário. É preciso serenidade nesse dia de hoje para, no momento definido, possamos afirmar que somos brasileiros e que nenhum de nós vai ficar para trás na busca por desenvolvimento humano e sustentável para os que aqui vivem.

Eu, embora não mais religioso, tenho fé.

Betim — 03 10 2022

sábado, 13 de agosto de 2022

ONZE DE AGOSTO

 ONZE DE AGOSTO


Penso que já deve ter vivido um homem,

cuja vida fora minuciosamente determinada.


Cada gole d'água; cada colher de comida, cada sopro de ar respirado... Tudo!

Tudo metodicamente descrito e controlado para observar 

quantos segundos a mais de vida

o corpo humano poderia adquirir,


Penso n'este ser humano que

jamais tocou n'algo contaminado por patógenos

ou se intoxicou com venenos.


Penso no progresso da Medicina

após bilhões de objectos de estudo vivos e mortos

necessários para oferecer a este único

toda uma existência sem doenças.


Trilhardário, suponho, dispôs de meios

para não conhecer a lenta corrupção que nos degenera a todos.

Nunca tomou sol demais nem de menos; nunca

fora exposto a um ambiente fora da zona de conforto, nunca

se aproximou de outro ser humano sem proteção.


Astronauta na Terra, jamais tocou senão a própria pele

e tampouco conheceu senão informações,

máquina perfeita de pensar e sentir.


Este que suponho estar no meio de nós 

busca-se imortal para além dos facto biológicos

e vive em META ou qualquer outra realidade virtual

com uma humanidade absolutamente pós-humana,

porque imorredoura.


Pois, ainda que venha a morrer, não importa...

Sua existência, para além do físico e do metafísico, permanece

a vida que prospera em laboratório, porque

em condições ideais de temperatura e pressão.


Anônima e anódina.


Betim - 2022


sábado, 25 de junho de 2022

A HUMANIDADE QUE DEIXO NAS COISAS

A HUMANIDADE QUE DEIXO NAS COISAS


Eu, homem de muitas leituras, tenho amiúde me enganado. Não fui cuidadoso como meus pares, todo entregue ao afã de tirar da folha em branco edifícios de sonhos e casas impossíveis. Sou hoje um arquiteto tão maduro que quase podre, focado no espaço habitado, não em seu desenho. Como quem desdenhando a correção da linguagem, focasse nas ideias puras e nas decisões que estas motivam, não na ortografia corrente das palavras. Não que desconhecesse as regras da linguagem ou os padrões de entendimento, mas antes  cansado do blá-blá-blá retórico dos vazios, eu me considerasse apto a resolver todos os problemas que aparecessem tão logo aparecessem, tal a confiança que guardava nos princípio em face dos meios. Foi assim que perdi meu emprego execrado pela equipe de projetistas da qual fazia parte... 


Tentei sair o mais discretamente possível, haja vista a infelicidade comum e o sentimento de fracasso pessoal, mas não foi possível. Afinal, a caminhada da vergonha é inevitável enquanto se enche a caixa com pertences pessoais rumo à escuridão. Os que ficam, n'um misto de comiseração e alívio, aguardam ansiosos a nossa partida para elencar detalhadamente as faltas e misérias que levaram àquele fim. Em instantes, o lugar que me cabia está livre para o próximo e não haverá qualquer vestígio de mim após o pano de chão embebido em saneante para o turno de trabalho seguinte. Há qualquer coisa de aniquiladora em situações assim e, se me permitis o aparte de vosso tempo com as presentes linhas, descrevê-lo trouxe par mim a verdade de que permanecer nas coisas que utilizamos ou possuímos é uma ilusão que ouso compartilhar com vós-outros para lançar luz ao que, facto, somos.


Entre ser e ter, prefiro viver. Sem embrago, sou arquiteto e tenho coisas, como explicitei no drama comezinho acima. O que vivo espalho em letras com pretensões literárias desde a mocidade sem desejar, sinceramente, nada. Escrevo sobre minha vida e vivo para escrevê-la como poderia viver em busca de amores, sexo, troféus, marcas, posses ou, no fim das contas, reconhecimento de que fui um homem entre os homens. Peço-vos desculpa se vos entedio com esta filosofia de fracassado relativista, mas é o que me resta em face dos últimos acontecimentos. Talvez não valha a pena seguir com a leitura...


Escrevo. Sim, projeto para ganhar a vida, mas escrevo. Um dia não me pagarão mais por meus desenhos, mas continuarei escrevendo. Talvez seja antes escritor que arquiteto, embora não venda livros ou viva de meus escritos. Contudo, escrever me define pelo modo como lido com tudo que vivencio, isto é, escrevendo a respeito. Se tenho alguma riqueza a apresentar no cômputo final de meus dias é a de ser aquele que lidou com sua humanidade escrevendo. Não cuido se o fiz com talento ou com pretensão, apenas o fiz, ou melhor, o tenho feito. Guardo em meus alfarrábios a memória de amanheceres esplêndidos como de noites insones... Independente de público, mostro-me humano e falho no afã de acrescentar aos relatos de meu tempo também as minhas impressões. Expressar do que penso, sinto ou imagino ainda que não me tenham perguntado ou que faça diferença na vida de terceiros sequer como entretenimento.  Páginas e páginas para a apreciação d'um leitor futuro que, via de regra, sou apenas eu mesmo. Forçoso é contar, todavia, o imenso prazer que me dá ler quanto escrevo. Chamem de narcisismo ou de autocomplacência,  esse prazer que me animou literário até aqui é, em si, a humanidade que deixo nas coisas.


