quinta-feira, 13 de abril de 2017

NOVENTA E NOVE TROVAS

PRIMEIRA

Chamam às quadras de trovas,
Quando co'o metro dileto
Têm, ao trazer boas-novas,
Em si um poema completo.

            *   *   *

SEGUNDA

Silva o rebenque no arranque:
-- "Zurra burro! Relincha égua!"
Que importa que mula manque?
Vou rosetar mais meia légua!...

            *   *   *

TERCEIRA

Olhos nos olhos da fera
E pernas p'ra que te quero!
Tomo onde menos s'espera
Carreiras de desespero...

            *   *   *

QUARTA

Hoje te vejo de perto;
Amanhã eu vou-me embora...
À noite passo desperto
Para ver-te desde a aurora!

            *   *   *

QUINTA

Uns olhos de verde gaio
Passo os dias a admirar.
Olhos que olho de soslaio
Para ela não me maldar.

            *   *   *

SEXTA

Pôr gravata vez em quando
Qual arreio em potro xucro:
Nasci desnudo e berrando...
Venha o que vier será lucro!

            *   *   *

SÉTIMA

Muitos dizem ser mentira
Isto de amar de verdade.
Mas quanto o peito delira
Não sabem nem a metade...

           *   *   *

OITAVA

Se nada vem por acaso,
Por que só me vens co'a lua?
A saudade, em todo caso,
Ao meu lado continua.

           *   *   *

NONA

-- "Meninas de bendizer!
Mulheres de bem amar!
Onde anda meu bem-querer?
Onde haveria-de andar?"

           *   *   *

DÉCIMA

Vez em quando me lamento
Das voltas que o mundo dá.
Volta e meia é sentimento
Algo bom em hora má.

           *   *   *

DÉCIMA PRIMEIRA

A morte vem a galope
Montada n'um corcel negro...
Doente, já tomo xarope;
Triste, ligeiro me alegro.

           *   *   *

DÉCIMA SEGUNDA

-- "Eu vou mais logo à cidade
Mas volto ainda cedinho."...
O tempo d'uma saudade
Não passa quando sozinho!

           *   *   *

DÉCIMA TERCEIRA

Abro olhos a ver e olhar,
Ora raso; ora profundo.
Fecho olhos a imaginar 
A imensa imagem do mundo.

           *   *   *

DÉCIMA QUARTA

Cumbuca de sapucaia
A prender mão de macaco,
Que nem onça na azagaia
Presa dentro do buraco.

           *   *   *

DÉCIMA QUINTA

Alguém que cedo madruga
Com mais ajuda de Deus
Apenas suores enxuga,
Não as lágrimas dos seus...

           *   *   *

DÉCIMA SEXTA

A espera de quem alcança
Sempre é difícil momento.
Há quem chame de esperança 
E outros de padecimento...

           *   *   *

DÉCIMA SÉTIMA

Jamais toma as minhas dores,
E ainda me põe no fogo...
Com quem não morro d'amores,
Só falo "olá" e "até logo".

           *   *   *

DÉCIMA OITAVA

Quem faz hora, nada faz:
Perde tempo seu e alheio...
Homem vão em horas más,
Sempre bota Deus no meio!

           *   *   *

DÉCIMA NONA

Muitos vão do luto à luta
Com sangue nos olhos fitos.
Misturam fel com cicuta,
No cálice dos aflitos...

           *   *   *

VIGÉSIMA

Mineiro não faz presença,
Nem diz falso frase leda.
Tampouco pede licença,
Ele diz mesmo é "arreda!".

           *   *   *

VIGÉSIMA PRIMEIRA

Sou, como diz o outro, prático:
Não caço chifre em cavalo!
Quem me sabe sistemático
Cala a boca quando eu falo.

           *   *   *

VIGÉSIMA SEGUNDA

O dia tem tantas horas,
Que às vezes nem me dou conta.
Ai senhores, ai senhoras,
Logo o sol no céu desponta!

           *   *   *

VIGÉSIMA TERCEIRA

Tem a ver com ir em frente
Essa coisa de viver.
A gente olha e, de repente,
Tudo está a acontecer.

            *   *   *

VIGÉSIMA QUARTA

Tem dias que nem discuto:
"Tudo é como tem de ser"...
N'outros, digo resoluto:
"Nada tem quem tudo quer!" 

