segunda-feira, 11 de maio de 2020

VISTAS GROSSAS

VISTAS GROSSAS

Vejo, mas finjo que não.
Olho, mas foco o vazio.
Para o lado o olhar desvio;
Para cima ou para o chão
Para não ver um vadio...!

Sua simples existência 
Me causa tal destempero,
Que, à beira já do entrevero,
Simular-lhe a falsa ausência 
É tudo quanto tolero.

Sim, olho para não ver
E evitar o que aborrece.
Pois, mais males se padece
Em ver o que não se quer
Do que quem se desconhece.

Enquanto fala eu caminho;
Como não fosse comigo,
E eu indiferente sigo
Na graça de estar sozinho
Mesmo ao lado do inimigo. 

Vistas grossas pois nubladas
De lágrimas não vertidas...
Muito embora parecidas,
Ambas perdidas miradas:
Muros entre nossas vidas.

Betim - 09 05 2020









sábado, 9 de maio de 2020

HAVEREMOS

HAVEREMOS

Quando o tempo apagar os nossos erros
E as culpas caducarem lado a lado...
Pois, com menos futuro que passado
Caminharmos de volta dos desterros.

Depois de silenciarmos tristes berros,
Limpando dor e lágrimas ao agrado,
Sintamos o momento já chegado,
Antes que lamentemos em enterros...

Deveras, nobilíssimos sorrisos
Saberão nos dizer enquanto mudos
Os lábios permanecem indecisos.

Depostas as espadas e os escudos,
Ao largo de quaisquer parvos juízos,
Haveremos um ao outro enfim, desnudos.

Betim - 09 05 2020

ÀQUELA BELA

ÀQUELA BELA

Tens que tua beleza me hipnotiza,
Qual roedor ante o bote da coral...!
E penso que és um bem sendo-me um mal,
Mesmo quando o mortal logo se avisa.

Há em tua presença incerta brisa,
Que me comove ao modo d'um sinal:
Desejar-te me é quase natural
Tanto quanto de ar ou água se precisa...

Mas se eu um dia achar um som bonito
Seja algo que te fale algo d'amor
E signifique mais do que infinito.

À morte, o som mais belo é de pavor...
Tens que tua beleza é o olhar fito,
Qual coral ante os olhos do roedor.

Betim - 09 05 2020

sexta-feira, 8 de maio de 2020

EM MEADOS DE ABRIL

EM MEADOS DE ABRIL

Estávamos em casa confinados,
À espera do que fosse acontecer...
A um metro ou mais passamos a viver
Todo o tempo uns dos outros afastados.

Foram dias sombrios, desolados:
Onde não adoecer e esmorecer...
Não desaparecer... Não perecer...
Eram os nossos únicos cuidados.

Entre quatro paredes longamente,
Tendo só incertezas pela frente,
Passamos, reticentes, o mês todo.

Atentos ao avançar da pandemia,
Sabendo que mais dia menos dia,
Iríamos sofrer do mesmo modo...
  
Betim - 08 05 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

FRONTEIRA

FRONTEIRA

Para além dos azuis dos serros frios
Onde as tardes declinam em céus claros,
Eu caminho na poeira sem amparos
A rever nos confins sertões vazios.

Nos longes, os penedos luzidios
Apontam para os altos seus reparos,
Como sempre alertando os mais amaros
Da beleza de poentes tão sombrios.

Eu fujo para longe das cobiças
E afasto o burburinho das cidades
Em jornadas vadias e insubmissas.

Nos recantos eu busco liberdades
Que me negaram muitas injustiças:
Eis um pleno usufruir de soledades!

Betim - 07 05 2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

EM OBRAS

EM OBRAS Estranha estrada a dar-me ofício aos ossos Esta que no final manda-me às favas! Em obras, todavia, deixo oitavas Inacabadas face a embargos nossos... Minha vida são épicos destroços, Feito escória do chão vinda das cavas. Eu nos livros livre escrevo escravas As letras em seus muitos alvoroços. O leito carroçável e a sarjeta Do trecho interrompido a canetadas Na frase onde tropeça todo poeta Se m'espalha na poeira das estradas, Sou quem se consome a alma inquieta: Um-mestre-de-obras-primas-quase-nadas. Betim - 18 08 1999

domingo, 3 de maio de 2020

O POEMA PERDIDO

POEMA PERDIDO  

Retoma à folha em branco o teu sentido 

E escreve. Torna àquele instante que herda 
De palavras e idéias sua perda: 
Rebusca em ti o poema perdido.

Recordas? A memória um tanto lerda
Vai seguindo as pegadas desde o havido,
Além das armadilhas vãs do Olvido, 
Sem ignorar, porém, o abismo à esquerda.

Voa, condoeiro, mais alto que o condor: 
Parábolas, hipérboles, elipses... 
Descritas voltas p'las esferas tríplices 

Do ser a superar-se outro ao compor...! 

É imperativo: 'inda que alterado, 
Debruça-te sobre ti, reencontrado. 

Belo Horizonte -19 01 1999