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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

NAS ENTRELINHAS

NAS ENTRELINHAS 


Por sob o verso, o ser e o seu anverso,

Que, em fuga, se m’encontram paralelos. 

Entre a verdade e o facto é percebê-los 

Convergir nos confins do Universo. 


Tendencioso ao infinito, eu me disperso 

Em meio a girassóis ultra-amarelos; 

E digo sem dizer nem desdizê-los, 

N’aquilo que translato em cada verso. 


Submerso e oculto oráculo; Profético… 

Metáforas do nada, ofício e casta,

Os escribas do bíblico e do herético!


Toda divindade é poética. Mais vasta 

Uma interpretação se o texto hermético: 

Leem mil verdades mas nenhuma basta!  


Belo Horizonte - 20 01 1998


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

ANGÚSTIA - UMA TRILOGIA

ANGÚSTIA - UMA TRILOGIA

                        

Certas palavras não podem ser ditas 

Sem que a verdade d’elas logo irrompa. 

Prescindem de ouropéis; de toda pompa, 

Quando um maior sentido as faz escritas. 


E aquele que ousar ver suas desditas 

Anunciadas ao vulgo por tal trompa,

Antes que cada verso outrem corrompa, 

Há-que se vazar cego as próprias vistas!... 


Assim, esta palavra impronunciável

— Sob pena de evocar imensa dor

Ou mesmo uma tristeza interminável —


Dê sentido ao sentimento de torpor,

Conhecido entre o estúpido e o inefável

Da mente abandonada ao próprio horror.


               *              *              *

                        II 

Hei sido reticente quanto a mim, 

Mas ao puxar angústia, átrio do nada,

Minh’alma revelou-se desolada,

Por labirintos vãos do início ao fim... 


Encadeei palavras. 'Inda assim,

Aonde vão se não chegam a nada?  

No pós-tudo, findei minha jornada 

Enclausurado à torre de marfim…


Por desvãos da memória a pena escreve 

Indiferente à lúcida derrota

E às remotas ruínas onde esteve.


No entanto, seja sim digno de nota:

Todo aquele que a versos vãos se atreve

Vagueia inopinado em terra ignota!


               *              *              *

                        III

Algo tem-de acabar com essa dor…

A angústia inenarrável do momento,

Que queda sobre mim sem mais intento

Com a fúria d’um anjo executor. 


E embora reste ver o sol se pôr,

Imerso n’um total abatimento,

Ainda hei-de cantar de novo ao vento 

Um desencanto a mais de sonhador. 


Sonhos?... Deixo-os perdidos os ideais.

E as luzes vão partindo com o sol

Em meio a pensamentos sós demais. 


Pouco difere a aurora do arrebol...

Tudo não passa d’uma angústia a mais,

Qual peixe que suplica pelo anzol.


Belo Horizonte - 12 12 1998


GRÃO DE POESIA

GRÃO DE POESIA


Se em ti há um poeta adormecido,

Que se perdeu de si em toda parte; 

Ou mesmo envergonhado de poetar-te, 

Visto um irrelevante presumido. 


Deixa estar… Cultiva em ti tua arte

Por teu grão de poesia ora esquecido.

Faze-o brotar de novo,  enternecido,

Que logo em muitos ramos se reparte.


Recria a cada página o Universo 

E o envolve de agradável fantasia,

Semeando mais ao largo e mais disperso.


Ao fim hás-de colher com alegria,   

Pois, farás alimento de teu verso

A corações famintos de poesia.                                        


Belo Horizonte - 12 05 1998

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

ÓRFICO

ÓRFICO 


Aedo primevo, descera até o inferno

Sem conhecer a morte, só o amor.

Cantando a Hades e a sombras ao redor,

Deixou as profundezas sem governo:


Cessou Sísifo o seu trabalho eterno,

Assim como as danaides o mal lavor.

Nem Tântalo, o sedento, teve ardor

Senão ouvir d’Orfeu o canto terno…!


Depois de comover a tudo e todos,

Concedem libertar a sua amada,

Que torna com o poeta pela estrada.