            *   *   *

VIGÉSIMA QUINTA

Tudo é confuso -- não nego --
Quem tenho sido eu não sei,
Se rei em terra de cego       
Ou cego em terra sem rei.

            *   *   *

VIGÉSIMA SEXTA

Cheio de boas intenções
Faz-se da vida um inferno...
O que são desilusões 
Quando o suplício é eterno?

            *   *   *

VIGÉSIMA SÉTIMA

Vive com medo de aranhas
Quem d'elas teme o veneno.
Eu a conversas estranhas
Evito desde pequeno.

            *   *   *

VIGÉSIMA OITAVA

Dizem que em noite de lua
Aparece assombração.
Mulher de branco na rua
Já me dá palpitação.

            *   *   *

VIGÉSIMA NONA

Devagar se vai ao longe
E com Deus no coração.
Se o hábito não faz o monge,
Tampouco a cruz o cristão.

            *   *   *

TRIGÉSIMA

-- "Ó menina dos meus olhos!
Ó menina d'olhos meus!
Por que prendes a ferrolhos
Este amor que te deu Deus?"

            *   *   *

TRIGÉSIMA PRIMEIRA 

Se Deus fez o mundo todo
Em sete dias precisos,
Espalhou homens a rodo,
Mas lhes negou paraísos.

            *   *   *

TRIGÉSIMA SEGUNDA

Nunca dou ponto sem nó
Em catiras com vizinho:
Levo tombo uma vez só;
Na segunda, vou sozinho.

            *   *   *

TRIGÉSIMA TERCEIRA

Escorre à ponta dos cílios
Lágrimas desde o infinito...
Amor de mãe pelos filhos
É o maior e o mais bonito.

            *   *   *

TRIGÉSIMA QUARTA

Um pai zela de dez filhos,
Mas dez não zelam d'um pai...
Feito trem fora dos trilhos,
Ninguém sabe aonde vai.

            *   *   *

TRIGÉSIMA QUINTA

De dois dedos de prosa
A garrafas de poesia!...
A conversa é mais gostosa
Quando a cachaça a inicia.

            *   *   *

TRIGÉSIMA SEXTA

Atrás da porta outro escuta
O segredo que se esconde...
Quando envolve uma disputa,
Punhal vem sem saber d'onde. 

            *   *   *

TRIGÉSIMA SÉTIMA

Cai a máscara do falso;
Embarga a voz do falaz.
A verdade é cadafalso
Do ardiloso contumaz.

            *   *   *

TRIGÉSIMA OITAVA

Não sei se me calo ou falo,
Mas quem só serve, servo é...
Enquanto existir cavalo
São Jorge não anda a pé!

            *   *   *

TRIGÉSIMA NONA

Quem tem dois pássaros voando,
Mas nenhum na sua mão,
Sonha ter de quando em quando
Posse da própria ilusão.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA

Não há erro mais humano,
Que fazer a coisa certa.
Se é no mundo tudo engano,
Dá-se mal quem o conserta.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA

No sertão da minha terra,
Passa boi, passa boiada...
O olhar nos longes da serra;
Além da curva da estrada.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA SEGUNDA

O ninho do joão-de-barro
No alto do jacarandá.
Parece um tanto bizarro
Quando morador não há.

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA TERCEIRA

Pega o boi com chifre e tudo
Quem cuida da própria vida.
Demanda trabalho e estudo
O fazê-la bem vivida!...

            *   *   *

QUADRAGÉSIMA QUARTA

Conta o milagre do santo,
Mas não conta o milagreiro.
Gratidão não chega a tanto
Quando a graça é mais dinheiro...

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA QUINTA

-- “Aqui, um conto de réis!
Ali, um milhar de reais!
Se se vão dedos e anéis
Nem já os reis são reais...

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA SEXTA

A ocasião faz o ladrão;
A aventura faz o herói...
É, n'uma história, o vilão
O que nunca se condói.

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA SÉTIMA

Juventina tem cem anos;
Dona Mocinha, noventa...
Quem faz alegres seus planos 
É mais jovem que aparenta.

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA OITAVA    

Se é trovador quem faz trovas
Penso eu ser um, afinal.
Tu que lês ora o comprovas
Para o bem ou para o mal...

