CORDEL DO AMOR QUE SE FOI - Terceira Parte
AOS TEUS OLHOS
Se me fosse permitido
Ver por meio dos teus olhos,
Quiçá um clarear d’abrolhos
Revelasse-me quanto o Olvido
Ocultara do acontecido
Até o silêncio entreolhos
D’um amor enfim perdido...
Dá-me os teus olhos p’ra ver
Como viste o que não vi!
Mostra o que nunca entendi
Para de vez t’esquecer
Ou simplesmente poder
Não ter saudades de ti
Nem esperanças manter.
Deixa-me ver como vês;
Deixa-me olhar como olhas.
Entender tuas escolhas
E cotejar teus porquês
Ao me negares mercês,
Antes que tu te recolhas
À distância uma outra vez.
Em face de teus motivos,
Penso que possa livrar-me
Dos apelos de teu charme
Que os olhos me têm captivos.
Resta esconder-me dos vivos.
Ou senão viver ao alarme
D’estes teus lábios lascivos...
Não fosses do mundo o centro,
Cairia por ti de joelhos
E embora d’olhos vermelhos,
Te veria desde dentro...
Mas, se teus olhos adentro,
Vejo como por espelhos
Os azares que concentro.
Soberbo olhar que m’empedra,
Não o rosto: O coração!
Receio, ao par da ilusão,
Os sós amores de Fedra,
Cuja lendária paixão
Lembra a do tosco carvão
Que diamante se poliedra...
De facto, estrelas cadentes
Após riscarem o céu,
Deixam crateras ao léu
Com desastres surpreendentes
Que tornam selvas crescentes
N’um titânico escarcéu
Pedrinhas esplendecentes...
E do mesmo modo o amor
Após devastar minh’alma,
Levou-me a clareza e a calma
Soterrando-me em torpor...
Nada há mais em meu favor:
Eis quem te houvera a palma,
Hoje a teus olhos menor!...
.....................................
Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
CORDEL DO AMOR QUE SE FOI - Segunda Parte
CORDEL DO AMOR QUE SE FOI
- Segunda Parte
TÃO PERTO, TÃO LONGE
Tantas vezes eu passei
Na frente da tua casa!...
Meu peito aberto se abrasa
N’este amor qu’eu apaguei
Nas cinzas do que sonhei!...
Tantas vezes... Que me arrasa
Te perder quanto me dei.
Como esquecer quem ausente
Mais presente ‘inda se faz?
Como, enfim, estar em paz,
Enquanto dentro da gente
Um turbilhão inclemente
Põe-me a olhar para trás
Ao invés de seguir em frente?...
É triste te olhar nos olhos
E n’eles me ver menor...
Porém, não os ver é pior
Do que os espiar por ferrolhos
Ou andar como se d’antolhos
Nada visse ao meu redor,
Senão d’amor os restolhos...
Porque saber-te tão perto
Fez más as boas lembranças,
Que me trazendo esperanças,
Tornou-me o caminho incerto,
Sonhando embora desperto,
Nas solitárias andanças
Pelo meu próprio deserto.
Porque saber-te tão minha,
Muito embora me deixando,
Vem me assombrar vez em quando:
Quando a noite se avizinha,
Cogito se estás sozinha
Ou mesmo se em mim pensando
Meu desejo te adivinha!...
Porque saber-te tão linda
A meia hora de distância
Apenas m’enchera de ânsia
Diante d’uma história finda...
Finda, mas que mexe ainda
Na minha total errância
À espera de tua vinda...
Contudo, nossos caminhos
Se afastavam, divergentes,
Co’os deuses indiferentes
A tanto afã por carinhos...
Decerto foram mesquinhos
Em não nos querer contentes
Para deixar-nos sozinhos.
....................................
- Segunda Parte
TÃO PERTO, TÃO LONGE
Tantas vezes eu passei
Na frente da tua casa!...
Meu peito aberto se abrasa
N’este amor qu’eu apaguei
Nas cinzas do que sonhei!...
Tantas vezes... Que me arrasa
Te perder quanto me dei.
Como esquecer quem ausente
Mais presente ‘inda se faz?
Como, enfim, estar em paz,
Enquanto dentro da gente
Um turbilhão inclemente
Põe-me a olhar para trás
Ao invés de seguir em frente?...
É triste te olhar nos olhos
E n’eles me ver menor...