Entretanto, havia planejado escrever sobre outra coisa, não esse patético relato de minha demissão. O que pretendia contar, ao fim e ao cabo, era sobre o casaco que visto todos os dias para trabalhar (vede como tergiverso ao redor de meus argumentos...) e estava usando n'aquele momento difícil para mim. Trata-se de um casaco escuro de couro que me cobre dos ombros à cintura. Embora eu ande de moto, não é um típico blusão de motoqueiro, haja vista ter fecho de botões, não de zíper. É um casaco que lembra um terno mal cortado, d'aqueles de botões altos, mas em couro escuro. Não deve ter me custado barato quando o comprei, visto que não sou rico e qualquer coisa fora do ordinário me pesa muito nas contas do mês corrente. Devo, inclusive, ter fechado no vermelho quando o comprei, mas o facto é que o comprei há tantos anos que seu uso diário deve tê-lo feito se pagar incontáveis vezes. Sim, eu o visto todos os dias faz anos e somente hoje, em face do meu estado reflexivo, eu me dei conta d'isso. Se o fiz foi por puro acaso: sentado com o dito cujo em meu colo, eu me vi olhando para suas dobras e esticões. Sim, era meu corpo que o havia moldado e, sim, aquela era a única peça de meu vestuário que eu possuía há mais de dez anos.  Ele, mesmo fora de mim, mantinha a minha forma e lembrava a minha presença. Como um isótopo radiativo ao longo de décadas, ele irradiaria a minha humanidade a quem o tivesse visto comigo, tal a minha quotidiana insistência em vesti-lo sobre tudo o que vestisse. A esconder a minha miséria, como brincam os franceses, ou a revelar a minha esquisitice, o casaco escuro era uma coisa na qual eu deixava a minha humanidade e, a partir d'esse momento inusitado.


Levanto-me para seguir para a rua. Ponho meu casaco que tornarei a pôr amanhã para ir ao meu novo trabalho e depois de amanhã e depois.


Betim - 06 05 2021  

sexta-feira, 8 de abril de 2022

DECÁLOGO DO AUTORITARISMO

 DECÁLOGO DO AUTORITARISMO


I - FAÇA O QUE EU LHE MANDO E GUARDE O QUE VOCÊ SABE!


II - VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?


III - CONTRA A AUTORIDADE NÃO HÁ ARGUMENTOS.


IV - EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSQUITO. NEM BALA…


V - MUITO AJUDA QUEM NÃO ATRAPALHA. NÃO ATRAPALHA QUEM É BEM MANDADO!


VI - OBEDECER COMO UM CADÁVER (SENÃO VOCÊ SERÁ UM CADÁVER).


VII - MANDA QUEM PODE; OBEDECE QUEM TEM JUÍZO; MORRE QUEM NÃO TEM.


VIII - NADA COMO UMA BOTINADA BEM DADA PARA CADA UM SABER O SEU LUGAR.


IX - SUA OPINIÃO NÃO IMPORTA. SUA VONTADE NÃO IMPORTA. VOCÊ NÃO IMPORTA.


X - SÓ NÃO HÁ REGRAS PARA QUEM AS FAZ.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

VINTE E QUATRO DE DEZEMBRO

VINTE E QUATRO DE DEZEMBRO 


Quero chorar mas já não tenho mais lágrimas. 

O amor mais bonito se perdeu

em mil tentativas-e-erros. Não há mais nada.


Eu gostaria de ter alguém a que culpar,

mas a verdade é que estou triste demais 

para raciocinar.  Acabou por cansaço,

por distração e até por decepção. 


Eu quis muito -- posso dizer -- foi a coisa

que mais quis na vida. Perder esse amor de vez

é quase tão doloroso quanto morrer.

Estou meio morto agora. Meu peito bate,

mas o sangue embaça meus olhos tristes.


Preciso esquecer -- é que me resta -- tenho-de esquecer.


Amanhã será Natal. Jesus menino, salva-me d'essa  tristeza sem fim.  


Eu sei que fiz quase tudo o que podia, mas a sensação de derrota é imensa: Perdi a pessoa mais importante da minha vida. Nada mais faz sentido.


Ela será feliz novamente e isso é tudo que me consola. Eu não consegui fazê-la feliz.


Ela sabe que nunca vou deixar de amá-la, mas isso não parece importar mais. Ela seguiu em frente enquanto eu permaneço parado, sem esperança. 


Meus lábios murmuram: Feliz Natal! Eu te amo muito... Mas as palavras se perdem pelo quarto escuro. 


Adeus, meu grande amor. Vai com Deus. Eu seguirei também. 


Betim - 2020

sábado, 12 de dezembro de 2020

ONZE DE DEZEMBRO

ONZE DE DEZEMBRO

Lidar com o desamor é ruim,
que nem roçar um beco com enxada cega!

Deixar de gostar é revirar o coração, uma desnatureza
confusa e doentia: Não querer quem tanto se quis.
Sempre dar um passo para frente 
em direção ao novo e, logo após, um tropeço.

A gente cai no chão de mal jeito 
e fica parado olhando 
o futuro que não vem
e o passado que não passa.

A gente fica.

Às vezes acontece de topar com o outro 
e é estranho:
A amada distanciada se torna quase nada. 
Sua presença fria
nega o amor que dói na saudade da solidão.

Não. Não. Não.
Não é nada mais em nunca nem ninguém.

Não tempo há nem espaço no desencontro. Já deu!
Resta apenas a armadilha de se acostumar ao vazio
e desejar que acabe o fim.

Aqui não se diz que o copo está pela metade,
sim que está por meio,
não importa se está meio vazio ou meio cheio,
ou meio a meio…
Importa é ser honesto com os desejos
e admitir que se quer mais ou não.

Se carecer, sirva-se outra dose e até se abra outra garrafa.
Miséria pouca é bobagem, haja vista
que existir é se debruçar sobre o abismo
e dizer não à morte dia após dia.

Acabou? Abra-se outra e outra!

