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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O FOOTING

O FOOTING


Mas era um tal de dar voltas à praça, 

Que, étoile, recebia bulevares

E avenidas de todos os lugares,

N’um tempo em que sonhar era de graça…


Em flerte, a mocidade se congraça

Junto das topiarias da Raul Soares,

Pelo circular lento dos andares

De quem então s’encontra e se abraça.


Tudo muito romântico não fosse

Logo a noite avançar aos que vadiam

N’outro serão devasso-porém-doce,


Nos cabarets e dancings das esquinas,

Onde aqueles bons moços se perdiam,

Depois de apaixonarem às meninas…


Belo Horizonte - 17 12 2022


domingo, 1 de janeiro de 2023

POETICIDADE

POETICIDADE 


Enquanto qualidade do que poético,

— Além-Literatura ou qualquer Arte —

Está a percepção que se comparte

Alhures no deslumbre, em facto, estético!


Porém, se me permitem um aparte, 

Tal encanto é saber peripatético 

A surpreender o crente como o cético

Das voltas do poetar em toda parte.


O poético está antes no momento 

Do que na escrita ou até no pensamento,

Visto ser um encontro a traduzir.


De modo que há poesia sem escrita

Em quanto extraordinário se acredita!

Só carece de letras p’ro porvir…


Betim - 31 12 2022






sábado, 31 de dezembro de 2022

PERCURSO

PERCURSO


Trajetória plotada sobre um mapa,

Onde lugares vistos no caminho.

O mundo é bem maior se me avizinho

Da distância marcada à cada etapa.


O sentido da vida ora m’escapa,

Contudo, sigo em frente o burburinho

Do córrego a descer devagarinho

Sem mais razão senão chegar à lapa.


Percorro vales, montes e cidades

Indiferente a metas ou verdades,

Tão-só pelo prazer de ver paisagens.


E o desenho ficando de lembrança

Me faz voltar a dedo na esperança

De sempre reencontrar boas viagens


Betim - 31 12 2022


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

MIRABOLANTE

MIRABOLANTE


Desenha arquiteturas impossíveis

A habitantes ainda não nascidos.

Ideia livres vãos além vencidos

Por estais tensionados em desníveis!


Com torres de metais incorruptíveis,

Quase a tocar os céus, antes proibidos,

Evoca de Babel os alaridos

Contra todos os deuses inservíveis!


Tanta imaginação n’uma estrutura

Parece menos sonho que loucura 

Do gênio que deseja a imensidão


E traça um risco humano na paisagem

Porque aceita o papel qualquer bobagem

Ou porque tem o mundo em sua mão.


Belo Horizonte - 28 12 2022


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

PANOS DE VIDRO

PANOS DE VIDRO


As linhas do edifício convergindo

Para um ponto de fuga vertical

S’encontram no infinito virtual:

Paralelas que na óptica deslindo.


Revestido de vidro e de metal,

Há-de espelhar os céus porque mais lindo

É ver n’ele a paisagem refletindo

Como fosse alta torre de cristal.


Com efeito, uma joia da cidade,

Onde linhas em fuga o olhar evade

Em face da beleza construída.


De sorte que uma tela tão imensa

Espelhe, ao que se vê e ao que se pensa,

Pontos de fuga para a própria vida.


Nova Lima - 23 12 2022


sábado, 24 de dezembro de 2022

SEM FALSA MODÉSTIA

 SEM FALSA MODÉSTIA


Como um jogador preso à roleta,

Sem mérito senão o de apostar,

Lanço versos esdrúxulos pelo ar,

À espera da leitura que os completa.


Não cuido do que ganho sendo poeta,

Embora gaste os dias, sem cessar,

N’uma obsessão difícil de explicar,

Senão como deslumbre vão de esteta.


Escrevo com receio de que a sorte

Ou a musa — vai saber?... — não me conforte,

Como um jogador entre trapaças.


Em todo caso, sou o que podia:

Caminhante em estado de poesia

Face a céus refletidos em vidraças.


Nova Lima - 23 12 2022 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

CATAS

CATAS


Mineiro de garimpos exauridos,

Restou-me catar quartzos no aluvião…

Pois é, pedrinhas brancas pelo chão,

Que levo por lembrarem tempos idos:


Criança, andava d’olhos espremidos

A ver quanto tesouro em minha mão!

Poeira d’ouro fino, grão por grão,

E logo após dobrões sendo fundidos…


Hoje, homem feito já, sigo sozinho,

Olhando para o chão todo o caminho,

N’uma mineração de pedras vãs.