           *   *   *

QUADRAGÉSIMA NONA

Venda "secos e molhados"
Com cadeiras na calçada...
Onde chegamos cansados
A cerveja é mais gelada.

           *   *   *

QUINQUAGÉSIMA 

Fico até mais crente ao vê-la
Vir em roupas de ver Deus,
Quando reza na capela
Para si e para os seus.

           *   *   *

QUINQUAGÉSIMA PRIMEIRA 

Se muito grande é o mundo,
Ainda maior o Universo...
O olhar mais largo e profundo
Cabe todo n'um só verso.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA

Bem diziam os antigos:
-- "Tudo o que viste, Deus viu!
Ele quem com mil perigos
Distingue o bravo do vil."

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA TERCEIRA

Vire e mexe um vem e diz
Para tudo ter respostas.
Triste quem quer ser feliz,
Com receitas, não apostas...

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA QUARTA

Um pé de laranja lima
Carregado de florzinhas,
Eu olho de baixo a cima
À procura de joaninhas.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA QUINTA

Andorinha faz verão,
Quando em bando, não sozinha!
Uma só é solidão; 
Uma é só andorinha.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  SEXTA

Quem pode ter qualquer um
Não raro não quer ninguém.
Antes quer, sem pejo algum,
Todo mundo em vez d'alguém.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  SÉTIMA

Trago um arranjo de flores
Para roubar-te um sorriso.
Se em teus olhos vejo amores,
Tenho tudo qu'eu preciso!

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  OITAVA

Papo de cerca-lourenço...
Conversa p'ra boi dormir...
Quando o discurso é extenso
Se concorda sem ouvir.

            *   *   *

QUINQUAGÉSIMA  NONA

Se alguém anda tão-somente
Sem dar conta do que faz,
Dá um passo para frente
E dois passos para trás.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA

O fogo que em vão atiço
Saltou longe do braseiro...
É assim quando o feitiço
Vira contra o feiticeiro!

            *   *   *

SEXAGÉSIMA PRIMEIRA

Dias há em qu'eu me sinto
De costas p'ra própria vida.
Tudo parece indistinto,
Já frustrado de saída...

            *   *   *

SEXAGÉSIMA SEGUNDA

Nas voltas que dá o rio;
Nas voltas que o rio dá:
Canoa em remanso frio
É toda a beleza que há!

            *   *   *

SEXAGÉSIMA TERCEIRA

Põem a verdade de lado
Quando razão querem ter!
Jamais será encontrado
O que já não se quer ver...

            *   *   *

SEXAGÉSIMA QUARTA

Corria à boca miúda
A última d’algum incauto:
Quem nunca a ninguém ajuda
Cai no chão olhando pr’o alto!

            *   *   *

SEXAGÉSIMA QUINTA

À meia noite era meia lua 
Brilhando sobre a cidade.
Andarilhos pela rua,
Corações pela metade.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA SEXTA

Mas quem me ilumina o rosto
E parte o seu pão comigo,
A este acompanho com gosto;
A este que chamo de amigo.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA SÉTIMA

As paredes têm ouvidos;
As janelas, muitos olhos.
A portas fechadas, ruídos
Escapam pelos ferrolhos...

            *   *   *

SEXAGÉSIMA OITAVA

O coração é tambor
Que bate desatinado...
Mil vezes morre d'amor
O que vive enamorado.

            *   *   *

SEXAGÉSIMA NONA

Têm tido mais alegrias
Os últimos que os primeiros;
Aqueles têm fantasias;
Estes, apenas dinheiros...

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA

Ter erudição a uns soa
Como coisa rara e nobre,
Mas a maus olhos destoa,
Qual seda vestindo pobre.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA PRIMEIRA

Conto quarenta anos feitos:
Já vi e vivi um tanto.
Passos tortos fiz direitos...
Sou bento mas não sou santo!

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA SEGUNDA

Vou para a festa correndo;
Volto para casa andando...
Vejo o dia amanhecendo
Em folias vez em quando.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA TERCEIRA

Tem dia que não é dia:
Não houve aqui vencedor...
Ninguém é na hora tardia 
Nem caça nem caçador.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA QUARTA

Depois de posto em garrafa
E de cruzar todo o oceano,
Um vinho me afogue a estafa
E alumbre o meu desengano!

