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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

SEM RAÇA DEFINIDA

SEM RAÇA DEFINIDA 

Malu era, provavelmente, o ser vivo mais saudável que já existiu. Desde que entrou em nossas vidas, trazida por um carpinteiro que trabalhava nas obras de nossa casa, ela jamais adoeceu. Isso já faz uns oito anos. A casa ficou pronta, os operários foram embora e Malu ficou. Em tempo, tratava-se d’uma cadela vira-latas castrada depois de três ou quatro prenhezes. Tinha pelagem branca malhada de castanho e preto, olhos claros e orelhas bem erectas de loba.  


Entrava e saia livremente, jamais se demorando na rua mais que um dia inteiro, de modo que era conhecida de todos na vizinhança. De manhã cedo, passava na padaria e ganhava um pão fresco da mão do padeiro, além de correr na pista de caminhada da avenida, sozinha, junto com os outros cachorros encoleirados. Malu, aliás, usava coleira, mas apenas. Jamais passeava amarrada junto de qualquer um de nós. Malu não era uma cadela doméstica, sim mais uma moradora de nossa casa, absolutamente independente de nós. Jamais precisou ir ao veterinário, excepto quando da castração. Não tomara vacinas e tampouco necessitava de medicações. Vez em quando passávamos remédio para pulgas e tentávamos lhe dar banho. Invariavelmente, porém, tão logo se livrava de nós, molhada ainda, Malu rolava na poeira... 

 

Muito dócil, Malu só latia para andarilhos que mexiam no nosso lixo. Jamais tivemos receio de receber visitas. Nem cheirar os estranhos vinha. Ela reinava, livre e solta, em nosso jardim e na rua defronte a nossa casa. Pouco se importava com conosco, a não ser quando deitava de bruços pedindo carinho na barriga. Fazia cara de pedinte e se refestelava com carinhos do pé da gente... Acho que ela nos manipulava: Mantínhamos o cocho de ração e a vasilha d’água cheios e a acarinhávamos, mas praticamente não a víamos. 

 

Todavia, quando veio a pandemia da Covid19 (e o consequente isolamento social), Malu teve de ficar acorrentada... Havia muita discussão se cachorros poderiam ou não pegar a doença ou mesmo serem vector para transmitir o vírus a humanos. Na dúvida, nada de passeios. Como bastava abrir o portão para ela azular na rua, não tinha como ficar solta mesmo no jardim. Visivelmente entediada, restava a Malu ficar nos observando. Penso que ela descobriu muito sobre nós, tão entediados quanto ela. O confinamento tem sido um período muito difícil. Acredito que Malu percebeu que algo estava diferente. Ela já não me acompanhava até o ponto de ônibus na Avenida ou nossas filhas até a escola do bairro (minha caçula tinha muita vergonha d’ela...).  O padeiro sentiu sua falta e me abordou n’uma manhã para saber d’ela. Contei que estava acorrentada, por isso não vinha mais. Ele sorriu e não disse nada. Era interessante que Malu sempre inspirasse um sorriso; um comentário jocoso. Todos se admiravam d’ela.  

A pandemia se prolongou e a situação de Malu se agravava. Ela perdia peso e vitalidade a olhos vistos, muito embora tivesse ração e água ao alcance. Tínhamos de fazer alguma coisa, mas o quê? Após alguma hesitação, mandamos Malu para vigiar o canteiro de obras d’um parente, n’um bairro d’outro lado da cidade. Pusemos Malu no carro e a levamos. Tivemos-de prendê-la para irmos embora. Coração pesado, vivíamos pedindo notícias d’ela. Tudo normal, diziam. Lá no bairro, porém, todos sentiam que faltava algo no quotidiano. As carreiras de Malu rua afora pareciam estar firmes na memória de todos. Todos estávamos meio órfãos sem Malu. 

De repente, no meio noite, ouvimos latidos: Era Malu! Ela andara de volta mais de vinte quilômetros e voltara para casa. Reunimo-nos ao redor d’ela, assombrados, enquanto ela bebia sua água em sua vasilha.  

 

Betim – 16 09 2020 

  

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

A MÚSICA QUE TOCA

A MÚSICA QUE TOCA

Atravessa a noite uma música que não escutava há muitos anos. Vem da escuridão, longe. Talvez um baile em fim de festa tocando a saideira ou uma banda voltando ao palco para bisar. Não sei. A voz ecoava pela cidade e eu me lembrei do tempo em que aquela música fazia parte de minha vida.

Estremeci. Olhei pela janela tentando localizar d'onde vinha o som. Distinguia vozes e guitarras. Havia acordado d'um sono pesado, no meio da noite, e mal conseguia entender aquele transporte para um passado tão distante. N'uma vida passada, dir-se-ia. Súbito, rostos de amigos surgiam na memória. Nomes e lugares perdidos puxados feito um fio de lembranças encadeadas. Enquanto isso, a melodia se desenrolava a ponto d'eu lhe acompanhar o refrão como se guardado n'algum recôndito da mente. Eu cantei e percebi o passado tão presente como se não houvesse passado. Eram duas da manhã e eu tinha vinte anos novamente.

Olhei para a cama e estava vazia. Não havia ninguém que pudesse me dissuadir d'aquele encantamento que a música impunha. D'algum modo misterioso, eu me sentia jovem e crédulo como fora um dia, ou melhor, n'uma noite como aquela. As ruas vazias e escuras da cidade tinham o cheiro d'antanho e eu olhava sozinho pela janela vendo as sombras quietas das casas escuras. A música vinha do Centro, onde a cidade permanecia iluminada em contraste com a periferia silenciosa. Eu me lembrava de como eu era e cantava a música que eu cantava então. Era bom voltar a ser esperançoso e tranquilo diante da vida. "Por que não?"-- eu repetia repetindo a música que terminava interrogando-me. Logo, tudo era silêncio e noite. Eu voltei a ter a idade que tinha. 

Eu me senti ainda mais sozinho lembrando do rapaz que escutava aquela música e tinha tanta esperança. "Por que não"  eu repetia tentando evocar a fé que perdera na vida. "Por que não" -- respondia o eco. Olhei para as minhas mãos. Eram mãos de velho.

Rejeição. Eu não sou tão amável. Eu não sou tão interessante. Eu não sou tão bonito. Eu não sou insubstituível. Eu não sou mais o seu amor. O amor d'ela, obviamente. Tudo isso, no final das contas, é sobre rejeição. Estou ficando velho e isso me assusta. Meu cabelo raleia em minha testa enquanto espero mensagens que não vêm. Sim, estou no quarto sozinho e não há música mais. Todavia, o verso continua em mim, vibrando: "Por que não?". Olho para a noite e tento encontrar o lugar d'onde a música vinha há pouco, mas nada... As luzes da cidade pulsavam em meus olhos míopes dando a todas as coisas um contorno vago. Meus lábios balbuciavam "Por que não?" ...  "Por que não?" ...

Eu preciso dormir. Eu preciso voltar para a cama e tentar dormir. No entanto, do silêncio da noite o refrão parecia continuar sem fim, vibrando nas luzes dos postes e prédios distantes. A frase deveria me animar, eu acho. Mas, não. Na verdade, ALEGRIA, ALEGRIA parecia vir d'um tempo, não d'um lugar. Estava feliz e confuso por aquele refrão me transportar para alguém que fui. Ao menos a memória se impunha e eu entendia a força d'aquela música tocando, física, como se meu peito fosse uma caixa de ressonância onde ela continuasse a vibrar, silenciosa.  "Por que não?" ...  já não era algo verbal. Era uma vibração em meu peito.

Eu voltei para cama e tentei dormir. Eu precisava. 

Betim - 06 09 2020

quarta-feira, 17 de junho de 2020

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS

Olá amiguinhos, tenho certeza de que, como eu, temos parafusos a menos. A culpa não é vossa; é d'este mundo cão. Há certo método nas engrenagens do sistema que nos esmaga feito cana na moenda. Todo o tempo algo nos põe para baixo por não sermos melhores, maiores ou mais. E fingimos acreditar que precisamos do que não precisamos... Ou precisamos? Temos um sistema incrível que remunera muito bem os inovadores, ainda que sejam só promessas de sucesso: "No mundo, o que não muda é a mudança." -- Diria Heráclito se por minha boca afrolusoamericana... -- onde a contínua transformação das pessoas e das coisas se oferece ao olhar. Em oposição ao dinamismo dramático que experienciamos em nossas vidas, toda tentativa de descrição de "um mundo melhor" descamba n'alguma forma de utopia pessoal ou paraíso sobrenatural que se caracterizem pela solução definitiva de problemas coletivo como a desigualdade social, em particular, as diferenças humana, em geral. Repare-se que em contraste com o mundo real, o mundo melhor desejado, n'esse plano existencial ou n'outros, é estático e estável: Cada coisa tem o seu lugar e toda a ordem estabelecida espelha alguma desordem inerente à realidade. No céu judaico-cristão, por exemplo, não consta haver pobres e ricos, servos e servidos, árabes e hebreus... Apenas bem-aventurados, i.e., pessoas que se mantêm em amizade com Deus. Portanto, todos são amigos entre si e suas diferenças foram sublimadas pela graça divina. Não há conflitos e todos são felizes pelos séculos dos séculos como se eternos anjos imberbes e de púbis liso. Embora filósofos e teólogos de grande erudição tenham deixado profundos escritos tentando fazer sonhos como os descritos pelas religiões fazerem sentido, o facto é que o mundo melhor se mostra, por via de regra, como uma realidade acabada sem interferência humana, logo, não histórica. Não progresso, evolução, transformação ou coisa parecida no mundo melhor, apenas a perfeição que brotou do Verbo Divino.