Betim — 2020

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NOVE DE NOVEMBRO

NOVE DE NOVEMBRO 

Quando minha morte se fizer necessária
para manter o Universo em movimento,
olharei pela última vez o céu
e darei testemunho de que vivi
a quem possa interessar.

Hoje, um dia tão bonito,
fiquei feliz por estar vivo ainda
e ter o sol em meu rosto.

Não. Não preciso de mais nada.
Basta-me esse calor 
e a serenidade de ver o tempo passar
sem qu'eu entenda por quê. 

Meus erros, eu os deixei sob as bananeiras
da ravina que fende o morro em dois.
Haverá sombra e humidade 
mesmo sob o sol a pino. Não temo
enterrar minha tristeza ali. 

Saio leve, morro abaixo
para a cidade que me ignora.

Algo bom, enfim.

Belo Horizonte - 2020

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

CINCO DE AGOSTO

CINCO DE AGOSTO

Para que serve um poema? Para quê?
Talvez enterneça um coração que se queira enternecido… Talvez o poeta se sinta um encantador de sensibilidades.
Hoje -- cansado demais para qualquer coisa -- poeto.
Sim, poeto sem mais romantismo. Não tento seduzir ninguém. Escrevo ao leitor atento sem tentar iludi-lo. Não ponho personas sobre minha face.
Eu apenas proponho versos (ou prosas…) para um dia que não deu certo.
Não tenho um nome de mulher para trovar.
Não acho que haja amor por aí: As pessoas apenas andam pelo mundo.
De repente, sem muita razão, uma tristeza assentou feito sereno na noite. Por mais que eu tente, as vitórias são relativas e as derrotas são absolutas.
Eu devia estar feliz, mas não estou.
Em todo caso careço de poetar. Forço as palavras até que façam sentido!
Quem disse que um poema não sirva para capitular? Cessar fogo! 
Eu poeto sobre a derrota d'esse dia. Esse diazinho aziago em que fiz favores à beira do servilismo e não senti bem nenhum em ajudar aos outros.
Afinal, quem avaliou a qualidade do ouro da regra dourada? Não será falseio essa caridade platônica de amar sem objeto definido?
Filantropo, amo uma humanidade sem rostos. Talvez um amor impossível em si. Ainda assim, escrevo.
A utilidade do poema é dizer o que a mente evita. O papel aceita qualquer coisa… Por isso o poema pode o que pensamento poda.
No fundo, talvez poesia seja apenas isto.
Escrevo versos para um dia que acabou escuro.

Matozinhos 2020

domingo, 7 de junho de 2020

UM CORPO HUMANO

UM CORPO HUMANO

1° ROUND
Eu sou um corpo humano levando porrada.
Um corpo, humano, se ferrando e envelhecendo.
O supercílio cortado jorra sangue do olho inchado,
borrando a visão do que me cerca,
enquanto resisto em pé, trocando as pernas.
Abraço o adversário e o empurro contra as cordas,
mas o soco, de baixo para cima, não encaixa…
O gongo soa finalizando meu estupor.

2° ROUND
Eu tenho um grande plano, eu sei: Ficar de pé!
Tenho de me manter longe dos golpes; rodar o ringue.
Olho em seus punhos e traquejo… Nunca se sabe
D’onde vem a próxima porrada.
Ataca. Recua, Avança, Defende, Guarda posta.
E respiro, respiro, respiro, respiro…
O gongo soa sem me dar por conta: 
Desabo no tamborete do canto.

3° ROUND
Agora ele vem, como uma máquina, ele vem.
Troca golpes como se de aço os punhos… 
Acto contínuo, gingo e golpeio, mas apanho.
O corpo que sou fala em minha mente: Basta!
No entanto, é a ausência de consciência que me derruba
Quando um golpe d’ele, afinal, encaixa.
D’um instante para o outro, estou no chão. Abrem contagem.
Ponho-me de pé, assustado.
Ele me estuda o estrago e sorri.

4° ROUND
De repente, não estou no ringue com o outro: É o Fado!
Que troca socos comigo e me derruba.
Brinca com minha estratégia de saco de pancadas e me cansa
Como se eu fosse um gatinho em suas mãos poderosas.
Está lá, ameaçador, a cada instante
Cioso de ter nas mãos o golpe fatal.
Espera, sabe-se lá porquê, o tempo propício
Para me levar à lona outra vez. Nem disfarça mais
A força que exibe face a meus passos.
O gongo bandala e ele me olha, adversário.

5° ROUND
Pedem-me para jogar a toalha. Eu lhes pergunto:
 — “Que diferença faz?!”
Sou algo físico! Um ser físico! Um corpo humano!
Levanto minhas carnes. Cambaleio no vazio.
O outro saboreia minha caminhada sem prumo…
Assim o Fado: Desgasta-nos. Pune-nos. Surpreende-nos.
N’um combate desigual, pois, não morre ele.
Ele me atravessa, incólume, a existência.
Nada do qu’eu faça o alcança.
Nada o diminui ou afasta.
Ele joga comigo, titereiro alegre, a seu bel prazer.
Até que se canse e me aniquile:
Na lona, outra vez, para não levantar!

Temos um vencedor.

Betim — 07 06 2020

sábado, 30 de maio de 2020

SETE DE OUTUBRO

SETE DE OUTUBRO

Quando um poeta morre, nada acontece.

Não há comoção pelo desparecimento de quem mal aparecia.
Não há dor pela perda que quem jamais se quis um ganho.
Não há pêsames àqueles que mal lhe sabiam vivo antes, discreto que era.

Poetas morrem todos os dias, ninguém se dá conta.

Todos os dias a lâmina do mundo deixa em carne viva os seus pulsos,
cuja fina pele mal se regenera para os novos cortes...

Todos os dias o abutre de Zeus -- ou o álcool da caninha... -- lhe consome o fígado em frangalhos...

