Mostrando postagens com marcador SEXTILHAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SEXTILHAS. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

À MANHÃ SEGUINTE

Ressábio em taças vazias,
Garrafas pelo tapete…
Fantasias e confete
De passadas alegrias:
A rainha mais o valete
Despem-se manto e colete…!

Pálida, a luz matinal
Suavemente se derrama
Sobre os lençóis pela cama,
Onde o desnudo casal
— um varão e sua dama —
Ensaia amorosa trama.

Pela beleza da fêmea
O prazer tão prometido:
A nádega à mão — “Querido!
Faz logo inveja à gêmea…”

Outro carinho atrevido;
Outro prazer desmedido.

Amantes regozijados,
Se vê em seu repousar:
Enfim o ardor dar lugar
À languidez dos ousados,
Ora entregues ao desfrutar
De ser amado e de amar

Tudo, porém, tem final:
A alvorada traz o dia!
Em face da hora tardia,
Mal se despede o casal,
A disfarçar toda a orgia
D'aquela noite vadia.

Belo Horizonte - 07 08 2022


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

PÚRPURA DESFOLHA

PÚRPURA DESFOLHA

De bordos vermelhos se recobre
Todo o chão da alameda onde o outono
Colore de tons púrpura o adro nobre,
Pondo em tela um jardim anos sem dono.
Já minh’alma captiva se descobre
Nas folhas em extático abandono.

Ao largo, um poente sobre as serras
Muda todo em lilases o ocidente
Enquanto, desvalido entre guerras,
Um rouxinol cantando-me eloquente
Pela beleza excelsa d’estas terras,
Eu m’entrego ao momento tão-somente.

Forte farfalha o vento pelas copas
Que em redemoinho agita-lhes as folhas.
Mas, aqui e acolá, rudes cachopas
D’onde saúva ávidas de escolhas.
Mas mesmo o formigueiro e suas tropas
Pouco pode co’as púrpuras desfolhas...

Mais longe segue em fuga na alameda
O olhar na claridade vesperal...
Eu paro enternecido face à queda
Da folha a desprender-se em espiral,
Pois, tapete vermelho m’envereda
Pelas mais ricas horas afinal.

Betim – 13 05 2019

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

SEXO DOS ANJOS

SEXO DOS ANJOS

Cu não tem sexo: Macho e fêmea têm!
Qualquer um pode dar, se lhe convém,
Àquele que bem quer.
Cu é uma paragem mais sensível
Onde abaixo de muito baixo nível
Costumam a ofender…

Se tu, todavia, te permites,
Verás qual explodissem dinamites
Ao tomares no cu.
Em recíproco gozo, a troca-troca,
Quem dá ainda mais recebe em troca…
Assim eu como tu.

Tomar no cu supõem ser algo sujo
Ou que possa mudar o dito cujo
De macho n’uma fêmea.
Que tolice!… Se todo mundo é gente
Importa muito mais o que se sente
Na busca d’alma gêmea.

Há-que se conhecer antes de tudo
Para se permitir quando desnudo
Essa carícia ousada.
E, indiferente se homem ou mulher,
Descobrir-se a alegria do prazer
Enfim compartilhada.

Sim, porque nos papéis tradicionais
De papai e mamãe tão sempre iguais
Nem um nem outro goza.
Ao contrário, inventando-se desculpas
Tão-só fazem lidar co’as suas culpas
Em vida duvidosa…

Ou senão, a extinguir toda a libido,
Têm o desejo já como um tempo ido;
Deixado para trás.
Restando-lhes tão-só consolação
De se buscar prazer em solidão,
Levando carga atrás.

Mas não! Não seja o cu desperdiçado
Porquanto limpo e bem lubrificado,
Piscando de ansiedade!
Receba, após mil beijos de minete,
O membro intumescido que se mete
Na funda cavidade.

Indistinto se erótico ou se vênero.
Não seja mais o amor questão de gênero,
Sim algo natural.
Toma antes para ti como pessoa
Aquele que gozando se atordoa
No teu cu afinal.