O mundo em que vivemos, por outro lado, parece se furtar a qualquer tentativa de estabilidade. Religiosos ou não, todos admitimos viver n'uma realidade hostil e complexa. Viver em coletividade nos obriga a um eterno debate sobre o que é tolerável e o que não é. Tolerável, não certo absoluto! Estabelecer regras mutáveis para a vida em sociedade expressa justamente o que as pessoas que integram aquela sociedade são capazes de tolerar ao interagirem. Submeter-se ao Pacto Social é uma tarefa tão difícil que não poucos optam pela marginalidade, pela clandestinidade ou mesmo pela misantropia. Sim, são indivíduos que não conseguem se adaptar à máquina do mundo e suas regras civilizatórias -- isto sem qualquer juízo de valor sobre as referidas regras -- colocando-se em franca oposição ao mundo que o cerca e as sociedades que o habitam. Não obstante, a grande maioria das pessoas aceita (conscientemente ou não) as regras do trato social e se civilizam para existirem submissos à ordem coletiva.  N'outras palavras, "aceitam o Universo", como ironizou Aldous Huxlei em CONTRAPONTO.  Ou ao menos tentam aceitar esse Universo que se move indiferente à vontade do indivíduo e mesmo contra este. A máquina do mundo gira sem se importar em como nos sentimos enquanto pressionados por suas engrenagens. É por essas e outras que a Educação tem sido, em última análise, não um processo para o desenvolvimento de consciências, mas sim para a aquisição habilidades úteis. 

Isto posto, observemos o humano contemporâneo: Serzinho minúsculo em face d'um Universo imenso, cada indivíduo é treinado desde a primeira infância para se integrar ao sistema que tem permitido a existência -- não sem grandes tragédias aqui e ali -- de sete a oito bilhões de serzinhos semelhantes. Para ingressar na máquina do mundo, o indivíduo aprende a se comunicar e a resolver problemas acerca de suas demandas básicas existenciais -- habitar, comer, beber, ter prazer sexual, confraternizar... Somente definidas as necessidades do indivíduo é que este passa a buscar uma actividade que lhe permita obter o que precisa para viver em conformidade com as regras estabelecidas pela coletividade. Ou seja, trabalha para viver, não o contrário. Depois de milênios onde essa questão era sequer colocada em função da urgência de se sobreviver com tecnologias muito limitadas a demandar antes braços do que cérebros, vivemos um tempo no qual todos somos estimulados por associações neurológicas -- quer química; quer psíquicas -- a oferecermos o máximo possível de nós para o sistema que permitiu o superpovoamento do Planeta. Sistema esse que se caracteriza pela superprodutividade demandada pela compulsão de objetos de desejo. Ser humano, hoje em dia, é ser consumidor, ou melhor, quem não consome se sente como se não existisse de facto. A tese que se defende no presente texto é de que essa ansiedade a qual o indivíduo é continuamente submetido para consumir mais e mais faça d'ele um eterno insatisfeito consigo mesmo e com sua vida. Por quê? Por causa da contínua promessa de prazer e felicidade oferecida pelo sistema que associa ao conforto material a importância existencial do humano contemporâneo. Promessa essa eternamente adiada. Nos poucos pódios do mundo, a Máquina de Fazer Doidos oferece vencedores diariamente para o aplauso da massa e o vexame dos que não chegaram sequer perto de se destacar. Os perdedores, aqueles que ninguém quer ser, são a maioria. Há poucos lugares no topo e esses têm a visibilidade que dá credibilidade ao discurso continuamente oferecido aos ansiosos da sociedade de consumo: Uma vida que vale a pena viver é aquela que os vencedores vivem... Viagens em primeira classe, hotéis cinco estrelas, jatinhos particulares, carros esportivos, a companhia de mulheres belíssimas, vida noturna agitada, descanso em praias paradisíacas... Sim, o prêmio dos deuses aos primeiros lugares do pódio. 

O problema, no final das contas, é que a loucura pandêmica com a qual lidamos todos os dias advém do ódio à pobreza que a Máquina introduz em nossas mentes n'uma hipnose contínua. Tudo ao redor parece nos dizer que não ter dinheiro é inadmissível. Ninguém será interessante se não apresentar a todos os objetos de desejo que expressem o sucesso dos vencedores. Não importa o quanto sua arte, ciência ou filosofia sejam profundas, o que vale é o preço de venda. Poetas vendem por tuta-e-meia textos que os leitores só admitem ler de graça. A conta não fecha. Logo, poetas são alternativos a esse mundo de barganhas enquanto eternos miseráveis da arte; da literatura. A Máquina despreza miseráveis. Quem não aprende um meio de fazer dinheiro torna-se invisível. Por resto, o pobre perdedor passa a ter ódio de si mesmo, n'uma cobrança depressiva que activa o mecanismo de autodestruição do indivíduo. Círculo vicioso: Álcool, drogas e promiscuidade não por diversão, antes por lento suicídio. A Máquina de Fazer Doidos, a máquina do mundo, engatilha em nossas mentes a ideia de que se não somos vencedores, não somos nada. Forçoso lutar todos os dias com esse estado de coisas e se aceitar. Sem aceitação de si e suas eventuais limitações, derrotas ou confusões, a máquina do mundo assume a nossa cabeça e nos conduz para o profundo desprezo pela vida e insatisfação consigo mesmo. 

É preciso desligar o mecanismo de autodepreciação.

É preciso criar pelo prazer de compartilhar.

É preciso valorizar o que não tem preço. 

É isso.

Betim - 17 06 2020

quarta-feira, 3 de junho de 2020

SABER POÉTICO

SABER POÉTICO

Às vezes me pego discutindo sábios, como se eu fosse um também. Não sou. Respeito muito aqueles que alcançaram grandes luzes e, mediante muito esforço intelectual, passaram do estado em que se dedica a sabedoria alheia e se arvora a si mesmo propositor de saberes e sabedorias. Não me encontro entre os segundos e mal me encaixo entre os primeiros: Estudo, aprendo, escrevo... Não apresento ao incauto leitor que se depara com meus alfarrábios a ilusão de que haja um sábio ditando as palavras ali escritas. Não mesmo. Não ofereço conhecimento em versos, apenas poesia. E o que poesia se não oferece saber? Penso que poesia seja uma forma de escrita que se exige peculiar. Diferente da prosa, o pacto de comunicação exigido com o leitor mostra-se de natureza por vezes idílica e por vezes comparativa, mas nunca apenas literal. O poeta oferece textos que não têm necessariamente utilidade como receitas de bolo ou manuais de equipamentos...

Em tese, ler ou não ler um poema não faz qualquer diferença na vida de ninguém. Ninguém se torna doutor em nada lendo frases em estrofes, com rima ou não. Não há mérito em se conhecer a obra de poetas como há em se conhecer filósofos ou cientistas. Não há mesmo. E isso não é demérito para o poeta, pois, o texto poético é de outra natureza. Mesmo quando defende ideias nos versos, há-que se considerar que, em poesia, mais importante do que a lógica e o sentido das palavras é o efeito que causam. Há quem entenda poesia como uma espécie de caçada de calembures, ou melhor, a busca por trocadilhos sonoros e gráficos que façam sorrir pelo inusitado. Muitos autores são notórios achadores de jogos de palavras, criadores de sonoridades herméticas ou rimadores inusitados. Sabe-se lá porquê, esses efeitos especiais do idioma fazem brilhar regiões especiais da massa cinzenta que nos comanda o corpo inteiro e nos chama a atenção.

Além de fingidor, o poeta é um excêntrico. É alguém que foge do destino comum de fazer dinheiro, obter boa fama, cuidar da saúde e viver confortavelmente para, pasmem, escrever textos "que digam algo a alguém". Não basta contar histórias que entretenham o público por alguns dias, como pretendem os romancistas e mesmo os roteiristas (esses sim, hoje em dia, bem remunerados). Não, o poeta, com raras exceções, não quer tomar mais do que alguns minutos do tempo do leitor... Quer apresentar seu "achado" dentre as douradas possibilidades do idioma para que a alma; ou a consciência ou coisa parecida, se enterneça do que lê e sinta, eventualmente, o prazer que sentiu o excêntrico poeta diante do inusitado descoberto, visto que entre rococós e rebuscamentos algo além do significado das palavras se transmite. Repare-se que é justamente n'esses pequenos nadas que o tradutor trai o autor, revelando que aquele efeito é algo limitado a um público e se vernáculo.