Algo tão semelhante da poesia: 

Eu catar brilho aos versos que fazia,

Como fosse encontrar velhas manhãs.


Betim - 21 12 2022

 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

ADAMASCADO

ADAMASCADO


Enchendo de florões um gabinete,

Paredes revestidas de tecido.

Com hastes em dourado, retorcido,

Em cada rococó um ramalhete.


Um fundo esverdeado, que remete

Às planícies do vale amanhecido,

Destaca por contraste distinguido

O ornato que em detalhe se repete.


Cenário de importantes decisões,

À escrivaninha, saltam da gaveta

Manuscritos de vastas solidões...


Ali, por entre livros, ele poeta

E se perde nos vãos do adamascado,

A ver, do piso ao teto, decorado.


Belo Horizonte - 17 12 2022


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O OLHO DE HÓRUS

O OLHO DE HÓRUS


O olho que tudo vê, segundo diz

Todo aquele em mistérios iniciado,

Evoca do deus morto-e-reencarnado

A vingança contra o mal e seus ardis.


O olho que olha nos olhos do infeliz

E os atravessa a ver a que fadado::

Vidente do futuro e do passado,

Faz contemplar dos mortos o país.


Só quem sabe da vida após a morte,

N’um olhar que, profundo, nos conforte,

Até partirmos com ou sem revolta.


Ouro Preto - 11 12 2022


domingo, 11 de dezembro de 2022

AUTOINDULGENTE

AUTOINDULGENTE


Preciso me perdoar por ser horrível,

Pois, no fundo, eu apenas sou instável.

Sou de mim meu juiz mais implacável

Sempre a me lamentar do irreversível.


Em face d’um abismo intransponível,

Confesso o meu azar irretocável…

Pareço, em todo caso, o inescusável,

Cumprindo a solidão o mais possível.


Deveras, condenado a condenar-me,

Eu passo ao largo e logo toca o alarme:

Eis outro depressivo inveterado…


Mas ‘inda que m’entenda um pessimista,

Não há melancolia que resista

O sol vazando às nuvens em dourado!!…


Ouro Preto - 11 12 2022


sábado, 10 de dezembro de 2022

AJUNTAMENTO

AJUNTAMENTO


Onde um mundaréu de gente junta,

Vive a paredes-meias; casa a casa.

Ninguém ali se apressa nem se atrasa,

Somente alguma prosa o povo assunta.


Nas póvoas afastadas, quem se ajunta

Cria de filho a neto e não se casa.

Parece que o lugar se lhes embasa

A vida sem resposta nem pergunta.


Alheios a proclamas de cartórios,

Celebram porta adentro seus casórios,

E dão às coisas uso, não valor.


De sorte que sequer guardam papéis…

Confiam que entre si sejam fiéis

E a única garantia seja o amor.


Camacho - 15 10 2022


quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

NÃO MORRO DE AMORES

NÃO MORRO DE AMORES


Um tipo muito bem apessoado,

D’aqueles que acompanham bem as modas.

Circula nos salões das altas rodas,

Afetando-se ao extremo refinado.


Passa ainda por muito conversado

Ao se infiltrar alheio em ricas bodas

E após correr em flerte às moças todas

Com ares de galã enamorado…


Cumprimento-o de longe quando o vejo

E não lhe dou assunto no gracejo

Que esse infeliz me faz todas as vezes.


Suporto-lhe a figura, em todo caso,

Como se fosse o cúmulo do atraso

Que me desentretém d’outros reveses.


Betim - 07 12 2022


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

COMPANHEIRA

COMPANHEIRA


A mulher que acompanha meus caminhos…

Luz dos dias; razão dos meus cuidados;

Dos prazeres; dos ais enamorados;

Dos olhares d’amor; dos bons carinhos...


A mulher que é rosa entre os espinhos,

Assim como a alegria em meio aos fados.

Que me ensinou a rir dos maus passados,

E até a conversar co'os passarinhos…!


A mulher amorosa, ela é amada.

É quem a passo guia-me na estrada,

De mãos dadas seguindo a vida inteira.


Aquela por quem busco a madrugada;

Com quem reparto o pão para a jornada,

Esta mulher é minha companheira.


Betim - 01 12 2022


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

LETARGIA

 LETARGIA


Quatorze vezes mais a gravidade 

Tem pesado meu corpo contra o chão…

Não é preguiça ou mesmo depressão,

Apenas o desânimo me invade.


