quarta-feira, 23 de novembro de 2022

SOBRESSALTO

SOBRESSALTO

 

De súbito me vêm uns calafrios,

Como se aragem forte em corredor

Levantando papéis ao meu redor

Se fizesse presença nos vazios.

 

Pego-me a perscrutar sótãos sombrios,

De todo enmimesmado n’um torpor:

— “Felizes para sempre enquanto for…

Parece uivar o vento entre baldios.

 

Trêmulo, fecho os olhos e me cubro,

Enquanto outro crepúsculo aurirrubro

Prenuncia nos campos mais geada.

 

E incerto da verdade que me pasma,

Fico como esperasse algum fantasma

Em vigília por toda a madrugada.

 

Betim - 06 06 1992 


DE PARTE A PARTE

DE PARTE A PARTE

 

Se partes não suporto o olhar perdido 

De quem me vê passar pelo caminho. 

Se recomponho o rosto em desalinho, 

Suponho-me uma máscara ao vivido. 

 

Assim como eu, tu tens te aborrecido

Ao vagares alhures sem carinho. 

Pois mesmo acompanhado anda sozinho, 

Quem leva o coração ‘inda partido. 

 

De parte a parte, apenas solidão

Trazemos tendo os olhos marejadas

De tanto recordar cada senão…

 

Basta! Sejam passados os passados.

Se careces de mim, de ti preciso:

Volte com teus carinhos meu sorriso!

 

Belo Horizonte - 11 07 1992 


LETARGIA

 LETARGIA


Quatorze vezes mais a gravidade 

Tem pesado meu corpo contra o chão…

Não é preguiça ou mesmo depressão,

Apenas o desânimo me invade.


Todo entregue ao niilismo e à nulidade,

Cogito cartesiano se a Razão,

Carece, como a Força, de direcção

Sob pena de oscilar na eternidade. 


De facto, em pedesis meu pensamento 

Parece opor, a cada vão momento,

À mente uma dialética aleatória.


Sucede ao dia a noite e à noite o dia…

Eu aceito o Universo em letargia,

Vivendo sem qualquer culpa nem glória.


Betim - 22 11 2022


OPALESCÊNCIAS

OPALESCÊNCIAS

 

Como crer na algidez de tuas falas,
Quando em teus olhos vejo tanto ardor?
Ou como ainda negas teu amor,
Se quando eu te confronto tu te calas?

Olhos, que a me luzir duas opalas,
Com negra iridescência têm calor
Em contraste co’os lábios já sem cor,
De quanto, inconvincente, tu me falas.

Pois entre o que se diz e o que se pensa,
Não raro pode haver distância imensa,
Mesmo que o coração esteja à palma.

Até porque, nos lábios, a verdade
Esconde-se com mais facilidade…
Já olhos dizem ser janelas d’alma!

Belo Horizonte - 10 10 1991


terça-feira, 22 de novembro de 2022

ONTEM À NOITE

ONTEM À NOITE 

 

Não cabe já em mim qualquer tristeza: 

Algo de muito bom me aconteceu...! 

O meu olhar cruzou de novo o teu, 

E o que vi fora bem mais do que beleza. 

 

Vi que a minha paixão saiu ilesa, 

Mesmo depois de tudo que se deu. 

Vi que te agrada ter alguém como eu

Admirando-te o espírito e a agudeza. 

 

Tenho andado nas nuvens desde então,

Mas na ânsia de falar-te ao coração, 

Eu fui antes sincero que galante…

 

Perdoa se me faço inoportuno,

Apenas esperanças vãs reúno

Para t’enternecer de novo amante.


Belo Horizonte - 20 09 1992 


segunda-feira, 21 de novembro de 2022

VIA FÉRREA

VIA FÉRREA

Era muito quente, úmido e escondido

Nas ravinas sinuosas das vertentes.

Onde, longe das casas e das gentes,

Andávamos em busca do insabido.


Ainda muito novo e convencido,

– Ou igual diziam lá, “dado a repentes…” –

Os seguia pisando nos dormentes

Dos trilhos suburbanos a corrido.


E para não passar como covarde,

Tinha-de acompanhar sem dar vacilo

Aos vãos do pontilhão sem mais alarde.


Um monte de moleques era aquilo!

Que na linha do trem gastando a tarde,

Atravessava um tempo mais tranquilo.


Betim - 21 11 1998


domingo, 20 de novembro de 2022

VOCALISES

VOCALISES

 

Não t’entendi a letra da canção,

Contudo, à tua voz reconhecia. 

Lembrava-me uma alegre algaravia

De vogais se alongando em cantochão…

 

Inventaste uma língua de ocasião,

Cuja compreensão eu desconhecia.

Qual fosse instrumental a melodia,

Cantada sincopada à percussão.

 

Mas teu canto um lamento pareceu, 

Porque sei que essa dor que te alucina, 

No insincero sorriso s’escondeu. 

 

Divavas mil solfejos, cristalina,

Ao êxtase de todos, menos eu,

A t’esperar aos prantos na cortina. 

 

Belo Horizonte - 11 10 1992