O saber poético, dito isso, mostra-se o conhecimento das peculiaridades do idioma aproveitado para tornar incomuns os textos que se diagrama em estrofes. Embora entenda que quem se expressa com métrica, ritmo e rima explicite seu desejo de ser lido como poesia desde a primeira linha, forçoso é admitir que muitos alcançaram a atenção poética do leitor sem se valer d'estes artifícios. Em verdade, a forma por si só não confere ao texto o estatuto de poético. A rigor, texto poético é aquele que acompanhava a melodia de canções curtas na Baixa Idade Média... As formas poéticas herdam esse malabarismo textual que é escrever com artificialismo de frases rimadas entre si no momento em que os músicos -- cada vez mais reconhecidos nas cortes europeias -- passaram a escrever peças para suas orquestras sem necessidade de textos para a vocalização de cantores... Quando a música de corte passa do popular para o erudito e se manifesta como expressão de sofisticação, riqueza e poder d'um senhor e sua casa, a poesia sobra como texto incomum cultivado por letristas sem música para pôr letra... Se a poesia dos Cancioneiros é basicamente letra para música de trovador, a poesia dos Quinhentos, entre a medida nova e a medida velha, são letras para formas fixas sem música.

Dir-se-ia que tanto os músicos quanto os poetas obtiveram mais liberdade expressiva com esse divórcio, mas o facto é que esse movimento é sobretudo elitização artística, visto que a música popular continuou existindo com letra e música. É a música erudita e a poesia humanista que se afastaram dos folguedos populares na ânsia de alcançarem públicos cultos o bastante para lhes perceberem as subtilezas. Camões escreve para o rei e seus fidalgos, não para a marujada. Bach escrevia para outros músicos a soldo de banqueiros, não para os beberrões do mercado... O problema é que a música popular não era registrada como eram a música erudita e a poesia aristocrática. Sobretudo por isso que o desenvolvimento da poesia e seu território de saber se tornou cada vez mais literário, logo, mais próximo dos prosadores de crônicas de gazeta e dos contadores de histórias publicados em livros do que dos cantadores populares cujas letras simples tendiam para os refrões mnemônicos acompanhados d'um violão e um tamborim. Não é de se surpreender que no século XIX já se observe certa tendência para se fundir poesia e prosa n'um só território, i.e., o literário. Entendendo-se, vale dizer, literária como uma expressão mais sofisticada da escrita em oposição aos textos técnicos e jornalísticos.

Na verdade, essas distinções conceituais acabam não dizendo muito: Se tudo for poesia, nada será poesia... O saber poético propõe-se como um filtro diante da realidade. Ver as coisas d'este mundo sem a objetividade do cientista ou a especulação do filósofo. Ver sem se contentar com o lugar-comum dos letristas de canções populares (obcecados em agradar o público!). Ver sem se preocupar com o rótulo de literato-grande-escritor que não lhe auferem para abstrair da existência uma dúzia ou mais de versos que se possa ler em paz. 

Betim - 03 06 2020

domingo, 26 de abril de 2020

AQUÁRIO-MÚNDI

AQUÁRIO-MÚNDI

Escrever sobre História nos dias confusos que correm é tão necessário quanto colectar os factos que se sucedem em velocidade vertiginosa no mundo actual. Os primeiros vinte anos do Terceiro Milênio parecem ter encontrado enfim um marco limítrofe enquanto período histórico com o advento da Pandemia de Covid-19 mais a profunda crise do Capitalismo Financeiro d'ela decorrente. Embora ainda nos encontremos em pleno processo, todos somos unânimes em afirmar que nada será como antes quando os dois grandes acontecimentos citados acima concluírem seu desenvolvimento. O novo equilíbrio entre as nações, bem como o fortalecimento de instituições supranacionais como a OMS indicam uma nova ordem mundial onde agência globais tornam-se protagonistas na acção coordenada contra problemas que não são -- ou não podem mais ser -- resolvidos apenas por decisões nacionais. A democracia nacionalista, em certa medida, passa ser suplementada pela tecnocracia das agências internacionais. Repare-se que não há qualquer juízo de valor, mas antes uma descrição objectiva da acção da OMS ao longo da Pandemia é do poder que agências afins adquirem face à inequívoca capacidade das nações independentes em reagir ao problema posto sobre a mesa de negociações. A vacina, o tratamento, o controle de disseminação e consequências econômicas da Pandemia forçou-nos a buscar uma solução necessariamente de alcance global, assim como o próprio novo corona vírus se mostrou.

De certo modo, a História é como um aquário no qual os factos e as narrativas propostas pelos historiadores sedimentam lentamente. Isto posto, a verdade histórica pode ser vista como a descrição das camadas que se acumulam no fundo do aquário, mas nada impede que um movimento revisionista levante esse saber estante, mudando o modo como compreendemos o passado. De qualquer modo, o turbilhonamento também cessa n'algum momento e as camadas voltam a assentar para consolidar novamente o saber histórico. História é ciência, mas é também memória colectiva. Quanto mais distantes os factos em relação à sociedade, mais as pessoas têm de confiar na descrição dos historiadores, visto serem estas as camadas mais sólidas e profundas de nossos registros enquanto Humanidade.

A imagem dum AQUÁRIO-MÚNDI como representação imagética do esforço de descrição do passado remete aos horizontes que amostras de solo ou gelo escavado em sondagens apresenta, mas com a vantagem de não serem pontuais, sim sistêmicas, no referido aquário. Se catalogarmos as fontes de informação sobre os períodos sedimentados e formos capazes de as avaliar criticamente quanto à confiabilidade -- discriminando a mera opinião do cronista-historiador e os factos que comenta -- poderemos produzir tentativas de saberes sobre o passado sem deixar que preferências intelectuais cristãs ou marxistas -- por exemplo -- se coloquem feito lentes sobre os olhos na hora em que olhamos para as camadas consolidadas no fundo do aquário.

Essa camada superficial representada pelos últimos vinte anos -- o fim d'uma Era! -- ainda se apresenta como água turva diante dos observadores da conjuntura histórica. Não obstante, é dentro d'esse aquário imaginário que tenho posto o que atravessamos em relação com o passado. Houve muitas outras crises sanitárias no passado sim, mas jamais estivemos tão conectados enquanto habitantes d'esse Planeta. Jamais soubemos tanto sobre o flagelo que nos aflige e, provavelmente, jamais reagimos com tanta responsabilidade quanto agora. Mais do que o vírus em si, vemos a cooperação entre as nações mitigarem os danos é apontarem as saídas da crise. Talvez os cientistas é os tecnocratas cresçam sobre as lideranças políticas n'esse cenário. Talvez se mantenham importantes nas decisões acerca do controle de doenças, segurança alimentar e mesmo ordenamento econômico ao redor do mundo. Talvez seja um mundo novo surgindo diante dos nossos olhos nas águas turvas do Aquário-Múndi onde tenho entendido a História.

Betim - 26 04 2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

O GOVERNO ACABOU

O GOVERNO ACABOU

-- "Bolsonaro, você não recebeu a mensagem que seu filho mandou para você"
-- "Você é de que nacionalidade?
-- "Eu venho do Haiti. Sou brasileiro."
-- "Pode continuar."
-- "Bolsonaro, acabou! Você não é presidente mais."-- e repetiu--"Você não é presidente mais."
--"Desculpa, mas eu não estou entendendo." --respondeu, com sinceridade, em face da pronúncia do haitiano-brasileiro.
-- "Você está entendendo bem, estou falando brasileiro (sic). Bolsonaro acabou. Você está recebendo mensagem no celular. Todo mundo, todo brasileiro está recebendo mensagem no seu celular. Você está recebendo as mensagens que seus filhos mandarem para você. Você não é presidente mais, precisa desistir. Você está espalhando o vírus e vai matar os brasileiros", disse o haitiano para o Presidente. […]

Esse diálogo inusitado aconteceu em Brasília faz uma semana. Na noite de 17 de março, terça-feira passada, em frente ao Palácio do Planalto. Havia, de facto, revolta de muitos setores da sociedade brasileira pela convocação por parte do Presidente de manifestações de apoio ao seu governo --mesmo contrariando as recomendações do Ministério da Saúde em função dos primeiros casos da Covid19 então diagnosticados no país e do agravamento da transmissão do novo corona vírus no continente europeu. Revolta esta agravada pela participação efetiva do Presidente, no dia 15 de março, das manifestações. Mesmo tendo sido declarado já haver possível contaminação comunitária nas grandes cidades brasileiras, Bolsonaro aproximou-se dos manifestantes, apertou a mão de apoiadores, tirou dezenas de fotos e permaneceu no meio d'eles por muito tempo. As fotos e vídeos encheram o noticiário como a própria definição de temeridade.

Hoje, 24 de março, Bolsonaro fez um pronunciamento no qual deixou patente seu posicionamento contrário em relação ao esforço que a sociedade brasileira tem feito em mitigar as perdas humanas diante da pandemia da Covid19. Apesar de todo estresse do confinamento e das enormes privações materiais a que a população está se submetendo. Empresários e trabalhadores estão desesperados em relação aos custos econômicos do confinamento, mas as notícias que vêm da Europa -- e, mais recentemente, também dos Estados Unidos-- se impõem diante do cenário apocalíptico anunciado pela própria Organização Mundial de Saúde para as próximas semanas e meses. Ouvir o Presidente da República minimizar a pandemia, mais uma vez, como "gripezinha" e criticar a mobilização feita por Governadores e Prefeitos em proteger a população como "histeria" calou realmente muito fundo na alma das pessoas. Não faltou quem reagisse dizendo que Bolsonaro está desconectado com a realidade ou sendo simplesmente irresponsável. Os números divulgados hoje pelo Ministério da Saúde -- ;2.201 casos confirmados e 46 mortos -- mantêm no Brasil o cenário de escalada da crise sanitária em moldes com as crises italiana e espanhola. Um país que não tem sequer álcool em gel e máscaras disponíveis para a proteção das pessoas assiste o Presidente da República se opor ao isolamento social que tanto tem custado às famílias como se fôssemos tolos manipulados pela Mídia.