Todo entregue ao niilismo e à nulidade,

Cogito cartesiano se a Razão,

Carece, como a Força, de direcção

Sob pena de oscilar na eternidade. 


De facto, em pedesis meu pensamento 

Parece opor, a cada vão momento,

À mente uma dialética aleatória.


Sucede ao dia a noite e à noite o dia…

Eu aceito o Universo em letargia,

Vivendo sem qualquer culpa nem glória.


Betim - 22 11 2022


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

VICISSITUDES

VICISSITUDES 


Deveras, lamentar pouco adianta.

Consequências têm causa, tanto quanto

Reveses são razão de desencanto,

Se irrompe o pranto preso na garganta.


As coisas dando errado, não espanta

Cada qual se afastar para o seu canto…

Quando tudo vai mal, quedo em quebranto,

O menor contratempo se agiganta. 


Pois essa fase ruim atravessada

Supersticiosamente é prolongada

Pela nuvem escura que me cerca.


Inobstante, calejo o coração 

Sem considerar nada mais, senão 

Ter que o mal com o pior em mim alterca.


Belo Horizonte - 15 11 2022


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

ANTEPENÚLTIMO

ANTEPENÚLTIMO 


A cada passo mais perto do fim

Caminho inopinado para o nada.

De ânsia apenas se fez a minha estrada,

Onde nenhuma glória coube a mim.


Parto tão fracassado quanto vim

À luz do vasto mundo… Na jornada,

Vi o vento apagar cada pegada,

Indiferente até se não ou sim.


Mais convém ao idealista a fantasia,

Embora a realidade a cada dia 

Se imponha sobre os sonhos e os desejos.


No fim das contas, tudo é mais do mesmo:

Atravessei desertos andando a esmo,

A ter de fogos fátuos seus lampejos…


Belo Horizonte- 15 11 2022


ANTESSONO

ANTESSONO


Como estivesse morto vejo a vida:

D'olhos fechados; deitado no escuro,

Pela semi-inconsciência me procuro

Findo um dia frustrado de saída.


Anseio pela angústia presumida

Em face das mazelas do futuro.

E a despeito de estar são e seguro

No sono breve morte é conseguida.


Esse desejo meu de já não ser

É o único refúgio da esperança

Depois de fracassar mais uma vez.


Eu dormir me recorda de morrer.

Que não serei sequer uma lembrança

D’essa vida em que nada bom se fez.


Betim - 14 11 2022


terça-feira, 15 de novembro de 2022

AGUACEIRO

AGUACEIRO


Gosto de quando a rua vira rio

Durante um aguaceiro formidável!

Gosto de perscrutar o imponderável 

Dos céus descendo à terra em desvario.


É bom sentir bater o baque frio

Da saraiva por sobre o impermeável,

No clímax da Natura irrefreável

Ao se precipitar pelo vazio.


De botas, sigo andando na torrente

Com forças a medir contra a corrente,

N’um brinquedo vadio e descuidado.


E tenho que me vale este momento 

Toda a vida vivida ao sentimento 

De ver, como eu, o mundo transtornado.


Betim - 14 11 2022


quinta-feira, 10 de novembro de 2022

DISTÚRBIO

DISTÚRBIO


Não. Este mal que tenho não me tem.

Isto é, não me define a minha doença.

Embora me comova a lua imensa,

Cuja influência meus nervos entretém.


Vario em desvario… Assim, porém,

Caminho ao largo manso e sem ofensa

Imerso em quanto a mente sente e pensa

E indiferente àquele que a mim vem.


Dizem que sou de lua. Por suposto,

Eu vivo ruminando algum desgosto,

Que me impede de ver qual todo mundo.


Deveras, com minh’alma em turbilhão,

Cogito as tais razões do coração

Limítrofe do abismo mais profundo.


Betim - 10 11 2022


quinta-feira, 3 de novembro de 2022

JURAMENTADO

JURAMENTADO


D’aquilo que dou fé sou escrevente

E firmo com meu nome bens alheios.

Indiferente aos fins, sejam os meios

Um lugar de verdades tão-somente.


De tão qualificado que inocente,

Meu olhar testemunha vãos anseios

Enquanto as ambições correm sem freios,

Mas bem documentadas finalmente.


Meu trabalho é pôr tudo por escrito

Sob pena de que o dito por não dito

Fique-nos para as páginas futuras.


De modo que, cronista de fortunas,

Ordene entre demandas as comunas,

Deixando a letra fria em escrituras.


Betim - 03 11 2022