sexta-feira, 10 de novembro de 2017

GAMBIARRAS

GAMBIARRAS

Tudo o que se tem à mão
Ganha nova utilidade
Quando se faz solução
Que resolva, certa ou não,
Na hora da necessidade.

Para alumiar, por exemplo,
Os sós desvãos da consciência
De olhos fechados contemplo
Minh'alma como se templo
Da já perdida inocência.

Assim também a poesia
Lança luzes onde obscura
A ciência ou a filosofia...
Dando às letras fantasia
E aos males da mente cura.

Pois precária e provisória
A verdade d'umas rimas,
Não pretende maior glória
Que guardar pela memória
Alguns lampejos de estimas.

Mesmo rimas de improviso,
-- Qual oráculo os bandarras --
Já nos põem de sobreaviso
E alumiam onde é preciso
À maneira de gambiarras.

Betim - 08 11 2017

MÁQUINA DE ESCREVER

MÁQUINA DE ESCREVER 

Tinha os olhos mais doutos que letrados
Atrás d'aquelas teclas cheias de dedos...
Metralhava ao papel amores ledos
Em vermelho e maiúsculas grafados.

Saudoso de meus versos extremados,
Reconheço ora às laudas velhos medos
Nas entrelinhas onde sós segredos
Foram quedar por décadas guardados.

A folha em branco -- pura mas vazia --
Recebendo-me as letras que algum dia
Farão tremer o peito ainda infante.

Uma máquina feita de esperança
Aquela onde escrevera quando criança 
E onde alguma poesia fez-me errante.

Betim - 11 11 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

QUEBRA-MAR

QUEBRA-MAR

Saúdo a noite imensa sobre o mar
N'essa estrada que avança contra as ondas.
Rogo, oh lua, tão-só que não t'escondas
E alumies meu silente caminhar.

Seja eu outro encantado sob o luar
Que vaga sentinela em longas rondas,
A ver d'astros as órbitas redondas
N'um desinteressado contemplar.

Postado no limite feito farol,
Eu em vigília aguarde vir o sol,
Envolto de marulho e maresia.

Sê, oh lua, a perfeita companheira;
Aquela que busquei a vida inteira
E permanece ao menos em poesia.

Ubatuba - 20 07 2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

ANTIEUGENIA

ANTIEUGENIA

Dói sentir na pele o ódio; o preconceito...
Após outra resposta atravessada,
Que aquela gente diz por tudo e nada
A depender das fuças do sujeito.

No intuito de fazer algo a respeito
D'essa falta de respeito descarada, 
Decidi contrariar toda a cambada,
E então fazer as coisas do meu jeito.

Para eles, isso é caso de somenos...
"Os grandes buscam ter com os pequenos
Meios de se distinguir a todo custo."

E eu, menor que os menores, tenho visto
Tão-só dessemelhança, pois tudo isto
Embora verdadeiro, não é justo.

Belo Horizonte - 28 10 2017

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DOS DIAS IDOS

DOS DIAS IDOS

Enquanto o sol se põe entre edifícios
E tudo pouco a pouco fica escuro,
Nas sombras que se alongam eu procuro
Dos dias idos válidos resquícios.

Deixo as luzes cambiantes dos inícios
Aos olhos apressados do futuro...
E estabeleço, ainda que inseguro,
Poéticas novas d'artes e artifícios.

Aquele escrever meu antigo e estranho
Fora-se co'as fumaças vãs d'antanho
Junto com inquietudes desmedidas.

Mas olho o sol se pôr -- qual fazia antes --
A ver cá das alturas dos mirantes
Os versos que escrevi em minhas vidas.

Belo Horizonte - 19 10 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

FEMINICÍDIO

FEMINICÍDIO

O corno do meu ex quem me matou...
Foi me sangrando as carnes feito presa.
Seu gesto fora de ódio, não tristeza
Pelo amor que era pouco e se acabou.

Depois que tudo aquilo se passou,
Fugiu d'ali correndo na certeza
Que s'eu de suas mãos saísse ilesa
Ele não seria o homem que pensou.

Em face da barbárie consumada,
O povo só se admira; não faz nada,
Senão me ver culpada por ser morta:

Figuro como crime passional,
Estampado na capa d'um jornal,
Que mais uma estatística reporta.

Betim - 11 10 2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CHEIRO DE CHUVA

CHEIRO DE CHUVA

É no vento que a chuva vem primeiro...
Chega n'um cheiro cheio de sul e mar
Que roça as altas serras, sem parar,
E eleva em redemunho o chão mineiro.

Avanguarda das nuvens, esse cheiro
Súbito faz a noite refrescar
Em húmidas lufadas de bom ar,
Que boa prosa traz para o terreiro.

De vera, a gente sai sob relento
Apenas para já sentir no vento
A chuva qu'inda tão distante molha.

E espera, n'uma fé agradecida,
Pela estação das chuvas ver mais vida
Enfim reverdecer em cada folha.

Betim - 09 10 2017