Quando se afirma que O GOVERNO ACABOU, fazendo eco ao haitiano que abordou o Presidente há uma semana atrás, não é por esperar que alguma acção do Supremo ou do Congresso vão, efetivamente, apear Bolsonaro do poder. Ao contrário, haverá a contemporização costumeira e ele permanecerá envergando a faixa presidencial. Sem embargo, tudo o que disser ou fizer d'oravante será cada vez menos importante para a vida das pessoas.
A partir de hoje, a manifestação dos governadores e prefeitos se reveste d'uma relevância muito maior, pois com erros e acertos, estão enfrentado a crise sanitária, não a ignorando. Bolsonaro se tornou irrelevante n'um momento em que sequer é capaz de fazer uma Medida Provisória de ordenamento econômico como a n° 927 --publicada ontem cedo e revogada de tarde!-- sem trazer ainda mais confusão para o já caótico quandro que presenciamos. De tanto dizer e desdizer diante dos governadores e prefeitos, Bolsonaro simplesmente não lidera o consenso da sociedade em se proteger, sanitária e economicamente, da pandemia que assola o mundo. Aliás, chega a ser genocida o contraste entre a autoridade brasileira e as autoridades do resto do mundo: Um esforço imenso em isolar e testar as pessoas para direccionar as acções de saúde enquanto aqui o confinamento é confundido com férias forçadas e desnecessárias, segundo o Presidente.
Bolsonaro não governa. Independente do que tenha dito em seu pronunciamento hoje, ninguém deve fazer o que orientou. Ninguém vai flexibilizar o confinamento por causa de suas palavras. Ninguém vai investir um centavo em coisa nenhuma diante de seu chamamento à normalidade. Simplesmente não vai acontecer. Todos -- empreendedores, desempregados, precarizados, investidores e até meros observadores -- vamos seguir as orientações de governadores e prefeitos, para o bem ou para o mal. Todos continuaremos acompanhando atentamente as notícias trazidas pela impressa nacional e internacional acerca dos desdobramentos da crise sanitária que atravessamos. Independente se ao fim morrerem cem ou cem mil, as acções de segurança sanitária se impõem diante d'uma doença nova, altamente transmissível e sem medicamentos testados com sucesso. É preciso que a comunidade científica e os centros tecnológicos tenham tempo para desenvolver soluções sob pena de assistirmos a superlotação de hospitais e filas de caminhões funerários.

Felizmente ou não, a Presidência da República se tornou um cargo decorativo. Tão decorativo quanto seu retrato oficial de Presidente da República na parede do cenário do vídeo de inspiração nazista estrelado pelo ex-secretário especial da Cultura, o execrado Roberto Alvim… Deixem Bolsonaro no Palácio do Planalto para satisfazer seus apoiadores ruidosos e fanáticos. Não faz diferença mais.

Belo Horizonte - 24 03 2020

domingo, 22 de março de 2020

MEIA IDADE

MEIA IDADE

Ali pelos quarenta, depois de a vida já ter dado errado, a gente percebe que coisas como carreira, relacionamento e status não nos levaram aonde pretendíamos. Ou melhor, suas promessas de felicidade e bem estar não se cumpriram. Chega uma hora em que se aceita que mesmo a realização de sonhos ou ideais não sejam mais o bastante.

Há uma certa melancolia no ar. Não é apenas a insatisfação de fundo a nos acompanhar feito uma melodia triste e lenta em cada coisas que fazemos ao longo do dia, mas a compreensão de que não somos tão bons quanto pensávamos e que isso sequer faz diferença. O mundo segue com ou sem a gente para aonde tem-de ir, como se fôssemos meros passageiros em sua trajetória espaço afora. Não mudamos o curso das coisas, apenas tentamos sobreviver, com muita dificuldade, a inundações, deslizamentos, erupções, sismos, tsunamis, carestias, revoluções, guerras, doenças e, agora, pandemias. Enfim, não é nada fácil existir…

Em todo caso, somos bilhões: Humanos. Não importa idade, gênero, etnia ou classe social todos atravessamos a existência com uma boa dose de inconsciência, aceitando o mundo que encontramos ao nascermos e transformando-o com nossas pegadas sobre a casca d'esse planeta singular que o Universo formou com a mesma indiferença que fez o desértico Marte ou gasoso Saturno. Aceitamos as coisas como são e tentamos mudar aquelas que abreviam os nossos dias. Por isso a transformação da natureza virgem em cidades e campos ou a edificação de habitats. Sim, tudo o que fazemos n'este mundo é transformá-los para podermos viver mais e melhor. Não sabemos bem por quê, mas é o que fazemos.

A noção de que todos lutamos por uma vida melhor está relacionada a tudo que temos feito na vida, não obstante se furte a qualquer racionalização. Ter mais não nos faz mais felizes do que ter menos. Dá um certo desânimo perceber que mesmo trabalhando todos os dias não viveremos melhor os próximos dez anos do que os dez últimos. Ao contrário, sem as ilusões que acalentamos de viver grandes experiências e realizar grandes coisas, o que resta é o quotidiano atravessado por infortúnios de quem se aproxima da velhice. Por via de regra, o ser de meia idade é um cínico que ri do amor, se protege do sexo e defende o governo. Sim, chegou a idade de ser bombeiro sem ter sido incendiário… Eu, de meu lado, aceito que seja assim. É um mistério, muito anterior a mim, esse buscar sobreviver a qualquer custo mesmo que não faça sentido. Eu me sinto desinteressado demais pelas pessoas para acreditar que esteja n'elas minha esperança. Não, não fico na expectativa de amores, orgias ou batalhas. Não me quero mais escravo da libido ou da adrenalina para suportar, prazenteiramente, o vazio da vida. Tudo me divirta, mas nada me possua.

A própria ideia de meia idade já expressa um padrão existencial no qual a vida consciente -- para a maioria, ao menos -- e projetasse até dos oito aos oitenta anos. Antes, a primeira infância com sua dependência extrema e identidade rarefeita. Embora impúbere, a constituição do Eu profundo que ensaia decisões e preferências estabelece o sentido de quem somos. Meia idade, portanto, é supor que se tem pela frente ao menos o tempo que já se viveu, descontados aqueles anos em que nós não éramos nós, sim o filho ou filha d'alguém. Quando ser filho se torna secundário, aquele que se é aflora com seu turbilhão de vontades e gostos pessoais até estabelecer uma identidade pela qual se é reconhecido. Sem embargo, chegar à meia idade é ser capaz de avaliar a caminhada feita e, a partir d'isso, avistar na distância o caminho à frente.

Se dissemos que a vida deu errado é porque todas as vidas dão errado. Ninguém chegou aonde pretendia quando planejou, lá no passado, o seu futuro. Mesmo que tenha conseguido muitas realizações, depois de vivenciar o sucesso, percebe-o relativo; insuficiente. O grande amor compartilhado se esvanece… O sucesso profissional torna-se um fim em si mesmo, escravizando… A sexualidade desprotegida leva ao anarquismo pessoal insustentável. Ali pelos quarenta anos tudo o que se quer é sossego! O grande amor é uma grande decepção? Dane-se! A carreira é uma corrida de cavalo atrás da cenoura? Que seja! Entregar-se a muitos é a maneira mais perfeita de não se possuir a si? Que a solidão nos traga a paz e o autoconhecimento! Repito: a vida já deu errado. Agora, o que me interessa são os lilases do entardecer e a lua surgindo sobre o mar. Não tenho dó de mim nem de ninguém. Usufruo da vida com a calma de Diógenes, passando ao largo dos deístas e seu pietismo opressor. Homem de meia idade, chego a um momento de perplexidade de quanto vivi. Na verdade, chamar isso de meia idade é quase um eufemismo optimista, dando a entender de que ainda há um segundo tempo para recomeçar tentando outras possibilidades. Eufemismos, como sabemos, suavizam civilizadamente os imponderáveis da vida... Não há segundo tempo, sim um incerto número de anos ao longo dos quais precisamos parar de seguir roteiros escritos por mãos alheias e procurarmos entender de que realmente precisamos para viver.

Consciente, não caio na armadilha de contar com os anos que virão como se fossem meus. Não, o futuro que me for concedido não me assegura possuir outros quarenta anos para existir. Vinte, dez, cinco, dois ou um ao menos. Não estou na meia idade porque tantos aos quarenta e poucos alcançaram a metade dos anos de suas vidas. Estou na meia idade porque já não me parece razoável olhar para frente com o mesmo olhar de entusiasmo e interesse que olhava quando tinha vinte e poucos anos. A vida, o que quer que tenha sido, já aconteceu.