Oh, Prometeu inútil, de que serve teu fogo?!
A descoberta da maravilha não permite mais que alguma luz, visto
que o Universo permaneça em trevas indevassáveis.

O que é a poesia senão uma chama na escuridão imensa?

Pouco importa se um fósforo ou se uma supernova: Há matéria escura em demasia...
E o poeta está ali, segurando essa luz débil que lhe custa, simplesmente, tudo.

Sabei, vós outros, que hoje morreu um poeta.

Seu nome, sua vida e sua obra restem em paz.

Betim - 2019

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

CO'AS PRÓPRIAS PALAVRAS

CO'AS PRÓPRIAS PALAVRAS

Inopinadamente, ele escreve:

E eu, que de tanto amar-te já nem sei,
Se isto é mesmo amor ou se é loucura
Amar-te foi seguir na noite escura
Os sonhos que acordado te sonhei...

Depois, pensando melhor, metralha sobre o impasse:

-- "Ai de quem abandona ainda nos quartetos
O soneto não-nomeado de sua vida
E faz supor que cala por que tinha muito a dizer..."

-- "Ai de quem escreve para ser lido...
Antes escrevesse para se ler!
Para, co'as próprias palavras (próprias, mas furtadas do idioma...) dar voz a desatinos inconfessáveis.

-- "Ai de quem assume um discurso reticente, entre
meias-palavras e meias verdades!"

(Céus... Ai d'ele! D'este mentecapto!
Que põe no palco da poesia
Fantasias que não fazem sonhar;
Piadas que não fazem rir;
Fábulas que não fazem pensar.
Em suma, entreter, entreter e entreter!)

Mísero entre miseráveis quem se jacta POETA!
E, à espera de aplausos, escuta vaias:
-- "Admirável público! Esta noite um pateta (digo, poeta...) vem vos arrancar bocejos e indiferença! Recebei esse parvo que vos convida a experimentar o sabor de palavras insossas e o saber de verdades herméticas. Arte pela arte!"

Ele está lá na berlinda -- de pé e só, como um comediante --
Tem um olhar febril que se perde no infinito.
É jovem, mas parece velho... Parece não dormir há dias!

No mais, é um tipo comum, tímido até. Escutemo-lo:
-- " Todo escritor parece condenado a reescrever quanto leu co'as próprias palavras. Não, caríssimos, nada tenho que seja absolutamente novo para vos apresentar. Tudo está escrito. Tudo já foi dito."

E calou-se. Os presentes começaram a se impacientar com seu silêncio e lhe exigiam: -- "Declama para nós!" -- mas ele nada respondia. Em pé, olhando para a escuridão do público, viu quando os mais inquietos começaram a se levantar e sair do teatro. Logo, havia burburinho e apupos. Houve quem apelasse: --" Quero o dinheiro de volta!" -- mas lhe lembraram que ninguém pagou nada por aquilo. Ele insistiu -- "Quero meu tempo de volta!" -- e, impacientes tanto com o poeta quanto com o revoltado, ninguém mais lhe deu ouvidos.

Todos saíram do teatro, mas o poeta permaneceu no palco, agora totalmente sozinho, iluminado no proscênio d'um palco sem cenário. Enfim, minutos após saísse o último expectador, ele começou a declamar, de si para si, aquele seu poema:

E eu, que de tanto amar-te já nem sei,
Se isto é mesmo amor ou se é loucura
Amar-te foi seguir na noite escura
Os sonhos que acordado te sonhei...

E assim, co'as próprias palavras" seu eu-lírico se expressou a um tu-poético aparentemente platônico.

Betim - 02 01 2019


P.S.: Deviam haver mais dez versos, mas os falou tão baixinho que nem ele mesmo escutou.

domingo, 22 de dezembro de 2019

ACERCA DAS DOUTRINAS

ACERCA DAS DOUTRINAS

Toda doutrina é um arranjo de aspecto razoável que pretende desenvolver a partir de certas expressões fundamentais - também chamadas dogmas - reflexões acerca dos problemas propostos pela experiência humana. Ao buscar respostas em concordância com os dogmas estabelecidos, o corpo doutrinal reafirma continuamente a validade d'estes mesmos dogmas, de modo a redundarem em soluções idealísticas. É na conversão d'estes ideais em realidades que muitas vezes consiste a noção de progresso. As coisas melhoram quando desejos experienciados como legítimos (não passar fome em nenhuma hipótese, ter acesso à terra ou trabalho assalariado e possuir liberdade para ir e vir, para ficar nos "desejos humanos" mais simples…) são solucionados pelas práticas desenvolvidas a partir dos ideais propostos por sistema doutrinal.

O que nos leva, humanamente, a duvidar das doutrinas é sua multiplicidade autolegitimadora. As doutrinas, como quase tudo na vida, são consolidadas em processos de tentativa-e-erro: Ideias aparentemente sensatas são testadas pelas circunstâncias. Os séculos se encarregam em decantar lentamente as graves posições assumidas para que tudo aquilo que pese se acumule bem no fundo do profundo lago dos costumes e, sobretudo, para que na superfície as águas se apresentem cristalinas em face dos doutrinados e estes, ao olharem para elas, vejam senão o espelho de suas certezas pessoais. Evidente que a limpidez d'este espelho d'água depende muito da capacidade de autosugestão de quem olha, vendo pureza onde há turbidez ou senão esperando, pacientemente, que a poeira dos conflitos sedimente e deixe de ser visível depositada lá no fundo. Ali, nas profundidades abissais, onde nem a luz nem o olhar humano chegam, o mistério é respeitosamente admitido como parte suplementar do corpo da doutrina. Ou em palavras mais poéticas, onde o arsenal doutrinário parece se esgotar, ali o apologeta se cala e o místico contempla! Tudo aquilo que o doutor na doutrina se "esquece" ou se nega a responder, passa a ser admitido como mistério divino, afinal, é vontade da Divindade e limitação do Homem conhecer todas as coisas! Pode se afirmar, inclusive, que o mistério se impõe não por má vontade do Criador em se revelar, mas por incapacidade humana (criado limitado por esse mesmo Criador) em alcançar a vastidão do pensamento divino. Aceitando-se incapaz, o ser humano aceita também sua ignorância sobre o Universo que o cerca, imerso em beatitude resignada, admite n'aquilo que não compreende parte do plano divino. N'outras palavras, a doutrina deve responder tudo, mas mesmo quando não responde de modo minimamente satisfatório, encontra no mistério sobrenatural um vazio cômodo onde tudo que não tem resposta pode ser guardado à espera da revelação divina.

