terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O MONGE E A SERPENTE

O MONGE E A SERPENTE

prólogo

Contam que quando andava pela Terra
O iluminado espírito de Buda
Vivia em penitência surda e muda
Um monge seu ferido pela guerra.

Acolhido por Buda, mais se aferra
À sã meditação, com que se escuda
A alma necessitada mais de ajuda,
Visto que grande angústia em si encerra.

Aquele monge à paz se disciplina,
De sorte que mais nada o encoleriza,
Mesmo se tudo em volta desatina.

Assim, quer na tormenta; quer na brisa,
Segue impassível sua dura sina,
Que a entonação de mantras ameniza.

*  *  *

o carma

Na guerra, conduzira ele elefantes
Contra inimigos vindos de bem longe.
Nada, porém, de que ele se lisonje,
Atormentando-o em todos os instantes.

Ferido após barbáries excruciantes,
Decide, mudo e só, fazer-se monge...
A fim-de que da guerra mais se alonje
E o coração da sua vida d'antes.

À espera da impossível redenção,
Procura compensar sua violência
Com uma radical resolução:

— "Enquanto eu respirar n'essa existência,
Nada mais morrerá por minha mão
A ter de novo limpa a consciência."

*  *  *
o encontro

'Pós anos de silêncio e solidão,
Aquela alma culpada e penitente
Eis que encontra uma filha de serpente
Totalmente indefesa pelo chão.

De tão fraca, ele a pega com a mão
Quedando quase inerte simplesmente. 
Co'os olhos em seus olhos, frente a frente,
Sem esboçar a mínima reacção.

O monge a colocou em sua cesta
E a carregou consigo para fora
Da sempre tão quente e úmida floresta.

Já no mosteiro, a todos apavora
Como se enfim tivesse má a testa,
Tal risco que corriam àquela hora.

*  *  *
o concílio 

Buda, que às boas almas conhecia,
Pede a palavra ao povo alvoraçado:
— "Amigos, escutai cá do meu lado!
É necessário mais sabedoria..."

"Deixai-o co'a serpente noite e dia
Até que por fim todo o seu cuidado
Mostre-nos a que fora destinado
Isto o que só loucura parecia."

— "Ouço e obedeço." — disse-lhe um por um.
Assim o monge pôde co'a serpente
Viver este viver tão incomum.

De resto, vivia ele tão-somente
Como se fosse sem perigo algum
Aquela realidade surpreendente. 

*  *  *
a ophiophagus

Pelas selvas dos Gates Orientais
Já na estação das chuvas das monções,
Cobras que comem cobras são vilões
D'estas tórridas terras tropicais.

Deveras, as imensas cobras reais
S'elevam tão ferozes quanto leões
E inoculam peçonha aos borbotões
Sobre maiores e mais fortes rivais.

Espécie tão feroz, antes que nasça,
Seja logo da mãe abandonada 
A não fazer dos filhos sua caça.

Serpente... Mesmo assim fora adoptada
Pelo silente monge cuja graça
Acreditara ser por ela dada...

* * *
a iluminação

Dia após dia, o monge em seu cuidado
Alimentava a cobra presa ao cesto,
Trazendo camundongos que, de resto,
Ninguém mais parecia achar errado.

Tinha fé que co'o tempo do seu lado
Perderia ela instinto tão molesto
A ponto de entender do monge o gesto
E ter o seu furor pacificado.

Julgava que seria agradecida
Ao ser tratada com suma bondade
Ao longo já de toda a sua vida.

Porém, se aproximava da verdade,
Por uma estrada então desconhecida,
Cercado de total perplexidade...

*  *  *
o nirvana

Grande demais p'ro cesto onde vivia,
A serpente s'eleva toda ereta.
Bem diante d'ela o monge jaz, asceta,
A lhe encarar nos olhos todavia.

Ameaçadoramente bela e esguia,
Eis que prepara o bote por repleta
D'uma violência própria já inquieta,
A contrastar co'a paz que oferecia:

N'um átimo, ela voa em seu pescoço...
E crava as suas presas já tristonha
Por aquele que mata 'inda tão moço.

Após, ela inocula-lhe a peçonha,
Que súbito da morte lhe abre o fosso,
Adormecendo feito alguém que sonha.

*  *  *
o darma

Procuraram o Buda entristecidos
Seus discípulos mais a má serpente.
E pretendiam matá-la simplesmente 
Depois dos factos já acontecidos.

Que, embora fossem bem esclarecidos
Sobre o valor de todo ser senciente,
Bradavam por justiça, mas somente
Buscavam a vingança dos perdidos.

E Buda disse: — "Leva para a mata
A cobra ainda viva, com certeza!"
Mas os monges: — "Jamais! É uma ingrata!!!"

Pagou tanta bondade com torpeza..."
E Buda: "Só segue ela a Lei inata:
Agiu conforme sua natureza. 

