domingo, 12 de abril de 2020

CAMINHO DE SOMBRAS

CAMINHO DE SOMBRAS

Uma rua n'um bairro suburbano
Entre casebres, lotes e monturos.
Postes ritmam caminhos inseguros,
Dando profundidade ao último plano.

Plena, a luz da manhã ao quotidiano
Escalona no chão sombras de muros,
Fazendo contrastar claros-escuros
Por onde se anda sem futuro ou plano

As calçadas tomadas pelo entulho
Seguem cheias de lixo, vidros, caixas
Arbustos, poças d'água, pedregulho...

Vão dar na encruzilhada, sobre as faixas,
Onde crianças miúdas e cabisbaixas,
Levando igual formigas grande embrulho.

Betim -15 06 1998

sábado, 11 de abril de 2020

INSTANTE DE LUCIDEZ

INSTANTE DE LUCIDEZ

Em meus olhos cintila essa luz tida
Quando, na vigília ébria, o desespero,
N'um sorriso entre cínico e insincero,
Por sobre débeis lábios tem guarida.

A custo vou seguindo a minha vida...
Como se um zero à esquerda d'outro zero…!
Sendo esse lamento onde nada espero,
Minh’alma já de si mesma esquecida.

Nada mais do que um bêbado... O que fiz?!
Congratulo-me a cada atroz desgraça
Por conseguir-me ser tão infeliz!...

De tudo, resta essa última trapaça,
Onde enfim reconheço -- um tanto vis... --
Meus olhos refletidos na vidraça.

Belo Horizonte – 12 06 1996

MISCELÂNEA

MISCELÂNEAS

N'um caldeirão cultural,
Tenho misturado gostos.
Entre locuções, apostos,
Vírgula e ponto final,
Escrevo meus desgostos.

Mestiço, aliás, o meu jeito
Já é algo meio a meio...
Verbalizar me é o anseio
Posto à conta do sujeito
Que, oculto, deixo alheio.

De vera, proseio; poeto.
Escrevo sobre o Japão
Ou sobre o meu coração
Com mesmo assombro repleto
De vã imaginação.

Mas cozinho em fogo brando
Esse sopão revirado
Que, de letras adornado,
Vos sirvo de vez em quando,
Ao lume bem temperado.

Se vós de letras gostais,
Do caldeirão a servir,
Um pouco de tudo a vir
Para provar sempre mais:
É favor m'o repetir!

Betim  - 11 04 2020

sexta-feira, 10 de abril de 2020

OLHOS EM FUGA

OLHOS EM FUGA

Fosse o mundo outro eu era um diletante
De imagens e sons bons: Arte pela Arte...
Buscaria a Beleza em toda parte
Pois me regozijando a cada instante.

Só quereria o belo e o interessante,
Alheio ao que é vulgar para, dest’arte,
Elevar -- no que fora minha parte --
Os espíritos lúcidos ao arfante.

Os meus olhos, porém, partem em fuga
A ver o que a distância lhes revela
Da miséria que à Metrópole subjuga:

Somente há desalento… Da janela,
Enquanto o cenho vinca uma outra ruga,
Nego aos olhos qualquer miragem bela.

Belo Horizonte - 10 04 1998

FINAL LIXO

FINAL LIXO

De repente eu, herói de minha história,
Morro de morte estúpida ‘inda novo…
Sou, no final de tudo, o que reprovo,
Cercado de fracasso e luta inglória…

Não foi bonita a minha trajetória,
E nada fiz de grande pelo povo.
Chego ao fim sem ver algo de novo
Ou tampouco uma pena meritória.

Por amor ou por vã filosofia
Fui reverente a quem sequer existe,
E quis fugir ao mundo na utopia.

Mas o mal que há em mim sempre persiste
E lavra em depressão minha agonia,
Tanto que até me alegro de ser triste.

Betim — 03 04 2020

OLHANDO PARA O ATLÂNTICO

OLHANDO PARA O ATLÂNTICO 

Vi a glória dos céus vir sobre o mar 
Co'o sol dourando as ondas aos primeiros 
Instantes d'esse dia em verdadeiros 
Caminhos luminosos para o olhar. 

Na costa, com o oceano se agitar 
Mais o vento a envergar altos coqueiros 
N'uma força capaz de mil veleiros
D'esse continente a outro impulsionar. 

Já era hora de o dia amanhecer!... 
A noite mais escura enfim termina 
Para me haver um novo vir a ser. 

E o silvo d'além-mar que me destina
Para outra vida qu'eu saiba viver
Com milagres da luz sobre a retina. 

Itacaré - 19 06 2011 

PASSOS

PASSOS

O jugo que carrego ora m’esmaga
Sob o signo do mal que de mim nasce.
Meu pecado está sempre à minha face...
Sei que mero remorso não m’o apaga.

Não pelo peso, sim minha fraqueza,
Vou dobrando meus joelhos para a queda. 
Pois se do meu caminho o bem se arreda,
Sinto a matéria em toda a sua dureza...

Ouço então a gargalhada do diabo
Após m’enganar no erro a pouca fé...
Com seus sofismas eu por terra acabo.

Minha culpa! Mea máxima culpa! Eis-
Me decaído ao mal de odiosos reis,
Ver minh'alma imortal eterna ré!

Betim – 12 10 1998