Tampouco confundo meia idade com maturidade ou amadurecer. Se assim fosse, não haveria tantos coetâneos meus desesperados em parecer e agir como se vinte anos tivessem. Deveras, ter visto quatro décadas de transformações políticas, sociais e morais não capacita ninguém a ter-se como mais prudente do que os mais jovens. Ademais, não somos frutas ou coisa parecida para termos condutas mais razoáveis a essa altura da vida. Sem consciência de si ou do mundo, não faz diferença se se tem vinte ou quarenta anos: Apenas vivem para cumprir etapas dadas por outros

Meia idade ou idade média, meu momento é um segundo momento. Nada impede que minha história acabe abrupta; sem qualquer explicação. Enquanto estou vivo, todavia, procuro me divertir entre letras, minhas e alheias, na alegria de que não estou n'um certame intelectual ou coisa que o valha. Sou mediano e sou o primeiro a admiti-lo. Não cresci entre preceptores aprendendo línguas mortas e tampouco rodei pelas universidades e academias da velha Europa. Não emulei a autoconfiança yankee alavancada por montanhas de dinheiro e desprezo pela erudição. Sou mediano, mas não no meio do que quer que seja. Não sou mais que um brasileirinho fuleiro a escrever em língua portuguesa arrazoados sobre estar vivo com quarenta e poucos anos no início do Terceiro Milênio. Afinal, d'isso eu entendo algo.

Pensando bem, meia idade é apenas a idade em que o tanque de combustível da vida se encontra pela metade. Nada assegura que o auto vai durar até o tanque secar e interromper essa viagem de lugar nenhum para nenhum lugar. Não há interrupção, pois sequer havia destino desde o início. Ao morrermos, abandonamos nosso corpo-carro à beira da estrada enquanto outros carros passam indiferentes pela estrada. Não é -- e jamais foi -- estar no meio do itinerário da vida. Se este texto tem alguma utilidade pública é esclarecer isso: Não tomes como teus os anos que ainda não viveste. Meia idade não é o meio do caminho, apenas algo mais perto do fim do que o início.

Aceito meu tempo, minha idade e minha perspectiva.

Betim - 22 03 2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

A UM OU DOIS METROS

A UM OU DOIS METROS

Em tempos de Covid19, as pessoas se obrigam a mudar suas maneiras n'um processo quase de reeducação. Proibidos os abraços efusivos, os beijinhos fraternos e até os apertos de mãos firmes, civilidade se tornou algo sempre a um metro de distância. Quase d'um dia para o outro, a cada encontro humano, vem a dúvida: Como cumprimentar o outro?

As notícias que nos rodeiam são, de facto, catastróficas. Com 77 pacientes diagnosticados no Brasil - atualizado às 16h20 da tarde desta 5ª feira (12.mar.2020) pelo Ministério da Saúde - e projecções que indicam milhares de contaminações nas próximas semanas, eventos e viagens planejados há meses são cancelados em todos para cantos ao passo que expedientes de trabalho e aulas passam a ser cumpridos no domicílio, à distância.

Sob o signo do medo, vivemos em hesitação. Visitar ou não os pais idosos? Implorar que eles deixem de ir à missa sob o argumento de que até o papa está gripado e, indisposto, ficou na cama?… Parece, no final das contas um péssimo bom conselho. Todos já estávamos excessivamente emparedados, seja pela falta de dinheiro da actual conjuntura; seja pela radicalização dos debates ideológicos… D'um modo ou de outro, já andávamos meio distantes antes do vírus tornar isso uma obrigação.

A pandemia de Covid19 declarada ontem pela Organização Mundial de Saúde nos encontra - nós, brasileiros -  n'um momento de extrema fragilidade: Em geral, estamos mais pobres e divididos do que há dois anos atrás. E, agora, o vírus chega em nosso quintal (palavras do ministro da saúde) subvertendo as posições à esquerda é à direita a ponto de as tornar irrelevantes. As trincheiras ideológicas escavadas são subitamente inundadas pela necessidade de isolamento físico. De modo significativo, tanto as manifestações marcadas por bolsonaristas para o dia 15/03 quanto àquelas promovidas por antibolsonaristas para 18/03 foram desautorizadas por seus organizadores evocando razões de saúde pública. As notícias mais recentes dão conta que nada mais nada menos que membros da comitiva do presidente em visita oficial aos Estados Unidos testaram positivo para o Covid19 ao regressarem. Bolsonaro, após afirmar que a pandemia era uma "fantasia" da imprensa, rendeu-se ao facto de que ele mesmo poderia estar doente e pronunciou-se contra aglomerações humanas, sobretudo aquelas convocadas por ele mesmo em favor de seu governo.


Fiquem em suas casas! - dizem as autoridades sanitárias - ainda que não deixem pão em nossas portas… É preciso sair para trabalhar e estudar todos os dias evitando hábitos que antes faziam parte do quotidiano. Atravessamos um período de reclusão em eterno questionamento se era preciso mesmo tratarmos uma simples gripe com tanto receio ou se, ao contrário, deveríamos nos enclausurarmos em quarentenas radicais sem compartilhar sequer copos e talheres com os demais membros da família. É muito difícil aceitar esse momento, mas todos sabemos que tão-logo as pessoas comecem a adoecer gravemente, o pânico instalado se encarregará do resto.

Ressalte-se que, diferente do que se vê em China, Itália, Irã e Coreia do Sul, as pessoas ainda não têm morrido por aqui. Não falta quem duvide da importância do Covid19 citando dados da dengue ou do sarampo para reivindicar uma normalidade cada vez mais distante. Não importa o quanto se deseje minimizar o que estamos vivendo, a proximidade cada vez maior do vírus nos afasta cada vez mais de quem está perto. Afinal, ninguém quer trazer a virose para si ou para seus. Não é mesmo?

N'um tempo em que as mínimas coisas têm sido politizadas, aparece uma doença que não respeita as fronteiras das nações e muito menos as convicções pessoais. Lá e cá adoecem, sem distinção. Não obstante, a necessidade de conseguir dinheiro empurra assalariados com máscaras para as ruas. Quem puder realmente ficar em casa deverá se acostumar com a solidão, enquanto quem não pode viverá em constante vigilância para evitar o contágio.

Mesas são afastadas. Cadeiras, empurradas. Salas vazias, cheias de ausentes. Cumprimentos que ficam no ar. Gestos… Vigiando as mãos. Sem contacto.

Belo Horizonte - 13 03 2020

sábado, 8 de fevereiro de 2020

TRISTES BRASIS

TRISTES BRASIS

Nos idos de fevereiro de dois mil e vinte a sociedade brasileira assiste o momento mais reaccionário de sua História. A chegada ao poder de estamentos que se autointitulavam "independentes e apolíticos" consolidou um sentimento ressentido de pessoas que sempre trafegaram pelas sombras da Inteligência, da Academia, das Artes, das Ciências e, sobretudo, da Política em nosso país. Eram personalidades caricatas, exóticas, verborrágicas, neurastênicas, apopléticas, folclóricas, violentas, odientas, odiosas e odiadoras... Da maioria -- sou forçado a admitir -- jamais lhes tinha ouvido falar dos nomes antes de assumirem os postos que agora ocupam. São homens e mulheres que relativizavam os avanços brasileiros Pós-Democratização e se especializaram em falar para plateias nostálgicas d'um passado idealizado de Ordem e Progresso, isto é, do tempo em que o Brasil era o país do futuro. O paradoxo da coisa é a promessa não cumprida pelos governos militares de arrumar o Brasil para que a prosperidade se estabelecesse em nossa sociedade. Ao desejar esse passado no presente, a maioria dos votantes no sufrágio de 2018 cometeu a temeridade de eleger democraticamente um antidemocrático histórico e suas turmas. N'esse estado de coisas, cada rincão do país vê surgir personagens ou grupos locais interessados em radicalizar as imbecilidades diárias que a Presidência da República nos oferece por método de escamoteamento de suas crises estruturais.

O que se observa é a vitória de sub-reptícios gerar uma república de rancorosos. A princípio, a metralhadora de meias verdades e belas mentiras d'estes senhores se voltou contra os vencidos. Sim, a oposição em geral e a esquerda em particular sofreram campanhas sistêmicas de desmoralização. Valia de tudo: Notícias falsas, lacração autoindulgente, revisionismo histórico, desumanização do oponente, perseguição de adversários e a propalada guerra de narrativas ou de informação. Todavia, em face das seguidas caneladas governamentais e dos pífios resultados da retomada econômica, o método de ocupar a opinião pública com questões secundárias -- por via de regra, relacionadas ao conservadorismo nos costumes -- outros inimigos do povo de bem passaram a ser elencados pela máquina de ódio da presidência. Assim, indígenas, LGBTs, ambientalistas, feministas, artistas, afro-descendentes, jornalistas e veículos de imprensa -- ainda que pautassem suas reivindicações fora do sistema politico-partidário -- passaram a ser continuamente atacados por um presidente que gosta de falar demais... Uma agressividade que beira o gratuito e flerta diariamente com o trágico.

Embora todo o sistema político brasileiro convivesse com práticas corruptas há décadas, houve um grande esforço para convencer a população de que o campo político-partidário à esquerda deveria ser justiçado pelos homens de bem reunidos em torno do triunvirato Bolsonaro-Moro-Guedes. Deveras, a política de extrema-direita aliada ao bom-mocismo legalista e ao neoliberalismo radical teve por missão ao longo d'esse longo primeiro ano de governo pôr os políticos remanescentes no devido lugar  -- ou seja, submissos e intimidados por um Judiciário que sabe o que eles fizeram no passado. Seria com dossiês e processos que o Congresso se curvaria à liderança do Presidente para permitir que o Capital Financeiro reabilitasse a economia nacional e, d'estarte, reordenasse a sociedade sob uma meritocracia de resultados. A cereja do bolo d'esse cenário idílico seria a fé dos crentes de que Deus havia voltado a ser o Senhor da Nação Brasileira e que, portanto, a felicidade havia voltado à banda oriental da América do Sul.