Isso é, de facto, maravilhoso n'um corpo doutrinal: Oferecer respostas para toda e qualquer questão. Mesmo quando uma doutrina silencia acerca do que não era sequer problematizado quando foi formatada, seus valorosos guardiães se encarregam de produzir - por analogia, por dialética ou simplesmente por autoridade - as verdades que darão ao fiel a frase feita que legitime sua pertinência mesmo em tempos de crise. A doutrina oferece uma explicação, mas principalmente um vir-a-ser. Esse projeto de ser humano que as doutrinas nos oferecem explicam porque ainda não resolveram nossos problemas. Afinal, não basta a uma doutrina ser hegemônica para melhorar o mundo; é preciso que seja absoluta, controlando toda a acção humana até que possa manifestar sua perfeição… Isso se verifica historicamente no formidável quadro de guerras religiosas que a Humanidade apresenta, ou seja, a vaga esperança de que quando todos professarem a mesma fé e repetirem o mesmo credo, enfim, haverá harmonia nas relações humanas. Guerras por uma paz sempre adiada…

O grande problema das doutrinas acaba sendo justamente esse, ou seja, afirmar serem capazes de consertar todos os problemas humanos quando e se suas normas forem obedecidas por todos para, d'este modo, uniformizarem os olhares sobre os problemas até as respostas decoradas e repetidas por todos se tornem a Verdade. Todo homem e mulher, portanto, é convidado a mudar de vida quando se depara com uma doutrina. Não importa quem seja ou que faça: Tem-de melhorar!

Esse novo ser gerado a partir da compreensão e seguimento da doutrina passa a se distinguir dos demais que ainda permanecem nas trevas da ignorância. Cada vez mais confiante nas certezas da doutrina que escolheu seguir, esse fiel promove em sua própria existência um rosto e uma conduta que permite a qualquer doutrina a consolidação do seu grande objetivo inicial, a saber, tornar-se uma Moral. Com efeito, mais do que se contrapôr às demais doutrinas no afã de superá-las com argumentos, toda doutrina se esmera em apresentar bons costumes. Em última análise, pouco importa se seus dogmas são defensáveis pela lógica, mas antes lhe interessa apresentar as linhas-guias que promovem aos seus seguidores um projeto de vida. Os doutrinadores pretendem menos estarem certos do que influenciarem as multidões. A Verdade pode ser qualquer uma, desde que as pessoas adiram a ela. Ao contrário dos seguidores - que devem ser desaconselhados a ter opiniões em desconformidade com a doutrina - os doutrinadores têm consciência dos pontos cegos nas verdades de sua doutrina. Evitá-los, é questão de bom senso. Em sendo o divino perfeito, imperfeito é o olhar humano sobre ele.

E assim as doutrinas se perpetuaram ao longo da História… O que deveria realmente nos incomodar é porque, em pleno século XXI, ainda termos necessidade de aderirmos a doutrinas ou ideologias. Parece incompatível com a liberdade humana em nosso tempo ser forçado a aderir a qualquer pacote de opiniões e ideais que um corpo sistemático venha a nos oferecer. Até se pode compreender a comodidade que essa espécie de "terceirização" do pensamento que a adesão a doutrinas nos permite possa permitir. Não obstante, é a esquizofrenia de pensar com a própria cabeça e ao mesmo tempo pensa conforme a ortodoxia que se expressa na ideia orwelliana de duplipensar.

A contraposição entre Razão e Fé que atravessou a modernidade parece não ser mais necessária uma vez que, em sociedades globalizadas, nenhuma doutrina possa mais se arvorar superior às demais. A Verdade relativizada d'uma doutrina se tornou o que sempre foi, isto é, apenas opiniões sistematizadas. Se fôssemos de facto livres-pensadores, não ficaríamos nos mesmos distorcendo nosso pensamento para encaixá-los n'esse ou n'aquele sistema.

Evidente que o pensamento contemporâneo pode e deve ser apreciado pela sociedade que após julga se é relevante ou não para suas problemáticas. Todavia, jamais poderá se submeter exclusividade ao senso comum ou ao inconsciente colectivo. É forçoso apresentar ideias e pôr em crise ideários mesmo quando entram em choque com a sensibilidade das pessoas. Qualquer um que pretenda pensar o mundo em que vivemos deve fazê-lo sem os limites estreitos d'uma doutrina. Apenas estabelecida essa condição, pode se falar em livre pensamento.

Ou senão, entre apologéticas e diatribes, assistiremos apenas fogueiras de vaidades, não debates intelectuais honestos.

Betim - 22 12 2019

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

PÉS-DE-CHINELO

PÉS-DE-CHINELO

É interessante como na Sociedade de Consumo a condição humana do pobre é, por via de regra, precarizada… Embora se declare que todos os homens sejam livres e iguais em direitos, não são poucos os direitos negados àqueles que não podem pagar. O Direito não socorre os que dormem… Os que não pagam, tampouco! A própria Democracia sempre conviveu com tentação excludente de diferenciar cidadãos votantes dos demais habitantes da Pólis, fosse pelo nível mínimo de educação formal para votar; fosse pelo puro e simples voto censitário… Tocqueville, ou outro liberal de seu século, nos legou a exemplar historieta dos operários que, interessados em participar da República -- primeiro votando e, com certeza, buscando ser votados um dia -- inocentemente perguntaram às autoridades o que deveriam fazer para participar do sufrágio "universal". -- "Fiquem ricos! -- respondeu um notário d'antanho tentando ser espirituoso ou realista.