*  *  *
epílogo

"Estamos todos — Buda diz — sujeitos
À lei do Darma — isto é, Lei Natural. 
Tanto um humano quanto um animal
Vive segundo seus sábios preceitos."

"E ainda que dotados de direitos,
Seres sencientes somos afinal.
A luz está em ver o próprio mal
Para então renunciar a seus malfeitos."

"Pois, mais que da serpente essa maldade
— Na qual vedes traiçoeira ingratidão —
Havia sim desejo à liberdade!"

"Aos olhos da serpente, era prisão
E os cuidados no monge — a tal bondade —
A mais só e absoluta reclusão."

Betim - 20 02 2002 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

NO DIA DE SÃO NUNCA

NO DIA DE SÃO NUNCA

Ausente do corrente calendário,
Eis o dia que não há-de chegar!
Embora sem qualquer tempo ou lugar,
Ao findar todo extremo temerário.

Jogava para o Olvido incerto e vário
A obrigação difícil de se honrar,
Bem como a meta inviável de alcançar
E ainda assim nos ronda o imaginário.

São Nunca -- bom padroeiro dos tardios --
Postergai nossas dívidas e dúvidas
Diante de carrancudos tão sombrios.

Indefinidamente, o vosso dia
Seque as lagrimas sobre as íris úvidas
D’aquele que não nega, só adia...

Betim - 01 11 2003

A MALTA

A MALTA

Homens de meia idade, solitários,
Bebendo n'uma sórdida espelunca...
Divertem-se co'a tal polaca adunca,
Cujos culotes são extraordinários!...

Não têm mais ilusões, pelo contrário:
"Em canoa furada não se junca..."
Pois, livres -- antes tarde do que nunca! --
Se entregam ao instinto  perdulário.

Por álcool, fumo, drogas e mulheres
Descem a este inferninho de prazeres
Como lobos famintos rumo à caça.

Visto o cinismo qu'eles têm por guia,
Em meio a mais patética alegria,
Lhes faz rir de qualquer outra desgraça.

Belo Horizonte - 08 09 2004

LACÔNICO

LACÔNICO

Se mais tenho a dizer, menos eu falo,
Respondo tudo assim monossilábico...
E perco longe os olhos qual estrábico
Para não te encarar quando me calo.

Baixo a cabeça feito algum vassalo,
Cuja rainha, em olhar febril e rábico,
Me transporta do céu sétimo arábico
A este lugar de limbo; de intervalo...

Mas o pouco que falo, muito diz
E o silêncio que faço me é gritante
Do que cá me faria mais feliz.

Falo e calo d'amor quando bem diante
Dos olhos que nem sei se vãos ou vis
Me veem falar calado a cada instante.

Belo Horizonte - 18 12 2005

domingo, 25 de dezembro de 2016

NATAL DE JESUS

NATAL DE JESUS

Três sábios seguem uma estrela nova...
Vêm d'Oriente e atravessam o deserto.
Chegam a Belém  co'o designo certo
De ver o filho de Davi: --“Boa Nova!

“Nasceu Jesus, o ungido!!! Deus renova
Sua aliança... Eis a nós o céu aberto!
Jaz o menino entre as palhas desperto...
Acalme-se o mar! Um monte se mova!...”

Há dois mil anos contam essa história,
No regozijo d’uma Humanidade
Que o divino reveste então de glória.

Pois celebram os homens, em verdade,
No solstício com seu mistério antigo,
A alegria de ter Jesus consigo.

Betim - 24 12 2008

NO FIM DOS TEMPOS

NO FIM DOS TEMPOS

Andando taciturno pela rua,
Passou despercebido dos demais.
Talvez as vozes nem fossem reais
Tanto quanto a visão da última lua.

Sem embargo, para o alto continua
E, em face do que chama de sinais
Do avanço das potências infernais,
Proclama a profecia extrema sua:

— "É hora: O fim dos tempos se aproxima...
Uma a uma já se cumprem as promessas!
Volvei os vossos olhos para cima!..."

"Obscurecido por nuvens espessas, 
O sol agora dança logo acima
Até o céu nos cair sobre as cabeças."

Belo Horizonte - 09 09 1999

sábado, 24 de dezembro de 2016

MNEMÔNICA

MNEMÔNICA

De aliterações, rimas e assonâncias
A mente liga pontos e faz pontes,
Que há séculos e séculos são fontes
Para poetas contarem suas ânsias.

Assim, as milimétricas distâncias
Que por entre neurônios alguém conte
Nos têm a imensidão d'um horizonte
Após nos registrar tantas errâncias...

Espaço-tempo em si, nossas memórias
Parecem nos contar outras histórias
À medida que os anos têm passado.

Sem embargo, há-de ser a oralidade
Capaz de nos dizer toda a verdade
N'um verso febrilmente declamado.

Belo Horizonte - 25 01 2002