Mostrando postagens com marcador SONETOS 1999. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SONETOS 1999. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

PALACETE

PALACETE 


Um vestíbulo gótico sombrio

Atrás d’arcos erguidos por gigantes.

Portas à altura d’homens importantes,

Onde brasões de antigo senhorio.


Ecos de bem-te-vis no átrio vazio

Denunciam meus passos hesitantes,

Enquanto vejo tudo como d’antes

Em vidas que nas pedras fantasio.


N’um palco abandonado de entremezes,

Actores já não contam seus reveses

Tampouco musicistas se apresentam.


Sem embargo, caminho entre ruínas.

E as glórias dos vitrais pelas retinas,

As lentes do sublime m’as aumentam.


Belo Horizonte – 11 11 1999 



EXCERTOS AO ACASO

EXCERTOS AO ACASO


Escrever é o ofício dos meus ossos.

Contudo, “mentes livres, mãos escravas”…

Visto os livros oriundos de tais lavras 

Inacabados ante embargos nossos. 

 

Lembro de tristes troços e destroços, 

Todo entregue à aventura das palavras: 

— “Batei à porta céleres aldravas, 

Convivas de banquetes tão insossos”!


Embora em fantasias gaste a vida,

A ruínas há muito abandonadas,

Endireito ao leitor sua subida. 


Indiferente às letras alcançadas, 

Resolvo-me existência insabida: 

Um-mestre-de-obras-primas-quase-nadas. 


Betim - 09 09 1999

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

AO MIRANTE

AO MIRANTE 

Encontro-me ao mirante a cismar versos…

Longe, toda a cidade descortina! 

E, instantânea, a poesia na retina  

Inventa-me topônimos diversos.  

  

Vejo os prédios em ouro sendo imersos  

Por outro amanhecer que desatina

E evade à realidade matutina,

Tendo ao belo horizonte olhos dispersos...  

  

Penso, n'essa amplidão que ora me cabe,  

Que se Deus tudo sabe, tudo vê  

E porque tudo vê, tudo Ele sabe! 

  

Ao especular de Deus o seu porquê, 

Acabe eu -- a não ser que o mundo acabe... -- 

Maravilhando em versos quem me lê. 

  

Brumadinho - 12 12 1999


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

METAS

META/POEMA

intropoética

A meta é a poesia, não o poema.
O poema é resultado da poesia:
O instante cujo encanto principia
Vertido no sentido e seu fonema.

O poema é onde a escrita mais s’extrema;
É quanto de poesia eu traduzia
No que desnecessário escreveria
Com metro, ritmo, rima e até dilema…

A escrita que é reescrita na leitura, 
Não só interpretada e assimilada
Do poema sobre o poema que se poeta.

Portanto, metapoema: Não procura 
Nem responde à questão especulada
No arranjo de vocábulos do poeta…


  *      *      *

 

META/LINGUAGEM  

sublingual  

A meta é algo além; é projecção
Do vir-a-ser do encanto que me inquieta
N’uma verdade ainda analfabeta, 
Que apenas sentimento ou sensação. 

A linguagem permite-se expressão, 
Quando o verso subverte a sua meta:
Mais do que outra mensagem, busca o poeta
Chamar para as palavras atenção… 

A meta da linguagem na poesia
Não é comunicarmos algo a alguém,
Mas sim lhe transmitir o encantamento.

Ao fim, metalinguagem: Haveria-
De pôr beleza o quanto nos convém 
Na escrita deslumbrada do momento.
 

*      * *

 

META/TEMA 

anagramado 

A meta é solução, não um problema, 
Horizonte que o poeta olha profeta; 
O tema, a imensidão além dileta 
Onde a meta brilhante jaz qual gema. 

A meta se anagrama a ser o tema
Do poema que a si mesmo tem por meta: 
O tema é tudo d’entre a meta e o poeta. 
A meta é tudo após escrito o poema. 

A meta e o tema, poético anagrama
Que dá tanto objetivo quanto assunto
Enquanto a meta ao tema se amalgama. 

Ou seja, metatema: Por que poeto?
De quanto me rearranjo ou desconjunto,
Para que em verso o espírito inquieto?


     *      *      *

 

META/TEMPO  

axiomático

A meta não é fim em si apenas; 
É limite que busco a ver além. 
O tempo é tudo quanto se me obtém 
Pela transformação a duras penas. 

A meta não é tempo d’horas plenas 
Ou até mesmo um fim em si, porém, 
O tempo n’um só lapso se contém, 
Gerando dimensões bem mais amenas.