Contudo, perde a bela d’entre lodos:

Na ânsia d’antes rever o seu sorriso,

Vagueia sem inferno ou paraíso.


Belo Horizonte - 16 05 1998


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

UM ENCONTRO HUMANO

UM ENCONTRO HUMANO

As almas não se encontram, bem dizia

Manuel Bandeira em sua “Arte de Amar”,

E por que se haveriam-de encontrar

Se entre corpos cada um mais se perdia?!

Almas gêmeas… Estranha alegoria!

Quando tão melhor um comum lugar

Onde os corpos s’encontram a gozar

Dos prazeres em plena fantasia.

Talvez seja só eco ao que intuíra

Platão ao comentar do hermafrodita,

Cujo gênero em duplo se acredita.


Se não verdade, mais bela mentira!

Ou seja, a arte amorosa do prazer

No ambíguo-mas-humano bem-querer.


Belo Horizonte - 13 12 1998


PSICOSSOCIAL

PSICOSSOCIAL


No fundo dos teus olhos eu olhei.

E lá, jazem segredos abissais…

— Onde luz nenhuma não chega jamais —

Nos recônditos d’alma, t’encontrei.


Por sobre a tua pele eu te toquei.

De séculos de dor, os negros ais

Ecoavam existências desiguais…

Nas sombras da cidade, t’escutei.


Não é teu sofrimento só mental,

Se ausente da pirâmide social

Caminhas alta noite pela rua.


Tua dor sobretudo é exclusão,

Mas passas, invisível, na ilusão

De que catas estrelas para a lua.


Belo Horizonte - 08 05 1998

domingo, 27 de novembro de 2022

CHE PECCATO…

CHE PECCATO…


Que fizemos, amor, de nossas vidas,

Hoje perdidas sem qualquer sentido…?

Que pode ter com o amor acontecido

Se era luz e ora trevas insabidas?…


Que mal nos faz sangrar tantas feridas

Depois de anos tendo convivido?

Quantas histórias temos presumido,

Ao invés de conversarmos sem saídas…?


Que desastres nos perde o amor que é tudo?

Que t’encontra e depois me deixa mudo??

Que nos separa embora nos amando…?


Que encanto salvará nosso amor doente???

Que milagre o fará eternamente ???

Que pecado deixá-lo!? Que miserando?!


Betim - 08 09 1998


sábado, 26 de novembro de 2022

MORTO DE AMOR

MORTO DE AMOR

Este amor me tem feito muito mal,

Como andasse de noite no sereno

A procurar nas sombras mais veneno

Para esquecer teus olhos afinal.


Pareço um morto-vivo funcional,

Vagando pelo mundo ultraterreno…

Recoberto de culpas, me condeno

Por eu querer tão bem alguém tão mau!


Eu te amar me tem sido um infortúnio

De lunático uivando ao plenilúnio

Sem que nada na vida me conforte.


Que tu me ames ou não já nem importa,

Apenas te lamento a ideia torta

De haveres com amor me dado a morte.


Betim - 02 05 1998


FLAGELOS

FLAGELOS


Nós nos ferimos, eu e tu sangrando

Os nossos corações à flor da pele!

Incerto ao que o futuro nos revele,

Considero o vazio quando em quando…


O facto é que as farpas vão cravando

Fundo de cada peito antes imbele.

Quanta desfaçatez ‘inda desvele

Nosso amor n’esse estado miserando?!?


Do modo que medido eu fui por ti,  

— Cheio de imperfeições — eu te medi:

Em sílabas dispus grave torpor. 


N’este metro, só versos infelizes…

Feridas se tornando cicatrizes,

Enquanto os corações em desamor.


Betim - 16 08 1998


segunda-feira, 21 de novembro de 2022

VIA FÉRREA

VIA FÉRREA

Era muito quente, úmido e escondido

Nas ravinas sinuosas das vertentes.

Onde, longe das casas e das gentes,

Andávamos em busca do insabido.


Ainda muito novo e convencido,

– Ou igual diziam lá, “dado a repentes…” –

Os seguia pisando nos dormentes

Dos trilhos suburbanos a corrido.