Belo Horizonte — 18 12 2018

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

ÍNCUBOS

ÍNCUBOS

Rogo-te: Não te deixes enganar
Pelo meu fugidio e distante olhar...
Sim, tenho estado atento!
Percebes que me movo pelas sombras
E inelutavelmente tu me assombras
A cada vão momento.

Não se turvem os verdes olhos teus
A especular de mim sonhos de Deus
Ou estradas para o Além.
Ao contrário, como o húmus mais escuro,
Eu às turfas dos charcos me afiguro
Já sem qualquer porém.

Matéria putrefeita das baixadas,
Onde forte neblinam alvas geadas,
-- Manhãs de imensidão --
Sou antes a memória enternecida
Do que julgaste vir d'uma outra vida,
Mas é teu coração.

Não sou senão lembrança que passeia
Por estradas rurais na lua cheia
Ou por casas vazias,
Como se humanidade que, incorpórea,
Carregasse o estandarte da vitória
Entre terras sombrias.

Cuida que te assovio em meio ao vento
Tanta melancolia onde o lamento
Harmoniza a saudade.
E entende que ainda que escondido
Tu verás o meu vulto presumido
Por toda essa cidade.

Madrugada, sozinha pela alcova,
Ainda teu desejo se renova
E buscas impassível
O calor de carícias tão antigas
Que do limbo me admiro que persigas
Minha boca impossível.

Sem embargo, suspirosa tu me chamas,
Tendo a mão sobre a vulva posta em chamas.
Como se a minha mão
Pousasse novamente em tuas coxas,
A ponto de deixar-te marcas roxas
Tamanha excitação.

A bela se desnuda feito ninfa
Ao gozo liquefeito todo em linfa
A encharcar-lhe o lençol.
No entanto seu amante evanescente
De seu quarto outra vez se fez ausente,
Logo ao raiar do sol.

Betim - 03 12 2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

COMO UMA DAMA

COMO UMA DAMA

Quem bela, recatada e só do lar
Ou esperando o marido a procurar
Para lhe dar prazer...
Como do macho branco complemento
Busca se colocar todo momento
E não como mulher.

Mas sim cobiçadíssimo troféu
Com contrato de amor já no papel
E obrigação de amá-lo.
Aprendendo a sorrir-lhe o tempo todo
Como se estivesse ótima, de modo
A não pisar seu calo.

Ao contrário, paciente ainda espera
Ao menos uma flor na primavera
Ou beijos de Ano Bom.
A todos faz saber que são felizes,
Ainda que ocultando cicatrizes
Sob o tailleur marrom.

Mas o que mais dói é a indiferença...
É ele não pensar no qu'ela pensa
E por fim ignorá-la!
E mais tarde, ei-los diante dos olhares:
Enquanto ele lhe fala com bons ares,
Sorrindo, ela se cala.

Quem discreta, elegante e comedida,
S'empenha em parecer bem resolvida
Das escolhas que fez.
E o prazer que promete sua beleza
Vê como maldição da Natureza
Ou como carma, talvez.

Já de noite, sublimando seu desejo,
Recobre-se de sedas e de pejo
Deitada em sua cama
Sempre pronta para o receber
Ainda s'esforçando em parecer
Muda... Como uma dama!