À meta e ao tempo faz-se a realidade
Enquanto um movimento continuado
E poético do ser ao vir-a-ser

Ou senão, metatempo: N’outra idade,
Um tempo sem futuro nem passado
Longo o bastante para eu m’esquecer. 

 

*      * *

META/POÉTICA  

linearidade

A meta é, quanto mais saber de si, 
O poeta saiba mais saber-se só; 
A poética é trazer de volta ao pó, 
Algum belo topônimo em tupi. 

A meta é a poesia que perdi 
Ao m’escrever, somente e só, por dó. 
Na poética, os versos vão por mó, 
De tanto remoídos dentro em mi.  


A meta da poética, outro rito 
Onde vão duas retas paralelas 
Indo de mais a menos infinito. 

Assim, metapoética: Pensamento 
Em razão da emoção do que é escrito 
Em forma de poesia em movimento. 

 
*      * *

META/POIESE 

invenção

A meta é ver beleza na saudade: 

Belo é o que faz abrir os olhos; 

Navega o poeta, nau por entre abrolhos,

Amarrado no mastro da verdade. 

 

A meta é ter desejo e liberdade: 

Vero é-o que me liberta de restolhos; 

Imprime o poema, tipos entre fólios,

Acorrentado à rocha da vontade.

 

A meta, bela e vera, outra obra prima

S’encontre pelo ardor que à pena anima

Na intenção de sentido dada ao poema.

 

No mais, metapoiese: Onde a invenção 

Renove toda a escrita na emoção  E sempre surpreender seja seu lema.


*      *  *


META/MIMESE  

verossimilhança

A meta, a imitação da realidade. 

No que, senão provável, bem possível.

A meta, o extraordinário e até o incrível

Como se fossem vidas de verdade.

 

A mimese, profunda qualidade   

Que se procura na arte; no intangível

A mimese, copiando o perceptível,

Amplie toda a sensibilidade.

 

Busca mimetizar tudo ao redor

O poeta ao se compor belas mentiras

Ou especular verdades sobre o amor.

 

Também, metamimese: Ele embeleza

Com descritivas penas suas liras,

Mas em verdadeiríssima grandeza. 


*      * *

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

PONTO NEVRÁLGICO

PONTO NEVRÁLGICO

 

Ao nervo do molar o osso na sopa

Molesta feito um raio entre sinapses…

A dor ali se instala com seus ápices,

Rasgando-te, minh’alma, igual estopa.

 

Tão logo te surpreendem a alva popa,

Abandono-me à espera que colapses,

Ou, no limite de ti mesma, relapses

Como quando a aflição contigo topa. 

 

Em espasmos sucumbe a metafísica,

Enquanto a dor domina-te a consciência

Já sem filosofar sobre a existência.

 

Qual carne dada aos vermes pela tísica,

Empalideço a face e o pensamento,

No cerne d’um sagaz questionamento.

 

Betim - 23 05 1999 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

AMORES DOENTIOS OU LIMERÊNCIA

AMORES DOENTIOS OU LIMERÊNCIA


Adormecida em sonho,  igual princesa

À espera d’um herói belo e valente…

Como se imersa em bruma, niveamente,

Evanescendo em pálida beleza.


Andava em realidade sem defesa,

Em face da obsessão de sua mente:

D’aquele que deseja avidamente,

Se fez a predadora e ainda a presa…!


Vivia o que imagina estar vivendo

Ou mesmo d’um grande amor morrendo

E não o que de facto acontecia.


Tanto queria amar e ser amada,

Que se perdera, só e amargurada,

Entregue a uma total monomania.


Belo Horizonte - 12 12 1999


terça-feira, 29 de novembro de 2022

INDECÊNCIAS

INDECÊNCIAS


Mais promete a beleza da mulher 

Quando faz recordar doces prazeres,

Mostrando os ombros nus entre afazeres

Para acender-me os olhos de querer.


Parece em me atentar mais s’entreter,

Certa de ter em mim novos lazeres.

Na ânsia de devorar-me sem talheres,

Chega perto demais por m’envolver:


Encosta no seu colo a minha face

De modo que ao virar-me (se eu ousasse…!)

Teria já meus lábios no seu sexo…


Finalmente, ao entreabrir o seu decote,

Ela se achega fungando em meu cangote

Para me balbuciar coisas sem nexo…


Belo Horizonte - 13 08 1999

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O LIVRO DOS MORTOS

O LIVRO DOS MORTOS


Com maus versos e sem ressentimentos,

Te tenho escrito poemas amorosos.