E para não passar como covarde,

Tinha-de acompanhar sem dar vacilo

Aos vãos do pontilhão sem mais alarde.


Um monte de moleques era aquilo!

Que na linha do trem gastando a tarde,

Atravessava um tempo mais tranquilo.


Betim - 21 11 1998


terça-feira, 12 de julho de 2022

A VERDES

A VERDES    


E se enfim vós, Senhora, o nobre perfil 

Houvésseis co'a mirada aborrecida, 

Talvez volvesse aos olhos outra vida 

A verdes na verdade um outro abril... 


Quando o amor ao talento dava ardil 

E com versos louvei-vos tão garrida! 

Talvez volvesse então, enternecida, 

A verdes olhos a graça feminil. 


Assim, com vossos olhos no passado 

-- A carta ainda à mão sobre o regaço... -- 

Imaginar-vos-ia, enamorado, 


Quando a luz incidindo pelo braço 

Beijasse os vossos lábios sem pecado 

No beijo que mandei por forte traço. 


Belo Horizonte - 04 04 1998   


 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A CONVITE

A CONVITE 


E se um cartão, Senhora, o nobre perfil

Vos surpreendesse à lua embevecida,

E em vossos verdes olhos, distraída, 

Tivésseis ante vós um outro abril,


Quando o amor ao talento dava ardil

E com versos vos tive enternecida...!

Lembraríeis de mim para em seguida

Vos sorrirdes com graça feminil.


Quieta, com vossos olhos no passado

E meu convite à mão sobre o regaço,

Vós me recordarias enamorado.


E assim como o luar por vosso braço,

Tocar-vos-ia o peito sem pecado

Nos versos que vos fiz em fino traço.


Belo Horizonte - 04 04 1998

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

TRÍPTICO

TRÍPTICO  

 

O PAI - painel esquerdo  

 

Havia nos seus olhos tamanha ânsia,  

Mirando -- para além da morte -- o nada,  

Que a alma se lhe fugia na mirada  

A buscar um sentido na distância.  

 

Era o próprio retrato da inconstância.  

Por sob uma luz pouco afortunada,  

Trazia agora co’a face enrugada  

Um sorriso d’após segunda infância.  

 

Esquecido à poltrona em que jazia,  

Sentava-se curvado sobre o abdome  

Enquanto perscrutava o fim do dia.  

 

Mas tinha algo que nunca se consome  

E como que a lembrar-se que existia,  

Quedava a repetir o próprio nome...  

 

*** 

 

OS DOIS IRMÃOS - painel central 

 

Já costumavam ter seus olhos tristes 

Um ar entre incrédulo e arredio, 

Parecendo esperar o já tardio 

Alvoroço da vida com maus chistes. 

 

Indiferentes, jogam feito alpistes 

Seus vinténs ao som d’algum assovio. 

Pés descalços que ignoram qualquer frio, 

Qual cavaleiros sem arreios ristes. 

 

Tão meninos e já conhecem tudo 

O que o mundo dos homens mente e malda, 

Onde a dor mal se oculta ao rosto mudo. 

 

Por essas e outras, olham ora à balda, 

Simulando ser o avesso o que não são 

Enquanto vem a idade da razão. 

 

*** 

 

A MÃE - painel direito   

 

Como a Virgem Maria de Caieiro¹,     

Faz-se meias pelas tardes da existência.     

Vã, a luz invernal vem com veemência     

Sobre seu rosto, mãos e o talhe inteiro.    

 

Amêndoas as pupilas... Ao candeeiro,     

Brilham a paz da sua própria essência;     

Têm-lhe a sabedoria da vivência.     

Devotada a um ideal mais verdadeiro.   

 

Vê-se, na parede, uma Anunciação,     

Ao fundo da saleta aconchegante,     

Dando sentido a só composição.   

 

O mais são os detalhes d’este instante:    

A luz, a lã, o riso expectante...     

Aos olhos já em só contemplação.  

 

Betim - 14 10 1998