Betim - 01 12 2018

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

BACANÁLIA

BACANÁLIA -- "Evoé, filhas de Baco! Vós que haveis Dos mistérios do vinho as sábias leis; E do êxtase divino! Sede afinal bem-vindas! Adentrai A ensinar-nos o poder de vosso pai Sobre os vãos do Destino." "Alegrai-vos e alegrai-nos, todavia, Antes que nos retorne a luz do dia A revelar excessos. Concedei, embriagadas de luxúria, Vossas bocetas húmidas em fúria A devassos confessos!" "À maneira de ninfas seminuas, Vinde nos receber carícias cruas De cada rude mão. Visto que, indiferente de quem toca, Sabeis por fim deixar de boca em boca Do Deus Baco a ilusão." "Entretidas também com nossos sexos, Vêm deixar-nos malucos e perplexos Vossas habilidades: Deveras, com total desembaraço Levais um após outro pelo braço, Tomando liberdades..." "Depois de saudação tão eloquente A vós me apresento tão-somente Como vosso anfitrião. Vós-outros, companheiros de gandaia, Peço antes que das belas cada alfaia Vede se sim ou não." "Com efeito, aqui mandam as bacantes! Elas conduzirão, por delirantes, As artes do prazer. Aquele que as ferir ou molestar, O quanto antes nos deixe este lugar E após vá se foder!" "Elas, o que quiserem faço lei. Pois d'elas sou escravo, nunca rei, Durante esse festim. Em honra do grã-deus que em vinho adoro A vós, Filhas de Baco, eu vos imploro, Que reineis sobre mim..." "Trazei para estes prados os delírios Em procissão d'archotes e de círios Por sob a lua plena. Em pele de pantera ou de tigresa, Às forças seminais da Natureza Buscai na noite amena." "Coroadas de grinaldas d'heras verdes, Sois rainhas a fazer o que quiserdes N'essas lides d'amor. Tirso em punho, ordenai a bebedeira Jorrando o doce sumo da videira A nos dar mais ardor." "Mênades desejosas! Sabei qu'eu Não quedo lamuriento feito Orfeu, Embora também poete. Vinde me devorar, mas de prazeres. Gozando de meu ser, lindas mulheres, Em singular banquete!" "Cultoras devotíssimas de Priapo, Eis em plena ereção o membro guapo A vos servir de gozo. Levai-o a conhecer as vossas grutas Remediando-me em fodas dissolutas O tédio venenoso." "Ide e fodei com quem mais vos apraz Quer seja rapariga; quer rapaz, Até cairdes saciadas. Assim, toda a verdade que há no vinho Se revele por fim no desalinho Das bocetas sagradas." Betim - 28 11 2018

terça-feira, 27 de novembro de 2018

ALCATEIA

ALCATEIA

Bem-vindos aos recônditos da noite
-- E a salvo d'esponsal e rudo açoite... --
Avançam entre os reles
Cavalheiros viris de meia idade
Buscando os lupanares da cidade,
Pois lobos também eles!

Homens d'excelentíssimas maneiras
Vestidos com as galas costumeiras
Dos que sabem se impor.
Visto bem sucedidos nos negócios,
Em conluio d'amigos e de sócios
Renovam-se o vigor.

Adentram o covil das meretrizes
No afã d'haverem horas mais felizes
Que as que têm em família.
Ou ainda, co'os rigores dos estetas,
Ranquearem a doçura das bocetas
Com graça peralvilha.

Pois em meio à fumaça dos charutos
Cortejam-nas com brindes dissolutos;
Cascatas de champanha!
Na berlinda, o desfile das beldades:
Ao exibir do plantel as novidades
Toda a malta se assanha...

Vêm vestidas de rendas e de plumas
Ou totalmente nuas entre espumas
As belas raparigas.
Seus olhos, feito joias cintilantes,
Desdenham dos amores inconstantes
Ou de suas intrigas.

Sorriem a inspirar deslumbramentos,
Fazendo-os suspirar pelos momentos
De tê-las em seus braços:
Saborear das mais jovens as delícias
Ou das dominatrizes as sevícias
Em seus corpos devassos.

Mas antes, desfraldada igual bandeira
A dançarina se exibe de maneira
A atrair longos olhares:
Presa ao poste de dança, toda nua,
Entre caras e bocas se insinua
Co'as poses mais vulgares.

Assim, uma após a outra no espetáculo
As belas se revezam ao pináculo
Já ultraprovocantes!
Pois é de se admirar homens tão probos
Súbito se tornando velhos lobos
A uivar-lhes suplicantes...

Tão-logo as moças deixam a berlinda
Tais senhores lhes vêm cercar ainda
A dar mundos e fundos.
Atentas, elas ouvem as promessas
Como estivesse o mundo ora às avessas
Em seus olhos profundos.

