domingo, 30 de outubro de 2016

O GRANDE INQUISIDOR

O GRANDE INQUISIDOR

exórdio 

N'um acesso de cólera, há quem fique 
Bem diante da verdade, sem saída.
Qual quisesse apagar a nossa vida 
Do Livro dos Eleitos ou onde a indique. 

Não admira se acaso pontifique: 
-- "Sois a pior coisa já acontecida!" -- 
Ele tão-só computa em sua lida 
A gota d'água p'ra romper o dique... 

Após prisão estúpida e arbitrária,
Logo ele nos acusa, por má sina,
Nos máximos rigores da Doutrina. 

Por fim, nos silencia a mente vária, 
Negando-nos o humano patrimônio 
Como fôssemos piores que o demônio. 

*        *        *

invectiva

-- “Ai de vós! Credes em códigos de classe
E vos permitis do ódio instrumento.
Juiz obtuso, dais ao erro provimento,
Qual claro dia em trevas se tornasse.”

“Talvez não verdes danos n’este impasse,
Ou, obscuramente, n’ele haveis alento.
A inépcia ocultais com descaramento,
Malgrado o próprio mal se horrorizasse."

“Por quem sois! Deitai fora tais tiranos
Que constrangem a agir com vilania
E ora vos detêm, cúmplice de enganos.”

“Sei que nos odeiam por nossa ousadia.
Mas vós, que haveis com eles, que planos?
Que abuso à vossa cátedra impedia!?”

*        *        *

falácias

-- “Oras, oras... Vós-outros bem sabeis
A gravidade toda d’estes factos.
Não obstante, pensais que ainda intactos
Vossos direitos face a nossas leis?”

“Rebeldes à autoridade, conviveis
Entre conspirações, tramas e pactos.
Fugis às consequências dos maus actos,
Inimigos dos reinos e dos reis!
 
“Lesais a coisa pública, entretanto,
Ao combater os próceres do Estado
Assim como o Direito sacrossanto.”

“Crime de Lesa-Pátria... Um atentado
Autofágico e infame a ser punido
Co’o máximo rigor reconhecido.

*        *        *

réplica e tréplica

— “Dai-me algo por provar vossa inocência!   
Falai-me ao menos!”— Diz o Inquisidor.   
"Eu estou desolado" — acho...  — "Ou melhor,   
Lamento, mas não falo à esta audiência".   

"Malgrado não me acuse ora a consciência,   
Nada tenho a dizer em meu favor”.    
Ele diz: — “Mas que pena! Tanto pior!   
Se vos resta implorar tão-só clemência”...   

“Eu só penso que vós não haveis dito 
O que dizeis, não fosse indefensável   
A verdade d’um homem já proscrito”. 

— “Eu sei. Deveras, tudo isso admirável!   
A minha vã verdade eu acredito   
Ser-vos não falsa, sim insuportável”.  

*        *        *

ex-cathedra

— “No ano da graça de Nosso Senhor,
Compareceram diante d’esta Sede
Senhores cuja morte se nos pede
O venerável Grande Inquisidor.

Ouvida cada parte em seu favor,
Julgamos que o recurso que concede
A suspensão da pena não procede,
Devendo os réus cumprirem o mal maior.

O fogo purifique vossas almas
E em meio às labaredas subam calmas,
Qual bode que expiatório com óleo  unta-se.

Este é o parecer; é meu juízo:
Purificai-vos para o paraíso!
Publique-se, registre-se e (enfim...) cumpra-se.

Betim - 20 11 2004