Apesar dos momentos mais ditosos,

Eu contigo vivi padecimentos…


Talvez houvesse até merecimentos

Ou tenha tido luzes n'alguns gozos,

Mas o amor tem caminhos tortuosos

Nos quais se deixa horrores por tormentos…


Vivi intensamente a minha vida

Como homens de pirâmides antigas

Fizeram escrever pelas paredes.


Porém, minha miséria é desmedida:

Perdidas as amadas e as amigas,

Restarão as desculpas que me pedes!


Ubatuba - 31 12 1999


segunda-feira, 29 de junho de 2020

PALEOCRISTÃ

PALEOCRISTÃ

Foi depois de Cristo e antes dos cristãos
Que dizem ter havido aquela igreja,
Que santa e verdadeira se deseja
Face a comunidades entre irmãos.

Guardando a Boa Nova dos anciãos,
Que ouviram Jesus (onde quer que esteja!)
Fora o povo reunido que se almeja
Aos séculos dos séculos malsãos…

Com efeito, restou como utopia
Essa espécie de inocente primazia
D'onde se minerava apologéticas.

Pois voltam sempre a igreja das origens
No afã de lhes buscar velhas vertigens,
Requentando as crendices mais patéticas!

Belo Horizonte - 15 09 1999

quinta-feira, 4 de junho de 2020

DE MADRUGADA

DE MADRUGADA     

Vagos acordes de música distante
Ecoam pela noite em solitude.
A serração mais densa mais ilude
Em fantasmagoria horripilante...

Não há lua. Nos altos, vento uivante
Enregela mesmo a alma agreste e rude,
Até que o céu de estrelas se desnude,
Se aerólitos chovendo d'um radiante.

Agora, parte mais da Via Láctea
A noite na imensidão quase galáctea,
Enquanto o Orbe em ciranda co'as estrelas. 

Através das liríades formosas,
Os deuses anunciem, extremosas,
As luzes de astronômicas procelas...!

Belo Horizonte - 20 08 1999

quinta-feira, 21 de maio de 2020

SOB O PÓRTICO

SOB O PÓRTICO

Observo do vestíbulo o arco gótico, 
Sobre-elevando ogivas a alturas vãs,
Como se não para homens, sim titãs
Que viessem n'um cortejo apoteótico.

Do mais extravagante ao mais exótico,
Cruzes santas e gárgulas pagãs
Ornam os capitéis d'onde malsãs
Testemunham outro óbito despótico... 

Há algo que repugna e atrai no crime 
E as cabeças roladas a um só gesto 
Não falam apinhadas sobre o vime.

Hoje, esse átrio silente é só seu resto,
Onde tão desolado que sublime, 
Eis-me aqui sob o pórtico funesto!

Belo Horizonte - 12 10 1999 

terça-feira, 5 de maio de 2020

EM OBRAS

EM OBRAS Estranha estrada a dar-me ofício aos ossos Esta que no final manda-me às favas! Em obras, todavia, deixo oitavas Inacabadas face a embargos nossos... Minha vida são épicos destroços, Feito escória do chão vinda das cavas. Eu nos livros livre escrevo escravas As letras em seus muitos alvoroços. O leito carroçável e a sarjeta Do trecho interrompido a canetadas Na frase onde tropeça todo poeta Se m'espalha na poeira das estradas, Sou quem se consome a alma inquieta: Um-mestre-de-obras-primas-quase-nadas. Betim - 18 08 1999

domingo, 3 de maio de 2020

O POEMA PERDIDO

POEMA PERDIDO  

Retoma à folha em branco o teu sentido 

E escreve. Torna àquele instante que herda 
De palavras e idéias sua perda: 
Rebusca em ti o poema perdido.

Recordas? A memória um tanto lerda
Vai seguindo as pegadas desde o havido,
Além das armadilhas vãs do Olvido, 
Sem ignorar, porém, o abismo à esquerda.

Voa, condoeiro, mais alto que o condor: 
Parábolas, hipérboles, elipses... 
Descritas voltas p'las esferas tríplices 

Do ser a superar-se outro ao compor...! 

É imperativo: 'inda que alterado, 
Debruça-te sobre ti, reencontrado. 

Belo Horizonte -19 01 1999 

TEATRO DE RUA

TEATRO DE RUA

Se há páginas em branco pela rua,
A minha pena pode transformá-las:
No vir-a-ser de mais papeis e falas
Alçar uma verdade e pô-la nua…!

Para além do circense se situa,
Quando trupes caminham entre galas,
Fazem do quotidiano nobres salas;
E da praça, outro palco onde se atua.

A existência é uma comédia de erros,
Cujos actos irrompem já patéticos
Após fechar a cena ainda aos berros.

Máscaras têm diálogos frenéticos,
E, enquanto o poeta azula pelos serros,
Jogam na rua seus textos herméticos.