Suaves, concordam elas bem com tudo,
Oferecendo o peito já desnudo
Ao alcance d'outra mão.
Como se já ansiassem pelo toque
E que tal perfeição n'eles provoque
A mais doce paixão.

Eles, homens deveras bem vividos,
Fingem acreditar nos seus ouvidos,
Devolvendo elogios.
Elas, mulheres muito espirituosas,
Tentam logo arrastá-los entre rosas,
Sussurros e arrepios...

Certos que a vida é mais do que uma ideia,
Os velhos lobos vão em alcateia
Coleccionar prazeres.
Gozosos de passar por tantos leitos,
Voltam ao fim da noite satisfeitos
Para suas mulheres...

Belo Horizonte - 26 11 2018

domingo, 25 de novembro de 2018

HOMO EROTICUS

HOMO EROTICUS

Quem sabe que quer Deus pelos seus planos,
Senão fazer dos homens mais humanos
A ponto que se toquem??
Ou será que o desejo não vem d'Ele
E os ardores que tenho à flor da pele
Tão-só males provoquem?...

O que sei é que o Amor, divino ou não,
Me fez com que buscasse a tua mão
Pousada sobre a minha.
E que, contados todos os segredos,
Eu sentisse na ponta de teus dedos
Passar a estreita linha...

Entre beijos por fim reconhecer
Que estava todo ali a te querer,
Entregue a tuas carícias.
E ainda, sem passado e sem porvir,
Eu por todo o teu corpo descobrir
Um jardim de delícias!

Na novidade doce de teu sexo,
Eu perceber-me ávido e perplexo
No afã que me possuas.
E, na força de tuas carnes rijas,
Saber que tu em mim te regozijas
Por nossas peles nuas.

E depois, reclinado no teu peito,
Te veja espreguiçado pelo leito
Buscar a minha boca.
Sentir que tu de novo me desejas
Quando, pelo vigor com que me beijas,
O teu sexo o meu toca.

Mas agora, descendo por meu ventre,
No meu gozo somente se concentre
A tua boca cálida.
Ao que minha mirada se arregala
A ver tu espalhares minha gala
Por tua pele pálida.

Ah! Queira Deus que tu 'inda me queiras
Por ardor ou quaisquer outras besteiras
De novo aos braços teus.
E esse Amor que nos toma tão imenso
A repetir-se ainda mais intenso,
Também seja de Deus!...

Betim - 25 11 2018

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ERÓGENO

ERÓGENO

Quente... Se a pele arde onde o dedo toca,
Também a tua língua em minha boca
Vem sibilar veneno...
Logo, descem os lábios aos mamilos
E assim, vêm pousar ali tranquilos
Onde o prazer é pleno.

Na fome de te amar, quase machuca
Eu te cravar os dentes pela nuca
Para te devorar.
E, após correr as unhas pelos ombros,
Embaixo te sucedem os assombros
Do longo dedilhar.

Húmida... Se oferece à minha língua
A gruta até aqui deixada à míngua
Por sob os bastos pelos.
Para então, revirada sem esforço,
Mais arquear tuas costas sobre o dorso
Puxando-te os cabelos!

E, ao descer pelas nádegas expostas,
Te degustar enquanto te desgostas
Por eu tatear-te, cego.
E toda entregue ali tu te abandonas
À língua que t'explora aquelas zonas
Passear-te pelo rego...

E mais, untados todos os teus poros,
T'escutar os gemidos tão sonoros
A ponto de os temer.
Pois, lânguida, te alongas empinada
E reviras teus olhos  desvairada
Quase a desfalecer

Contudo, sem perderes os sentidos
Mais ainda me sentes incontidos
Os ousados carinhos
E mais me aceitas pela pele os lábios
Ao fazer de teus seios menos sábios
Ainda mais vizinhos...

Sim! Goza de meu corpo junto ao teu...
Usufrui de mim tal como se eu
Fosse tu mesma tua
Recebe-me o calor em teu calor
A nos queimarmos juntos pelo ardor
Por toda a pele nua.