Há, não obstante, uma tristeza omnipresente. Para decepção dos sensatos que embarcaram na canoa furada do antipetismo que elevou Bolsonaro ao papel de Salvador da Pátria, a Economia se recupera muito devagar em função dos resultados modestos da ampliação do consumo e da diminuição do desemprego. Para não falar do que precisa-mas-não-consegue, o Governo inventa crises semanais e nos distrai com o lugar-comum terra a terra de suas inusitadas políticas públicas de inspiração neopentecostal quando não neonazista. Os discursos parecem uma biruta de aeroporto, afirmando e negando à medida que as redes sociais reagem com mais ou menos simpatia ao que se expressa. É um presidente que não se vexa em dizer e desdizer quase tudo sobre o que tem a infelicidade de se declarar.

N'esse estado confuso de coisas onde rancor e inveja alimentam a falta de vergonha alheia pela própria ignorância, incultura e desinteligência, chegamos ao real motivo d'esse texto, a saber, a publicação d'um memorando da Secretaria de Educação do Estado de Rondônia que orienta o recolhimento de livros paradidáticos nas escolas públicas d'esse estado amazônico sob o pretexto de que eram inadequados à formação de crianças e adolescentes por conterem palavrões ou narração de actos indecorosos. A coisa, que já seria escandalosa em si pela desfaçatez de desestimular a leitura de livros já disponibilizados (logo, comprados e pagos pelo Poder Público), torna-se insustentável quando elenca as obras que entende de retirar das prateleiras escolares rondonienses: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Os Sertões, Macunaíma... Não! Não é mentira: Alguém que se diz técnico em educação decidiu praticar censura contra autores consagrados cujas obras constituem o florilégio imorredouro de nossa Literatura!...

Não se trata d'um caso isolado de incompreensão. Convém lembrar de que há menos de uma ano a Bienal do Livro do Rio ofereceu ao país o espetáculo da censura sob o argumento de se promover a proteção ao menor. A questão acabou denunciando preconceito cristão de relacionar homossexualidade com imoralidade. Proteger adolescentes da exposição a relacionamentos homossexuais demonstra que na perspectiva dos religiosos que governam a cidade do Rio de Janeiro a ilustração d'um beijo entre homens é necessariamente pornografia, não Literatura. Entre o recolhimento e cobrimento da capa da publicação, assistiu-se uma guerra judicial onde a liberdade de expressão mostrou-se mais uma vez ameaçada pelo fundamentalismo religioso e sua tentação de controlar corações e mentes.

Que mais dizer? Isso nos empobrece como povo de uma maneira inaudita. Cansado de odiar minorias em geral, um governo estadual alinhado com o bolsonarismo decide levar sua boçalidade ao ensino de Literatura. Difícil não ver senão rancor em tal disposição. Sim, os invejosos reaccionários se levantam contra as artes literárias com a prepotência de medir com sua régua moralizadora patética autores que não foram capazes de entender. Não lhes basta pretender criminalizar os livros de Marx ou distribuir Bíblias aos quatro cantos, faz-se necessário limitar o accesso à leitura de toda uma geração. Tratam romances, livros de contos e de poesia com o mesmo critério que imaginam adequado a obras audiovisuais -- isto é, a restrição etária -- quando na verdade objetivam tolher o senso crítico e, sobretudo, a capacidade de raciocínio e imaginação que o texto escrito preconiza. A ideologização olavista e o revisionismo histórico d'ele consequente parecem tramar uma espécie de revolução cultural que não apenas deseja controlar a presente produção literária e cultural do Brasil actual, mas também mudar o que se considera importante enquanto Literatura Brasileira.

No que depender das autoridades, há-de restar para nossa juventude apenas a Bíblia, livros piedosos decalcados da Bíblia e manuais de armas de fogo. De facto, para que ler Franz Kafka ou Edgar Alan Poe n'esses tristes brasis de nossos dias?

Betim - 07 02 2020                                                                                                                                                                                                   

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A CIDADE, POR ANTONOMÁSIA

A CIDADE, POR ANTONOMÁSIA

 - "Vou à Cidade hoje…" - dizia-se antanho. Sim, para a gente que cresceu na periferia distante da metrópole brasileira, ir à Cidade - assim mesmo: Sem carecer nomeá-la, de tão óbvia! - era um acontecimento. No meu tempo de menino, eram duas horas dentro do trem suburbano. Tinha apenas dois por dia, isto é, um de manhã bem cedo saindo de Betim (que era a sede do município, mas não era "a Cidade"); o outro, que saía da Praça da Estação, no fim do dia para passar na nossa parada já de noitinha. N'outras palavras, se não tivesse dinheiro para o ônibus (o trem era bem barato!), o caboclo era obrigado a passar o dia na Capital, zanzando para lá e para cá, até dar hora de voltar de trem. Não foi uma nem duas vezes apenas que tive de fazer isso! Tempo difícil, de pouquíssimo dinheiro que, ao contrário da roça d'onde eu vinha, fazia toda a diferença. Para mim e para os meus, a Cidade, por antonomásia, era Belo Horizonte.

Hoje em dia é mais raro ouvir alguém se expressando assim, geralmente os mais velhos, aqueles que promoveram a épica-mas-picaresca vinda para a cidade grande, cujo fenômeno - conhecido como Êxodo Rural -  mal dá conta do sofrimento d'essa massa movida à esperança que gastou sua vida dentro de fábricas, lojas e ônibus para dar uma vida melhor aos filhos. São eles, já encanecidos, que reconhecem com familiaridade a expressão e ainda a completam tal como se fazia d'antes: - "Mas volta hoje?"…

A dúvida era pertinente. Lembro-me, já na adolescência, de perder o último ônibus para os lados da minha casa e esperar até de madrugada para pegar uma condução que me deixou cerca de 12 quilômetros de caminhada da minha casa! Recordo a solidão d'esta noite e o coração apertado de descer a rodovia vazia e escura até avistar as luzes da fábricas no entorno do meu bairro… Cheguei quase na hora de sair de volta! Sim, a Cidade chamava, todos os dias, para a gente construí-la e enchê-la de mais gente.

Era eu mais uma formiga no formigueiro do Centro - hoje chamado de Hipercentro - dentro dos limites da Avenida do Contorno, isto é, o tabuleiro do Eng. Aarão Reis. No meio, no cruzamento da Avenida Afonso Penna e Avenida Amazonas, o Monolito, ou melhor, o Pirulito da Praça Sete. De Belo Horizonte, não conhecia nada para fora d'ali. Não transitava por pontos turísticos, como o mirante do Mangabeiras ou a Lagoa da Pampulha, e era pobre demais para a boemia dos bares da Savassi. Tanto os bairros abastados quanto os afastados eram meras abstracções para meus olhos suburbanos. Minto: Conhecia palmo por palmo a Avenida Amazonas que nos levava e trazia quase em linha reta de Leste para Oeste até virar a rodovia Fernão Dias. O curioso do alinhamento d'essa artéria é ter tido, todos os dias, o sol nascente cegando os olhos de manhã e o poente de modo semelhante no fim do dia. Acho que por isso fiquei míope… Não tem como escapar: Olhar para frente é ver o sol baixo no horizonte raiando direto no nervo óptico! Podia-se olhar para o chão, mas decerto diriam que que'eu era vergonhoso ou coisa parecida. Minha vida sempre foi contra o sol.
A Cidade tinha tudo o que não tinha na periferia, ou seja, ensino técnico e superior; clínicas médicas especializadas; lojas de departamentos e, pasmem, cinemas! Pois é, n'aquele tempo em que se ia à Cidade, era, também, para ir ao cinema. Sinto-me velho em ter de explicar para a mocidade que não havia Shopping Center (não no centro de BH ao menos) e que cinemas era prédios autônomos: Cine Palladium, Brasil, Acaiaca, Pathé, Royal, Art-Palácio… Cada um teve ao menos uma seção memorável para mim. A última seção - ainda lembro - foi o Titanic, de James Cameron, no Palladium. Ainda vou, raramente, nas salas menores que sobraram, como a Humberto Mauro, mas nem de longe é a mesma coisa. Nem tinha como ser, não é?

Era um tempo em que se atravessava a pé o Centro, de lá para cá, o tempo todo. Cortava caminho pelo Parque Municipal e seguia Rua da Bahia acima até a Praça da Liberdade e depois tinha de descer de volta até o Mercado Central para pegar ônibus perto da Praça Raul Soares. Morro acima; morro abaixo… Se perdesse a noção d'onde estava, bastava olhar para o coroamento dos prédios e procurar o relógio digital do ITAÚ na cobertura do Edifício JK que, retirado ano passado, também não está mais lá. Não havia o Belvedere e o Buritis cheios de torres espigadas no pé da Serra do Curral. Aliás, para aqueles lados, o que se via eram os barracos do Aglomerado da Serra. Tudo mudou muito rápido n'aquela região, levando o comércio sofisticado da Savassi para os altos da Cidade. Com as novas centralidades, quase tudo que era importante saiu do Centro de BH. A Cidade - ou ao menos aquilo que era Belo Horizonte para mim - esvaziou-se. Essa nostalgia, ou coisa que o valha, que me fez escrever é, no fundo no fundo gratidão por ter crescido aqui, estudado aqui, trabalhado aqui. É um lugar que me diz muito, mas do passado passado. Só me resta torcer para que o Fado, essa entidade caprichosa, permita-me redescobrir o afecto d'estas ruas e avenidas à medida em que precise revisitá-las novamente.