Porém, não os ver é pior
Do que os espiar por ferrolhos
Ou andar como se d’antolhos
Nada visse ao meu redor,
Senão d’amor os restolhos...
Porque saber-te tão perto
Fez más as boas lembranças,
Que me trazendo esperanças,
Tornou-me o caminho incerto,
Sonhando embora desperto,
Nas solitárias andanças
Pelo meu próprio deserto.
Porque saber-te tão minha,
Muito embora me deixando,
Vem me assombrar vez em quando:
Quando a noite se avizinha,
Cogito se estás sozinha
Ou mesmo se em mim pensando
Meu desejo te adivinha!...
Porque saber-te tão linda
A meia hora de distância
Apenas m’enchera de ânsia
Diante d’uma história finda...
Finda, mas que mexe ainda
Na minha total errância
À espera de tua vinda...
Contudo, nossos caminhos
Se afastavam, divergentes,
Co’os deuses indiferentes
A tanto afã por carinhos...
Decerto foram mesquinhos
Em não nos querer contentes
Para deixar-nos sozinhos.
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
CORDEL DO AMOR QUE SE FOI - Primeira Parte
CORDEL DO AMOR QUE SE FOI - Primeira Parte
ENTREOLHARES
-- "Espera... Guarda contigo
As águas dos olhos meus
N'um último olhar de adeus
Um olhar d'amante e amigo
Onde encontrarás abrigo
Ao molhar os olhos teus
Pelo que olhaste comigo".
"Se por ventura lembrares
Dos meus olhos a te olhar
Me haverás-de recordar
D'outros tempos e lugares
Entre longos entreolhares
Quando ousávamos sonhar
A despeito dos azares..."
"Foram noites; foram dias,
Acalentando prazeres
Em extremados quereres...
Em lânguidas agonias...
Gozaste-me as ousadias
Sempre com plenos poderes
Sobre as minhas fantasias!..."
"Tu me amaste co'a urgência
Com que se amam os famintos
Já toda entregue aos instintos
Que dominam a consciência...
Onde o desejo e a violência
Se apresentam indistintos
Entre imanência e existência!"
"Desde os ombros devassados,
Os prazeres prometidos
Na carne nua aos sentidos
Pela língua degustados...
À flor da pele mostrados
Para meus olhos perdidos
Hão-de ser sempre lembrados."
"Tive fome de teus lábios;
Tive sede de teus beijos.
Tanto quis n'esses lampejos,
Que meus olhos menos sábios
Sem bússolas ou astrolábios
Perdi n'um mar de desejos,
Que hoje me são só ressábios...:
"Este olhar de despedida
Que acontece ora entre nós
Súbito m'embarga a voz
N'uma emoção tão sentida,
Que levo por toda a vida.
E o que quer que venha após
Não muda o quanto és querida."
....................................................
ENTREOLHARES
-- "Espera... Guarda contigo
As águas dos olhos meus
N'um último olhar de adeus
Um olhar d'amante e amigo
Onde encontrarás abrigo
Ao molhar os olhos teus
Pelo que olhaste comigo".
"Se por ventura lembrares
Dos meus olhos a te olhar
Me haverás-de recordar
D'outros tempos e lugares
Entre longos entreolhares
Quando ousávamos sonhar
A despeito dos azares..."
"Foram noites; foram dias,
Acalentando prazeres
Em extremados quereres...
Em lânguidas agonias...
Gozaste-me as ousadias
Sempre com plenos poderes
Sobre as minhas fantasias!..."
"Tu me amaste co'a urgência
Com que se amam os famintos
Já toda entregue aos instintos
Que dominam a consciência...
Onde o desejo e a violência
Se apresentam indistintos
Entre imanência e existência!"
"Desde os ombros devassados,
Os prazeres prometidos
Na carne nua aos sentidos
Pela língua degustados...
À flor da pele mostrados
Para meus olhos perdidos
Hão-de ser sempre lembrados."
"Tive fome de teus lábios;
Tive sede de teus beijos.
Tanto quis n'esses lampejos,
Que meus olhos menos sábios
Sem bússolas ou astrolábios
Perdi n'um mar de desejos,
Que hoje me são só ressábios...:
"Este olhar de despedida
Que acontece ora entre nós
Súbito m'embarga a voz
N'uma emoção tão sentida,
Que levo por toda a vida.
E o que quer que venha após
Não muda o quanto és querida."
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