sábado, 31 de dezembro de 2022

PERCURSO

PERCURSO


Trajetória plotada sobre um mapa,

Onde lugares vistos no caminho.

O mundo é bem maior se me avizinho

Da distância marcada à cada etapa.


O sentido da vida ora m’escapa,

Contudo, sigo em frente o burburinho

Do córrego a descer devagarinho

Sem mais razão senão chegar à lapa.


Percorro vales, montes e cidades

Indiferente a metas ou verdades,

Tão-só pelo prazer de ver paisagens.


E o desenho ficando de lembrança

Me faz voltar a dedo na esperança

De sempre reencontrar boas viagens


Betim - 31 12 2022


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

PERAMBULANTE

PERAMBULANTE


Andando à toa tenho descoberto 

Pequenas maravilhas da cidade,

Na qual vivo faz anos… Na verdade, 

Somente agora eu ando d’olho aberto…!


Por senhor de meu tempo e liberdade,

Flano por avenidas, longe ou perto,

Tão-só a recolher do dia incerto

Uns lampejos de intensa claridade.


Não distingo se mísero ou se pródigo

Serei eu por seguir meu próprio código,

Enquanto perambulo pelas vias.


Vou, por assim dizer, o tempo todo

Poetando iluminuras sem o engodo

De toda compra-e-venda de alegrias.


Belo Horizonte - 20 12 2001


PALACETE

PALACETE 


Um vestíbulo gótico sombrio

Atrás d’arcos erguidos por gigantes.

Portas à altura d’homens importantes,

Onde brasões de antigo senhorio.


Ecos de bem-te-vis no átrio vazio

Denunciam meus passos hesitantes,

Enquanto vejo tudo como d’antes

Em vidas que nas pedras fantasio.


N’um palco abandonado de entremezes,

Actores já não contam seus reveses

Tampouco musicistas se apresentam.


Sem embargo, caminho entre ruínas.

E as glórias dos vitrais pelas retinas,

As lentes do sublime m’as aumentam.


Belo Horizonte – 11 11 1999 



MIRABOLANTE

MIRABOLANTE


Desenha arquiteturas impossíveis

A habitantes ainda não nascidos.

Ideia livres vãos além vencidos

Por estais tensionados em desníveis!


Com torres de metais incorruptíveis,

Quase a tocar os céus, antes proibidos,

Evoca de Babel os alaridos

Contra todos os deuses inservíveis!


Tanta imaginação n’uma estrutura

Parece menos sonho que loucura 

Do gênio que deseja a imensidão


E traça um risco humano na paisagem

Porque aceita o papel qualquer bobagem

Ou porque tem o mundo em sua mão.


Belo Horizonte - 28 12 2022


TRILHO DAS ALMAS

TRILHO DAS ALMAS


Sombra da torre sobre o espelho-d’água. 

Sonho feito de imagem-pensamento: 

Luar, que atravessando o firmamento,

Reflete-se n’um trilho que deságua.


Em claro-escuro; em luz e sombra. N’água,

Aterra a mente a torre em desalento…

Em silvos, ouço o frio uivar no vento

E o mais é solidão e névoa e mágoa. 


Sombra da torre sobre fundo rio,

Quando as almas vêm e vão pelo luar

E, entre ranger de dentes, calafrio.


Pelas sombrias horas um segredo:

Sonho no sonho um trilho alvilunar,

Por onde as almas vão sem desenredo. 


Gov. Valadares - 12 05 1994 


EXCERTOS AO ACASO

EXCERTOS AO ACASO


Escrever é o ofício dos meus ossos.

Contudo, “mentes livres, mãos escravas”…

Visto os livros oriundos de tais lavras 

Inacabados ante embargos nossos. 

 

Lembro de tristes troços e destroços, 

Todo entregue à aventura das palavras: 

— “Batei à porta céleres aldravas, 

Convivas de banquetes tão insossos”!


Embora em fantasias gaste a vida,

A ruínas há muito abandonadas,

Endireito ao leitor sua subida. 


Indiferente às letras alcançadas, 

Resolvo-me existência insabida: 

Um-mestre-de-obras-primas-quase-nadas. 


Betim - 09 09 1999

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

NAS ENTRELINHAS

NAS ENTRELINHAS 


Por sob o verso, o ser e o seu anverso,

Que, em fuga, se m’encontram paralelos. 

Entre a verdade e o facto é percebê-los 

Convergir nos confins do Universo. 


Tendencioso ao infinito, eu me disperso 

Em meio a girassóis ultra-amarelos; 

E digo sem dizer nem desdizê-los, 

N’aquilo que translato em cada verso. 


Submerso e oculto oráculo; Profético… 

Metáforas do nada, ofício e casta,

Os escribas do bíblico e do herético!


Toda divindade é poética. Mais vasta 

Uma interpretação se o texto hermético: 

Leem mil verdades mas nenhuma basta!  


Belo Horizonte - 20 01 1998