Betim - 23 11 2018

segunda-feira, 16 de abril de 2018

AURA EXTENSA (sextilhas)

AURA EXTENSA (sextilhas)

Estender-se no que se tem
Faz um homem maior do que é --
Quer lança que estica além
O braço e mais longe até; 
Ou alavanca que, com fé,
Movesse o mundo também.

Assim, n'aquilo que se usa
Todo ser s'estende todo:
É cheiro que impregna a blusa;
É calor em pleno denodo
A arder em torno, de modo
Que a aura nas armas inclusa!

Como se a pessoal energia
Em vibrações oscilantes
S'expandisse, todavia,
Pelas coisas circunstantes
Para além do que eram antes
Pois pessoais em demasia.

Visto demasiado humanas
As coisas depois de usadas:
Se a princípio mundanas,
Pelo corpo desgastadas
São enfim humanizadas
À luz d'auras soberanas.

É chamado de "aura extensa"
Este estender-se do ser
Nas coisas a que dispensa
Um extremado prazer
Ou as agruras do afazer
Por sobre a matéria densa.

O imaterial na matéria
Como restos da existência,
Sua opulência e miséria
Confessa na permanência
Uma presença na ausência
Durante a ação deletéria.

E a vida que ali resiste
Depois que a vida se deixa
É a memória que insiste,
Indiferente da queixa
Que em meio às flores enfeixa
Lamúrias d'um luto triste.

É a verdade da vida
Que se nega ao vão d'Olvido!
É, talvez, a despedida
N'um detalhe percebido
Pelo coração partido
Diante de sua partida.

É a luz que permanece
Depois que o sol já se pôs.
E, pouco a pouco, anoitece
Nos versos que se compôs
Quando -- filhos, pais, avôs... --
O homem dos homens esquece.

É, enfim, tudo que se haura
Expresso em luz e revolta,
Enquanto a mente desaura
N'um clarão à sua volta
O ser que de si se solta 
Quão extensa for sua aura...

Betim - 16 04 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

DON'ANA (sextilha)

DON'ANA (sextilha)

Era uma mulher do lar;
D'aquelas para casar
E que se quer sempre sua.
Que sabe bem seu lugar,
Pois, tem recato no andar
Quando passa pela rua.

"Don'Ana" tinha por nome
E um desejo que a consome
Desde quando pequenina.
Senhora sem sobrenome,
De ser alguém tinha fome:
Só p'ra casar se destina.

Noiva, era muito feliz,
Tendo tudo o que quis
Porque sempre do seu lado.
Por fim, para todos diz:
-- "A minha sorte eu que fiz,
Depois de tê-lo encontrado..."

Sim, entre quatro paredes,
Ei-la sem sedas e suedes
Em face d'ele despida.
E cheia de fomes e sedes,
Tal como sereia nas redes
Deixava-se ser possuída.

Era no mundo uma dama,
Mas uma puta na cama,
Tendo-se melhor mulher,
Do que quem no mundo puta
E na cama só computa
O quanto ou quando querer.

Mas, para sua surpresa,
Era bem da natureza
Do seu noivo, de primeiro,
Na mais pura safadeza
Após deixar a princesa,
Ir pernoitar no puteiro:

Contam à boca pequena
A alguma vaga morena
As visitas do seu amor...
Que sentiam até pena
Da noiva que ele apequena
Por não se lhe dar valor.

Que não o deixava em paz,
Dando-se como lhe apraz
E quando se lhe convém.
Vivia lhe andando atrás...
Mas, tanto fez; tanto faz:
Logo há-de passar também.

-- "Don'Ana é quem é Senhora!" --
Diziam cidade afora
-- "As outras, só vêm e vão..."
D'ele mais s'enamora
Havendo em conta que mora
Dentro do seu coração.

E, mais dia, menos dia,
Quem se deu tal ousadia
Mal s'engana de que a engana.
Há-de vê-la, todavia,
Desfilando fidalguia:
-- "É aquela que é Don'Ana!"

Belo Horizonte - 10 04 2018