Sim, para votar na França liberal novecentista era preciso ter renda anual comprovada… "Pobres não sabem votar ou votam errado. -- argumentam uns. "Quem passa necessidade, forçosamente, há-de vender seu voto! -- contemporizam outros. A História nos mostra, entretanto, que as democracias se fortaleceram quando conseguiram incluir as pessoas mediante instrumentos de transformação social menos traumáticos e efetivos que as revoluções. Somente envolvendo as pessoas nas decisões é que obediência ou mesmo submissão se transformam em participação.

Não por outra razão a ideia de decência e decoro -- que tem a ver sobretudo com os costumes locais, não com reflexões éticas universais -- sejam inequivocamente sustentadas por condições materiais. Sim, a pobreza é indecente! Ser pobre é vestir-se e agir de modo inadequado segundo padrões impostos por quem pretende, a qualquer custo, se distinguir dos menos favorecidos. Tudo! Todo um estado de coisas é construído para que o pobre odeie sua condição e se sacrifique por todos os meios possíveis (os ilegais, inclusive…) para que deixe de ser pobre. Ser pobre é sempre ser pior. Pobre é estúpido, é ignorante, é irresponsável, é desonesto… É, na melhor das hipóteses, alguém a ser controlado, seja pelas forças policiais; seja pelos preceitos religiosos.

Evidente que esse bombardeio ideológico sobre os pobres com vias integrá-los às estruturas de Capital e Trabalho cobram seu preço na saúde mental. Não aceitar que a pobreza possa ser uma escolha consciente por certo estilo vida transforma os pobres em fracassados ou perdedores. Sob tal perspectiva, a sociedade é uma espécie de corrida com obstáculos onde todos, não importa d'onde ou quando deem largada, devem gastar suas existências no afã de chegar ao topo da pirâmide. Não admira que haja quem escolha "ficar rico ou morrer tentando"… N'esse estado de coisas, a pobreza é apresentada como algo tão incompleto e vexatório que o sentido da vida não possa ser outro senão obter mais e mais conforto material. Não que se pretenda aqui idealizar a pobreza: Perrengue é perrengue! Sem embargo, o que não se deve aceitar de modo nenhum é a idealização da riqueza. Se por um lado, apostar nos mecanismos de retribuição neurológicos como promoção d'um consumismo ostensivo desenfreado não promovem senão ansiedade n'aqueles que têm dinheiro para usufruir do mais novo e melhor; por outro, os pobres alternam entre a motivação e a depressão provocados por objectos de desejo inaccessíveis. N'um mundo onde se é o que se tem, aquele que não tem nada não é ninguém.

Isso me faz lembrar sobre uma velha anedota sobre a relatividade dos adjetivos para qualificar de forma distinta ricos e pobres diante de situações semelhantes… Adágio popular, virou até música de humorista:

"Rico correndo é atleta
Pobre correndo é ladrão
Rico com medo é nervoso
Pobre com medo é cagão
O rico mete na cama
E o pobre mete no chão"
"Pobre e Rico", por Ari Toledo.

Olhando sob este viés, digamos, material da existência humana, percebe-se que a formação da sociedade brasileira é, em linhas gerais, a História da inserção de grupos humanos estranhos ao Capital e ao Trabalho na estruturas de mercado. Ameríndios, africanos e mesmo europeus sujeitos as condições semifeudais do Antigo Regime habitavam um Novo Mundo no qual a carência material e tecnológica era tamanha que ter ou não ter dinheiro não chegava a ser percebido como algo relevante, afinal, viviam todos à base de mandioca e banana empenhados em exportar tudo o que fosse possível extrair d'esse chão.

Os relatos do Brasil colonial, por via de regra, apresentam homens e mulheres miseráveis ambientando-se a uma Natureza opulenta-mas-hostil. Com tal estado de coisas, a informalidade nas relações humanas se estabeleceu para consolidação do "homem cordial" que o brasileiro se percebe em seu afã de relativizar ou mesmo esvaziar os graves conflitos que uma sociedade extremamente desigual pressupõe. Não que nossa História não seja sangrenta, ao contrário. Mas a conciliação e o desleixo sempre andaram de mãos dadas na construção d'um imaginário tolerante. A cordialidade brasileira do "jeitinho" atravessa nossas constituições e instituições. No Brasil, até a disciplina militar conviveu com as "vivandeiras" enquanto políticos e juízes tutelam o povo inculto mediante o acúmulo de privilégios absurdos.

Nos seculos XVIII e XIX, a diferença prática entre a vida do brasileiro pobre e o rico não chegava a ser algo muito significativo. Embora os senhores de engenho e comerciantes se vestissem à europeia, o pouco dinheiro que circulava não lhes trazia grande qualidade de vida. De facto, à medida que a diferença entre ser rico ou pobre na exuberante natureza tropical se explicita, menos se questiona o estilo de vida do colonizador. Este, referendado pelas conquistas tecnológicas europeias -- importadas, literalmente, a peso de ouro -- senta-se à sombra das palmeiras para reclamar do povo preguiçoso e acomodado que o cerca… Em sua cabeça simplista de macho-adulto-branco, o rico advoga que todas as pessoas deveriam buscar, tal como ele, o sucesso material.