Contagem - 12 11 1999

quarta-feira, 15 de abril de 2020

ÆDES FICTUM

ÆDES FICTUM

Os olhos veem o espaço em forma mais volume
E os planos sob a luz no desenho se tomem:
Verdade obra a Beleza em mãos de gentil-homem,
Que submete a Natura os signos e ao costume.

Qual fora a Torre erguida em adobe e betume,
Da extrema confusão os sons todos se domem.
Onde uma arquitetura extravase do abdômen
Em gritos e ecos vãos para o infinito cume...

Os olhos veem o vácuo ao sólido habitado
E, ao gizar abstracções, o concreto se desdobra
A fim-de que a existência eternize-se na obra.

Eis: Forma e conteúdo hão enfim concordado
Em templo feito pelo homem e para os seus
À abóboda celeste onde habita tudo Deus.

Belo Horizonte - 06 11 1999                         


COMUNIDADE

COMUNIDADE 

Mas onde falta tudo, até mesmo esperança,
É preciso construir; despertar nossas mentes;
Que a vontade do povo então reúna as gentes:
Braços em mutirão que a nós todos alcança.

É empreito de vida e risco que se lança,
A fim-d’haver união de todos os  presentes
Em lugar de esperar, como se indiferentes,
S'entregando a violência, amargura e vingança.

Ser co'o povo -- não para o povo -- é ser no agora.
E, embora o olhar se perca em tal desigualdade,
O senso de pertença é o que afinal vigora.

De mãos dadas, até que venha a claridade,
Àqueles que vêm vindo antes mesmo da aurora
Partícipes da paz em comum unidade.

Betim - 19 09 1999

segunda-feira, 13 de abril de 2020

KANDINSK

KANDINSK

Talvez a História d’Arte omita, entanto,
Um pintor que pintava uma paisagem
Prostra-se desolado face à imagem,
E observa na palheta mais encanto.

Viu o que ninguém via. Daí, portanto,
Deixando as flores míopes sem mensagem,
Mira as formas informes qual miragem
De sua aura evadida... Mas enquanto

Qual criança redescobre as cores puras
Já livres da coerência co’as figuras,
Ensimesmadamente, a aurora aguarda.

Degenera a arte o geômetra ultralírico!
E a expressar o universo pós-onírico
O Bravo Azul irrompe na vanguarda.

Betim - 14 04 1999

domingo, 12 de abril de 2020

LIBERDADE

LIBERDADE

Em face dos desastres do fracasso
E até contra a verdade de tais factos,
Sustém, atlante, teus ideais intactos,
‘Inda que o mundo pese no teu braço.

Ecoe teu brado livre pelo espaço,
Desafiando os reis que, estupefactos,
Em reacção decretam duros Actos,
Contando te vencer pelo cansaço.

-- “Meu coração não caiu!” -- tu dirás antes.
Embora sobre a ponte de teus sonhos
Façam ruir por sob passos consonantes...

Erguerão tua voz outros afinal,
Apesar dos carrascos, que bisonhos,
Sorriem esperando a ordem fatal.

Betim – 19 09 1999

SOPA DE OSSOS

SOPA DE OSSOS

D'olhos abertos veria aqui estar
Outra verdade além impercebida,
Ao invés de contemplar-me sem-saída,
Havendo em vista os outros do lugar:

São hoje companheiros de manjar,
Que têm na sopa de ossos sobrevida…
Em derredor do lume sendo servida,
Àqueles que se aquecem sob o luar…

Mas súbito sucumbo à metafísica,
Desanuviam-se as faces macilentas...
Carnes dadas a vermes pela tísica...!

Abandonado a um canto, eu olho e vejo:
Como se sombras mesmo nevoentas,
Dos morituros o último desejo!

Betim - 20 10 1999

segunda-feira, 6 de abril de 2020

AO ZÊNITE

AO ZÊNITE

—” Andemos, pois, a morte já não tarda, 
E ao zênite o sol sobe e desce do alto”. — 
O horizonte derrete-se no asfalto, 
E a estrada se lhe perde, árida e parda. 

Outro arauto do fim pela vanguarda 
D’um armagedon pelo sol de assalto...
Que mais diz a mensagem do arauto 
Que de tão triste fim memória guarda?

-- "É hora: O fim dos tempos se aproxima...
Uma a uma já se cumprem as promessas!
Volvei os vossos olhos para cima!..."

"Obscurecido por nuvens espessas, 
Eu vejo o sol dançando pouco acima
Até o céu nos cair sobre as cabeças!"

Belo Horizonte - 09 09 1999