Belo Horizonte - 28 10 2020

SEXORAMA

SEXORAMA

Do Latim [ SEXUS ], «gênero» estado de ser macho ou fêmea”, relacionado a SECARE, “dividir, cortar”, pois ele divide a espécie humana em duas partes. Do grego [ HÓRAMA ], «espetáculo» exibição aos olhos, visão.

Entre o erótico e o pornográfico, a exibição do acto sexual para um público é tão antigo quanto a criação de imagens. Atravessando a história do desenho, da pintura, da fotografia, do teatro e do cinema, a representação do sexo enquanto forma de excitação expressa a busca do prazer como parte da satisfação existencial do ser humano e mesmo como uma forma de saber. Sim, sexo não é apenas algo para se fazer; é algo para se ver de fora. Sexorama, portanto, seria a espetaculização do sexo. Quando isso ocorre de forma considerada expressiva — logo, seguindo conceitos estéticos e exigindo-se intenções de sentido — a sensualidade dos corpos em movimento pode ser considerada uma obra de arte. Ou senão, no pior das hipóteses, mais um produto da indústria cultural.

Muito além de voyeurismo, assistir pessoas transando é sobretudo uma forma de projeção da própria personalidade e prazer n’aqueles que encenam uma relação diante de olhos alheios. Há curiosidade; há intimidade, mas há também vergonha de ser visto vendo. Afinal, desnudar-se é ainda expor-se. A grande dificuldade de encenar o sexo está em revelar mais de si do que o desejável. A personagem pode até ser uma oportunidade para ser quem se deseja, mas também mostra o ser que se é. A máscara do actor tem de ser cada vez mais ajustada à face até que seja imperceptível sob pena de revelar uma canastrice broxante. Fingir com sucesso excitação é quase impossível. Por isso, talvez, é tão decepcionante que o ser humano não seja uma máquina sexual.

Assistir a sem-vergonhice dos outros acaba sendo pretexto para a própria sem-vergonhice. Até porque, a transa de terceiros sempre parece mais interessante… Os horizontes sexuais se expandem e as possibilidades se tornam quase infinitas. Ao menos na fantasia de quem assiste! O espetáculo que o expectador tem diante de si, relegando seu ponto de vista ao de uma espécie de mosca que adentra a intimidade de pessoas nuas e participa d’aquela experiência sem interferir n’ela pode ser entretenimento adulto, como querem alguns, mas é sobretudo uma fruição emocional. O objectivo é sentir sem correr riscos; Ousar ser quem não se deve para abstrair, por meio do outro, o prazer que outro sequer teve. Sim, o sexorama, em todas suas formas históricas, permitiu a homens e mulheres esse outrar-se n’aquele e aquela que gozam ao ponto de se questionarem se não estavam negligenciando um aspecto importante da existência ao buscarem se adequar a padrões sexoafectivos impostos pelos costumes e fixados pelas religiões. Sem a co-experiência do sexo mediante a arte, a caretice provavelmente não seria sequer questionada. Não é à toa que a censura às várias formas de sexorama seja a tônica de boa parte das políticas públicas de controle de accesso à informação em sistemas autoritários.

De facto, sexoramas são e foram criminalizados como incitadores de comportamentos inadequados àqueles que se encontravam celibatários ou em relações monogâmicas tradicionais. O espetáculo em si já era algo criminoso: Produzir encenações de relações sexuais para a contemplação de terceiros… — “Que sentido poderia haver n’isso senão perverter as relações humanas sadias? “ — diziam. Não obstante, graças à curiosidade humana sobre “o que os outros estão fazendo” o conceito de relações sadias foi relativizado e o carimbo de PERVERSÃO ficou restrito às relações que realmente prejudicam física e emocionalmente os envolvidos na encenação. Por via de regra — e os artistas do sexo não se eximem de seguir regras — obras que incluam menores, estupro e abuso de animais (isto é, sexo sem consentimento racional responsável) são, sem sombra de dúvidas, ilegais.
Entre o ilegal e o imoral, porém, há uma imensa distância que, inclusive, parece aumentar a cada dia. Moral é aquilo que se considera certo ou errado tendo em vista os costumes d’uma colectividade. O que se percebe é que, também por causa das provocações de sexoramas, os costumes mudam. Ainda que essas mudanças possam ser condenadas por conservadores e religiosos. Nas sociedades contemporâneas, o indivíduo aceita cada vez menos ingerências externas sobre suas práticas sexuais, rindo do inferno prometido a eles pelos crédulos e denunciando o preconceito dos raivosos. Na guerra audiovisual entre narrativas piedosas e sacanas por índices de audiência, mesmo com as limitações legais de faixa etária, a sacanagem parece ganhar sempre. Isso é um sinal dos tempos e, com toda a certeza, inspira os crentes a implorar o apocalipse. Até este momento, contudo, em vão.

Espetáculo por excelência, o sexo — não a religião — faz as pessoas felizes.

Belo Horizonte — 28 01 2020

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

1964: QUANDO FOMOS ÀS RUAS POR DITADURA

1964: QUANDO FOMOS ÀS RUAS POR DITADURA

Ordem Social pode ser um jogo de luzes e sombras. Não raro é no ambiente tolerante e permissivo de regimes democráticos que o autoritarismo irrompe arrebatador com suas promessas de legalidade e manutenção da ordem. É como se liberdade demais fosse um problema para manter os tijolos da pirâmide no lugar... A busca humana por melhoria da qualidade de vida se expressa, também, em aspectos materiais que depende d'um ambiente de negócios seguro. Pode-se assumir como regra geral que rupturas institucionais não interessam à maioria dos operadores de capitais e empreendedores. O homem comum, por outro lado, se preocupa menos com o lado d'onde vem o chicote da repressão... Direita ou esquerda; monarquia ou república; colônia ou nação independente... Não importa: A vida de quem não tem muito muda muito pouco quando tudo muda.

Sem embargo, a apatia do povo pobre contrasta com a indignação de quem é ou se sente classe média. Para estes, sim, mudanças fazem toda a diferença. Sempre é no miolo da pirâmide social que as movimentações a causar fissuras estruturais acontecem. É ali que surgem os ideólogos, os conspiradores e, sobretudo, as lideranças que vociferam contra "tudo isto que está aí". Curiosa, n'esse sentido, é a noção de CONTROLE SOCIAL. Em regimes democráticos, controle social corresponde a estruturas de avaliação de políticas públicas por parte da sociedade civil, ao passo que, em regimes autoritários, falar em controle social é o mesmo que falar em forças policiais e instituições de repressão responsáveis pela manutenção do próprio regime. Dificilmente, porém, a sensação de liberdade dos cidadãos é ampliada em sistemas nos quais há controle repressivo às manifestações públicas de desacordo com o Governo e suas políticas. Não por acaso, estados democráticos se esforcem por não parecerem excessivamente militarizados e tampouco condicionadores da expressão da imprensa ou dos movimentos sociais. Em ditaduras, como se sabe, forças policiais são omnipresentes. Controlar e reprimir são sinônimos n'esses regimes. Todavia, à medida em que o controle das pessoas pelo Estado é ampliado, o controle do Estado pelas pessoas é desestimulado, o que amplia o risco de corrupção dos processos, bem como a impunidade geral de corruptos. Afinal, os crimes que realmente concorrem para o abalo da Ordem Social são aqueles em que os pobres, estacionados na base da pirâmide social, deixam de seguir as regras. N'outras palavras, quando o marmiteiro se torna bandido... É esse movimento de manada de pobres e miseráveis em direcção à ilegalidade e o bandidismo que, de facto, assusta às classes superiores, não alguma forma tropicalista de COMUNISMO ou ANARQUISMO.

Como se explicitou no início d'este texto, para os pobres há uma percepção muito clara que as coisa mudam muito pouco em sua realidade com as mudanças de regime, portanto, movimentos de sublevação que encontram massivo apoio das camadas inferiores da sociedade dificilmente estão ligados a ideias, sim a lideranças, ou melhor a personalidades. Não é a utopia d'um sistema onde o rico deixa de ser rico e o pobre continua pobre -- como o comunismo cubano, por exemplo -- que fala aos corações e mentes das periferias, sim a percepção de que estruturas de bem estar social estão alcançando inclusive os mais pobres. A força política do bem estar social é que efetivamente levou à consagração do binômio ESTADO DEMOCRÁTICO e CAPITALISMO FINANCEIRO que configura o que ainda hoje se reconhece como Primeiro Mundo ou Mundo Desenvolvido.