Pés-de-chinelo, somos convencidos diariamente pelos ricos que não há nada pior do sermos como somos. Logo, devemos trabalhar muito para termos "uma vida melhor", quando o que realmente liberta as pessoas e transforma suas vidas é a Educação que as forma, não a Riqueza Material que ostentam (até porque, muita riqueza por aí tem origem ilícita). Eu -- descendente de índios espoliados, africanos captivos e europeus desesperados -- confesso que não me sinto atraído pelos maneirismos dos burgueses metidos a besta. Prefiro-me um humilde de chinelo de dedo do que um deslumbrado que pensa que dignidade se compra com sapatos lustrosos.

Ademais, para quem está no topo a vista pode até ser um privilégio único, mas facto é que qualquer belvedere é exíguo demais para comportar as multidões que transitam nos degraus inferiores da sociedade. O que ideólogos do sucesso ignoram comodamente é não haver lugar para todos se todos chegarem lá. Vendendo esperanças, constroem uma ordem social baseada em ilusões que, frustradas, dão lugar a revoltas e crises cíclicas.
 
Afinal, é uma pirâmide essa sociedade que está aí…

Betim - 20 12 2019

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

TRÊS DE OUTUBRO

TRÊS DE OUTUBRO

Impacienta-me não saber o que fazer
n'esse momento grave de minha vida, quando
meus passos não me conduzem e as portas não se abrem.

Tenho ânsias de infinito, mas vomito vinho doce...

Pretenso tantas coisas, desconfio não ser mais nada
e aguardo o Juízo como se já morto e enterrado. Não há
umbrais d'onde minhas carnes possam retornar incorruptas...
Não, tudo o que há é a estranheza d'este momento
que se arrasta faz semanas sem me propor veredas.

Pela primeira vez na vida tenho medo.

Temo a hipertensão e a guerra global em igual medida, claudico
há dias pelas ruas de minha cidade: Há dor.
Temo o dinheiro curto e as pequenas expectativas, pior:
Temo ter me tornado irrelevante.

Esquecido no corredor d'alguma corporação, eu verso
ciente de que deveria trabalhar, mas não há trabalho senão
enxugar o gelo do icebergue à deriva...

Não sou sequer um perdedor, pois, não entrei em campo.
Não fui bom o bastante para envergar o uniforme e ser carne de canhão.

Há conflitos nas ruas; nos becos... Há sombras
estendendo-se por sobre toda a metrópole. Há sinais
de fumaça e poeira informando do fim próximo. Há tardes
de sol abrasador com a secura de saaras enquanto passo a caminho. Há ódios
reverberando em milhões de olhos vidrados em telas azuis que hipnotizam. Há distâncias
capazes de desumanizar os outros e a mim mesmo para os outros... Basta!
É preciso continuar andando.

Todavia, aonde vou?

Estou velho demais para m'empolgar com promessas de sucesso.
Já ouvi muitas; já persegui várias...
Estou cansado. Não, estou entediado.

E jamais se deve subestimar o poder criador-destruidor do tédio.

Betim - 2019 

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

AMOR ESTÁ MORTO

AMOR ESTÁ MORTO

Extra! Extra!
Em primeira mão: AMOR ESTÁ MORTO.

Suas flechas foram encontradas
à beira do riacho em que se afogou.
O pequeno corpo alado, todavia,
permanece oculto em meio às algas.

Ninguém lhe soube o motivo, embora
não faltassem descontentes raivosos
suspirando por vingança.

Multidões seguem o cortejo,
carregando um caixão vazio
no anseio de lhe dar descanso.
Ele, filho de deuses,
sobreviveu a morte de todos...
Um por um, descendo
do Olimpo para o Olvido!

Chegou seu dia, afinal.
Não poderia o Amor habitar essa terra onde
todos se desdenham ou se desconfiam.

Nem mesmo o deus cristão
lhe trocando o heleno nome
-- de Eros para Ágape... --
evitou que o esquecessem.

Passados os milênios,
também o Verbo desceu ao Olvido.

Enquanto Eros-Ágape se equilibrava
na corda-bamba da modernidade,
iconoclastas ensandecidos o difamavam.

Triste e esquecido,
tal como antes o grande deus Pan,
também o pequeno Amor
foi ter às águas do Lete
e nunca mais foi visto em lugar nenhum.

Betim - 11 02 2019

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

PRIMEIRO DE ABRIL

PRIMEIRO DE ABRIL

Hoje é primeiro de abril.

Primeiro de abril de mil novecentos e sessenta e quatro.

Não, não te enganes!
Os calendários, tal como os relógios, são uma convenção social e, a partir de hoje, os ponteiros voltam para trás.

Há quem sinta saudade e, nostálgico, prefira algum lugar do passado ao presente. Mas esse alguém, d'essa vez, foi o povo brasileiro ao eleger um ex-militar cercado de militares.

Eu me lembro do que eles fizeram em mil novecentos e sessenta e quatro, doze anos antes d'eu nascer! Sim, eu li como interromperam a ordem institucional em nome do combate à corrupção e do medo d'um levante comunista.

Eu tento entender, juro, eu tento entender. Havia outras opções. Havia outros caminhos. Por que buscar o "novo" no passado? E, sobretudo, n'um passado tão feio?

Ditadura, tortura, censura, amargura e desventura.

Há o medo do bandidismo. Há o desejo de ordem e progresso. Há a necessidade de punir os políticos tradicionais. Há a vontade de tentar algo diferente. Medo, desejo, necessidade, vontade... Outros nomes para manipulação coletiva!

Sim, hoje é primeiro de abril, dia da mentira! O povo passa o dia a trolar uns aos outros. Uns soltam fogos e buzinam. Outros, invadem avenidas e satanizam quem pensa diferente; quem é diferente...
A grande mentira de hoje, porém, é o homem que elegeram acreditando em mentiras enviadas para celulares!