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA QUINTA

Antes cedo do que tarde...
Antes tarde do que nunca!
Embora às vezes se atarde,
O amor de flores se junca.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA SEXTA

Não me engano nem me iludo
Em descrer dos olhos meus:
O crédulo crê em tudo;
O crente só crê em Deus.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA SÉTIMA

Um que nem bem vai embora
E já fala em vir de volta...
Triste de quem sem demora
Anda com a língua solta.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA OITAVA

Isso d'escrever poesia
Para uns é café pequeno.
Esses não têm alegria
Nem o semblante sereno.

            *   *   *

SEPTUAGÉSIMA NONA

Sem-vergonha aqui é mato:
Dá em tudo que é lugar!
O que de manhã eu cato,
À tarde torna a brotar...

            *   *   *

OCTOGÉSIMA

Salamaleques à parte,
O respeito e a cortesia,
Antes são refinada arte
Que custosa fantasia..

            *   *   *


OCTOGÉSIMA PRIMEIRA 

Quem dá o que não possui
Perde até o que não tem.
Não se sabe mas se intui
O lugar que lhe convém.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA SEGUNDA 

O amor é pássaro arisco,
Que se afasta quando acuado.
Sabe em cada olhar um risco
E em cada sorriso um fado.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA TERCEIRA 

Fidalgo de meia pataca!
Puto sem eira nem beira!!
Falando igual maritaca
Um caminhão de besteira...

            *   *   *

OCTOGÉSIMA QUARTA

Se segunda à sexta eu busco,
Sábado e domingo eu acho:
Nas sombras d'um lusco-fusco,
Do arrebol o último facho.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA QUINTA

Vez em quando vou à forra
Contra as mazelas da vida:
Ainda que viva ou morra,
Antes tê-la bem vivida!

            *   *   *

OCTOGÉSIMA SEXTA

Eu -- mais dia, menos dia --
Parto d'esta p'ra melhor...
Mas fiz tudo o que podia
Com fé, esperança e amor.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA SÉTIMA 

Perdem as folhas o viço
Quando vem no outono o frio.
Antes fosse apenas isso,
Mas junto com ele o estio...

            *   *   *

OCTOGÉSIMA OITAVA 

Amanheço na esperança
E anoiteço em desespero...
Minh'alma jamais descansa,
Querendo tudo que quero.

            *   *   *

OCTOGÉSIMA NONA

Molha tolos fina chuva,
Que nos pega de surpresa:
Cai como à mão uma luva,
Tua orvalhada beleza.

            *   *   *

NONAGÉSIMA

Ignora a dor d'este mundo
Quem vive só de aparências.
Qualquer olhar mais profundo
Evitam as vãs consciências.

            *   *   *

NONAGÉSIMA PRIMEIRA

À custa d'algum versinho,
Perdia a hora vez em quando...
A manhã em que escrevinho,
Cheira a café fumegando.

            *   *   *

NONAGÉSIMA SEGUNDA

Em teus olhos vejo estrelas;
Em teu sorriso, promessas...
Mas me negas conhecê-las
N'esse silêncio que expressas.

            *   *   *

NONAGÉSIMA TERCEIRA

Além do bem e do mal,
As razões do coração
Pesam mais do que, em geral,
Qualquer razoável razão.

            *   *   *

NONAGÉSIMA QUARTA

Nada como um outro dia
Para se entender o havido.
Quem ontem riu d'alegria,
Hoje está entristecido...

            *   *   *

NONAGÉSIMA QUINTA

Temo que a estrada da vida
Após muito caminhar
Dê n'um beco sem saída
Ou mesmo em nenhum lugar...

            *   *   *

NONAGÉSIMA SEXTA

Ser feliz -- quer sim; quer não --
É mais empenho que sorte:
Uns buscam ser na ilusão;
Outros, só depois da morte.

            *   *   *

NONAGÉSIMA SÉTIMA

Busca alegria absoluta,
Mas Liberdade primeiro!
Melhor um dia de luta
Do que mil de cativeiro...

            *   *   *

NONAGÉSIMA OITAVA

Às letras eu me dedico
Por mais e melhor saber.
Não que me façam mais rico,
Sim me ensinem a viver.

            *   *   *

NONAGÉSIMA NONA

-- "A quantas andam as trovas
Com que costumas poetar?"
-- "São noventa e nove novas
N'esse livro de folhear."

Betim - 12 05 2017