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terça-feira, 23 de agosto de 2022

FALAÇÃO

FALAÇÃO

Pois é: Falar, dá sede; ouvir, dá sono.
Quando o discurso evade em digressões,
Renuncio a quaisquer interações,
E já deixo a verdade com seu dono!

Cansado de absolutos, abandono
A aula que descambou em vis sermões
De quem arrota grandes opiniões,
Tratando todo o mais com desabono.

Depois de muito ouvir, passo a falar
E, à maneira dos outros do lugar,
Eu entulho a assembleia de argumentos.

Assim, seca a garganta; dura língua,
Deitando a falação os deixo à míngua,
Mediante intelectuais padecimentos.

Belo Horizonte - 12 08 2006

sábado, 17 de dezembro de 2016

RETROGOSTO

RETROGOSTO

O gosto que me fica pela boca
Depois de te beijar perdidamente
Ainda permanece em minha mente,
Embora entorpecida e já meio oca.

Tua língua se à minha língua toca
Parece ora agridoce; ora adstringente...
O que jamais me deixa indiferente,
Antes mais me vicia e me provoca.

Beijos que como um vinho capitoso
Eu degusto com máximo prazer,
Ainda que me embriague d'esse gozo.

Quisera enfim n'um hausto te sorver
E sentir teu desejo assim gostoso
Aos poucos pela boca ir se perder.

Betim - 11 11 2006

sábado, 12 de novembro de 2016

A MULHER DO PRÓXIMO

A MULHER DO PRÓXIMO

Todo o tempo, amigo, há-que estar atento
Face àquela mulher que se apresenta
Como um sol que ao nascer nos desorienta
E põe a terra e os céus em movimento...

Ela é algum fenômeno violento,
Semelhante a ciclones ou tormenta.
Porém, depois serena ela aparenta
Sempre a nos contestar o sentimento:

-- "Amor não é amor sem correr riscos!" --
Pontifica com sua voz mais forte
E alheia às próprias traves vê meus ciscos...

Amando indiferente à vida e à morte,
Essa mulher me deixou na pele viscos,
No mal de desejar d'outro a consorte.

Belo Horizonte  - 02 01 2006

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O CONVITE

O CONVITE

Corro os olhos p'la folha amarelada
Onde há anos um nome está escrito.
Mas tanto tempo faz! Mal acredito
N'aquela letra ali tão bem traçada.

Recordo-me da carta não enviada
E de seu estupor quase infinito
Que a mim, tão desolado quanto aflito,
Deixou sem qu'eu pudesse mudar nada.

Dez anos se passaram... E, de novo,
Eu e ela estivemos face a face,
Sem que se houvesse fim àquele impasse.

D'esse convite ainda eu me comovo,
Após ver como um erro permanece
No coração de quem jamais o esquece.

Belo Horizonte - 09 11 2006

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ROLA-MOÇA

ROLA-MOÇA

panorama

Mas de que maravilha estão falando?
Não por acaso nunca vimos ter
Com verdades passadas, a saber:
A questão já nem mais é quanto, é quando!

Pássaros que revoam longe em bando,
Enquanto olhos insistem só em ver...
Qual claridade buscas conhecer
Na névoa muito além se dissipando?

Pensa n’isso como se um desabafo
Ainda que tardio, qual tatuado
Em poesia que à flor da pele grafo.

É bem verdade que essa vista acalma.
Mesmo porque os abismos têm ecoado
A história antepassando por minh’alma.

* * *

toponímia

Os prosaicos versos andradinos
D’aquela afamada vinda a Minas
Passam ora por minhas retinas
À luz de nossos tão tristes destinos.

Com efeito, tal-qual dois peregrinos
Subimos e descemos as colinas
Até que em meio às névoas matutinas
Nos surpreendera o sol nos picos finos.

A moça a rolar pela pirambeira
E o noivo que a seguiu na galopeira
Somos nós dois agora-aqui sozinhos.

Na fé de que também um grande amor
De vida, morte, encanto, sonho e dor
Encontra-e-desencontra-nos caminhos...

Brumadinho – 06 02 2006