Olho e vejo que nos tornamos piores do que éramos. Sim, a Pátria da democracia multiétnica! A terra do homem cordial! Mitos que se dissolvem diante da realidade d'um povo que se curva diante d'um "mito".

Mas, o que é esse mito?

É um homem que entrou nos noticiários ainda na juventude explodindo bombas;
Um parlamentar famoso pela incoerência de defender o fechamento do Congresso e de fazer o elogio da Ditadura Militar;
Um estranho que preferiu atacar os outros a explicar como fará para desenvolver o país.


Sim, o povo brasileiro assinou um cheque em branco e deu a um lunático. Não sabemos quase nada sobre como pretende governar. Eu, pessoalmente, tenho a impressão de que ele, por suas declarações bombásticas frequentes, passará a maior parte do tempo contemporizando os absurdos que fala enquanto as reformas trabalhista, previdenciária e tributária reforçam privilégios (dos militares, aliás), sobrecarregando ainda mais o trabalhador e o empresariado.

Quando a lua de mel com o povo que o elegeu acabar, ele vai pôr a culpa no Congresso, e fechá-lo!

Quando seus apoiadores encrencados com o Judiciário e o Ministério Público o pressionarem, engavetará!

Quando a Comunidade Internacional questionar seu radicalismo contra os Direitos Humanos (que não, não são invenção da esquerda...) ele isolará o país.

Hoje, meus amigos e meus inimigos, é primeiro de abril de mil novecentos e sessenta e quatro.
Pensem o que pensarem, para mim, demos um grande passo para trás em nome d'uma religiosidade e conservadorismo caducos:

Deus acima de tudo? O Brasil acima de todos?
Democracia, para quê? Estado Laico, para quê?
Aclamemos um rei cristão sem linhagem! Um presidente fardado!

Esperemos que ele mate os trinta mil que vê como mortes necessárias para intimidar os oponentes, sejam narcotraficantes ou não. Já temos matado mesmo, todos os dias. A diferença é que agora alguém lucra com isso.

Sem embargo, não se esqueçam de mil novecentos e sessenta e quatro.
Foram vinte anos para acabar com aquela aventura militar! Quantos anos serão necessários para acabar com esta?

Duvido que apenas quatro.

Betim - 2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

TREZE DE AGOSTO

TREZE DE AGOSTO

É o tipo de bobagem que deixa a gente um pouco mais feliz. Sim, as pequenas alegrias que somadas podem compro uma felicidade plena, gratuita e desinteressada. Estar vivo. Olhar e ver. Aceitar a condição humana com suas misérias e maravilhas... Hoje acordei mal. Muita dor de cabeça e mal estar. Tinha a impressão de que o despertador me furtara horas de sono enquanto me dirigia à cozinha e punha água para ferver. Maldisse a noite mal dormida e a angústia dos impasses no trabalho que me tiraram o sono. Maldisse o café que sorvia sem qualquer gosto e ainda o dinheiro gasto sem prazer no fim de semana. Maldizia tudo que, d'um modo ou d'outro, concorrera para aquele despertar tétrico no qual a própria cabeça me impedia de pensar.  O dia só estava começando e já desfilavam diante de mim inúmeras situações desagradáveis, sobretudo por atestarem minha incompetência e inabilidade. Eu precisava virar a mesa, mas faltavam-me forças... Cheguei a duvidar de que qualquer intervenção minha fosse ainda algo pertinente. Eu me apequenava ante mim mesmo.

Deixei o dia seguir. Fui para o trabalho e parei para ver a manhã: Alguns minutos de contemplação vazia. Não havia nenhuma paisagem extraordinária diante dos meus olhos ou tampouco epifanias espirituais quando os fechava. Eu olhava e via o mundo tal como era, nem feio nem bonito. Percebi então que, o que quer que acontecesse, eu deveria aceitar como parte indissociável da vida. O fracasso que antevia há dias, ainda que se concretizasse hoje, seria bem-vindo, assim como tantos fragorosos fracassos passados hoje são saudados em minh'alma face à pessoa que me tornei. Coleccionar fracassos dizia muito de mim e de minhas limitações. Eu queria ser melhor do que sou, mas não era. Eu queria ser mais culto, mais centrado, mais ousado e mais capaz de realizações. Todavia, não passava d'um vago sonhador entorpecido. Minhas miragens interiores não serviram para realizar livros, arquiteturas ou imagens excepcionais. Eu continuo trafegando no limbo em busca de fantasmas obscuros. Esse talvez seja o resumo perfeito de minha vida.

Mas o incrível d'isso tudo é que eu estava feliz. Havia uma postura positiva em contemplar o próprio fracasso, mais do que em celebrar uma vitória, pensava. Eu podia seguir lutando, mas o facto é que fora desmascarado e vilmente exposto: Eu não era grande! Não fizera algo grande quando finalmente tive a oportunidade. Eu falhei novamente, como tantas vezes já havia falhado. N'estas horas, se eu me conhecia bem, a vontade de jogar tudo para o alto e m'esconder n'algum buraco só era não era maior que a necessidade de seguir em frente, apesar dos pesares. Sim, eu tinha-de seguir em frente, com as orelhas de burro expostas e sem a menor esperança de que, talvez, nem todos o notassem. Eu e minhas mazelas. Eu e minhas contradições. Eu sou aquele que não é bom o bastante, nunca fui e nunca serei. Minha felicidade, de facto, era sabê-lo.

À medida que a dor de cabeça passava e o momento autocontemplativo se dissipava, eu chegava ao meu posto de trabalho pleno de consciência de minhas limitações. Aceitá-las, ao invés de me martirizar, era o único bem qu'eu poderia me proporcionar. Ser quem eu era, para o bem ou para o mal, era a unica coisa boa que restava d'isso tudo. Aceitar aquela segunda-feira com todos os seus azares era a prioridade d'aquela manhã.

E assim o fiz. 

Betim - 2018