No golpe de Estado --, ou revolução, como querem alguns actualmente -- de 1964, a classe média foi às ruas para pedir a ruptura n'um regime democrático que vinha patinando sobre mares de lama pelo menos desde o suicídio de Getúlio Vargas, dez anos antes. Havia muita insatisfação com um Governo cuja permissividade para com os opositores, típica de regimes democráticos, fora utilizada como narrativa para a suspensão d'este próprio Governo. Com efeito, milhares de senhoras honestas e homens de bem foram, de terço na mão, saíram às avenidas das grandes cidades brasileiras para pedir que seus valores, a saber, TRADIÇÃO, FAMÍLIA E PROPRIEDADE, fossem não apenas respeitados, mas estabelecidos como fundamentos da Ordem Social. Cientes de que apenas um regime autoritário seria capaz de conter as forças culturais e os movimentos sociais que se pleiteavam mudanças na sociedade brasileira, essa classe média conservadora abraçou a disrupção legalista do Movimento de 64 (contra pobres e subversivos) enquanto fazia vistas grossas para as agressões contra os Direitos Humanos de minorias, além de se colocava como cúmplice e apoiadora de políticas públicas, por via de regra, excludentes e repressoras. É como se houvesse uma ideia geral de que o Brasil só poderia dar certo violentando seu próprio povo... De facto, descendentes de indígenas, escravos e miseráveis desesperados só poderiam ser governados pela autoridade do chicote, não por pactos sociais. Historicamente excluídos de quaisquer decisões sobre a condução da coisa pública, essas classes sempre serão vistas com desconfiança e pavor pelo resto da população. Os regimes vão se sucedendo em seus ciclos de poder, mas a questão social brasileira permanecia invariável como nação promotora de grandes fortunas a administrar a insatisfação de imensas populações miseráveis. Por isso que tantos advogam que o problema do Brasil não é seu governo, sim seu povo. Há séculos se defende que o país só seja viável oprimindo os mais pobres e mantendo-os em seu lugar. Conservar tradição, família e propriedade era, sobretudo, manter o pobre em seu lugar. Pôr tanques de guerra nas ruas das cidades para criminalizar a classe política era, também, para manter o pobre em seu lugar. A democracia é o único sistema que tolera opositores que militam por seu fim.

O resultado não foi bom. Após 21 anos de ditadura militar no Brasil o país continuava subdesenvolvido e desigual. Apesar de toda a repressão às liberdades individuais e aos movimentos sociais, o conservadorismo católico soçobrou, quer face à modernidade laica, quer ao fundamentalismo neopentecostal. Embora cristão em sua maioria, somos um povo violento acostumado a um quotidiano inseguro. Dez Mandamentos não foram capazes de nos conciliar!  Ao contrário, o emaranhado de certezas paradoxais dos crentes tem nos levado, democraticamente, ao autoritarismo. Como em 1964, a classe média brasileira clama hoje por um Estado Policial e Judicial capaz de implementar o projeto de Ordem e Progresso de nossas elites desde sempre. E, como sempre, trata-se de manter o pobre em seu lugar.

Democracia em Vertigem. Terra em Transe. Pixote, a Lei do mais Fraco.

Betim - 27 10 2020



     

 

sábado, 18 de janeiro de 2020

OU ENTÃO NÃO SERÁ NADA

OU ENTÃO NÃO SERÁ NADA

De tudo o que se discutiu acerca da lamentável paráfrase que Roberto Alvim, agora ex-secretário de Cultura do Governo Jair Bolsonaro, fizera d'um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista do regime de Adolf Hitler, o que parece ter ficado em último plano é justamente o assunto principal do vídeo, ou seja, um desejo de cultura e de arte nacional brasileiras. Esse debate parece ter se tornado urgente para o governo Bolsonaro diante dos êxitos recentes em premiações internacionais de exemplares candidatos ao carimbo de ARTE DEGENERADA sob a perspectiva bolsonarista de apoiar apenas manifestações culturais de carácter tradicionalista, cristão e conservador. Com efeito, a indicação ao OSCAR do documentário Democracia em Vertigem, da cineasta Petra Costa, bem como a consagração do Especial de Natal "Se Beber Não Ceie", do humorístico Porta dos Fundos, ao vencer o prêmio Emmy Internacional na categoria de "Melhor Comédia". Essa sequência de más notícias somada à vandalização da sede da produtora do Porta dos Fundos no final de 2019 no bojo da repercussão imensa do Especial de Natal d'esse ano, "A Primeira Tentação de Cristo" parecem ter demandado uma contra-ofensiva cultural do Governo no sentido promover iniciativas artísticas audiovisuais, plasticas e literárias capazes de fazer frente a grupos e artistas hostis ao bolsonarismo.

Ao largo da inspiração nazista veementemente condenada dentro e fora do país, o projeto d'uma arte nacional capitaneada pelo Governo Bolsonaro, cuja relevância e ortodoxia fosse aferida tanto pelo olavismo quanto pelo neopentacostalismo (com o integralismo correndo por fora...) revela-se algo terrivelmente perturbador. Para além da forma goebbeliana, o conteúdo do discurso de Alvin explicita o carácter excludente da política pública para a Cultura: "Ou será a nossa arte, ou então não será nada!" parece resumir a proposta d'um programa artístico ainda em construção. O que se declara, historicamente, é que uma nova era irrompe do governo de extrema-direita sob o qual vivemos hoje em dia. As repetidas declarações do Presidente em questionar os critérios e mesma existência da Ancine refletem um desejo, senão de censura da produção audiovisual financiada pelo Governo, de exclusão de iniciativas cujo ideário presente na obra ou do activismo dos artistas envolvidos. Denunciada à exaustão como mamata de artistas esquerdopatas, produção artística via Lei Rouanet se transformou em verdadeira caça às bruxas, com execração pública de quase toda a classe artística beneficiada.

Como em muitas áreas d'este Governo, também a Cultura constrói sua narrativa programática através da exclusão e da negação dos princípio que nortearam a produção artística com financiamento público. Em lugar de pluralidade de temas e ideias, restrição de assuntos à "identidade nacional cristã"... Sai a discussão em torno das afectividades e relacionamentos contemporâneos e entra a defesa enfática da família tradicional... Condena-se o humor com personalidades judaico-cristãs, mas financia-se filmes, documentários e até eventos conservadores... Retiram-se livros didáticos e literários das escolas públicas enquanto cadernos e disciplinas com símbolos pátrios retornam para as salas de aula... Por resto, a História é revisada e reescrita em conformidade com a visão de mundo de quem acredita estar inaugurando uma década de transformações reaccionárias e conservadoras.

É preciso estar atendo a esse projeto de "revolução cultural" que o Governo Bolsonaro começava a implementar no malfadado vídeo de inspiração nazista que assombrou o mundo: A questão não é apenas a aparência do que Alvin disse, mas sobretudo nas entrelinhas d'aquilo que defendeu... Essa arte heroica nacional brasileira deve ser identificada e nomeada imediatamente.  Proponho, mais como denúncia do que como fruição d'essa arte ainda por vir, que seja chamada de PÓS-BESTIALISMO, ressaltando que se trata d'uma espécie de zoofilia onde o Governo é o sexopata e o povo o animal doméstico abusado (sempre é bom lembrar que Bolsonaro admite ter se iniciado sexualmente com galináceos...)¹. É um programa artístico que se pauta, antes de mais nada, pela violência para com o público e sua desumanização enquanto agente racional do consumo artístico. Uma arte a ser patrocinada pelo Governo para educar e disciplinar o povo, mantendo-o em seu lugar, de modo a apaziguá-lo com a religião e fasciná-lo com a autoridade estatal. Em suma, arte para rebanhos. Apresento aqui, à guisa de ilustração, um soneto sobre o movimento recém-nomeado:

PÓS-BESTIALISMO

Não deixo de sorrir face à retórica
D'aquele que pretende ser profético
E só faz emular mau gosto estético
No afã d'uma carreira meteórica.

Crendo civilizar a turba eufórica,
Propunha catequeses para o cético:
-- "Reduza-se à moral o debate ético,
N'um encimar de cruzes à ordem dórica!"...

Fosse cômico não seria trágico
Ter arte para ornar sonhos despóticos,
Tornando belo o mal n'um passe mágico.

No mais obscurecer medievos góticos
E, em vez d'um manifesto antropofágico,
Frases feitas ecoadas por robóticos.

*   *   *
Espero que explicitando a natureza excludente d'esse movimento iniciado com o concurso nacional proclamado com pompa e circunstância nazifascistas pelo ex-secretário Alvin, certo de que quem quer que seja nomeado em seu lugar não mexerá em uma vírgula da política pública anunciada para a Cultura que se pretende válido para as próximas décadas sob a mão forte e segura de presidentes como Jair Bolsonaro. Explicitar a estética nazista de seu vídeo de lançamento por si só não interrompe sua urgência em destinar recursos públicos exclusivamente para igrejas cristãs, escolas militares e produtores culturais alinhados com o olavismo. Uma nova catequese -- não mais jesuíta, sim neopentecostal -- pretenderá civilizar nossa malemolência tropical até nos tornarmos peças perfeitas para a reposição das engrenagens na Periferia do Capitalismo. Claro, após anos de bla-bla-blá heroico, talvez sejamos capazes de preparar batalhões de carne de canhão para os conflitos capitaneados pelos Estados Unidos cuja vassalagem já temos exercitado com toda a alegria... 

Afinal de contas, não nos iludamos, essa era a real finalidade de toda a máquina cultura nazista na qual Alvin se inspirou.

Betim - 17 01 2020

Notas:
¹-https://catracalivre.com.br/dimenstein/damares-alves-jair-bolsonaro-e-o-sexo-com-animais/