terça-feira, 4 de outubro de 2016

ODE SERENADA

ODE SERENADA

I

Em glória a lua agora,
Que a viola viola a noite...
As cordas de aço pela rua afora
Vibram para que o peito mais se afoite:
Um coração batendo compassado
Co’a música em seresta
Revê de forma honesta
                        [ o seu passado.

II

Recorda aquela idade
Na qual a fantasia
Alumbra os anos vãos da mocidade
Sobretudo de música e poesia:
A bela época de áureas ilusões!...
Concertos nos quintais
E acordes triunfais
                        [ pelas canções.

III

Recorda amor antigo
Que tanto o coração
Fizera já sofrer feito um castigo.
Acabrunhado pela solidão
Ao ver o triste fim de quem amou,
Buscando se perder
Já sem saber sequer
                        [ por onde andou.

IV

Recorda uma outra lua
Em névoas serenada...
Quando andando só por deserta rua
À janela de sua namorada.
Ali veio cheio de encantos e esperanças
E embora ela dormisse
Alguns versos lhe disse
                        [ em falas mansas.

V

-- “ Amada tão amada,
Malgrado o teu pudor,
Rogo que tu me venhas à sacada...
Seja o tardio da hora um mal menor,
Quando tão suave a voz quanto o acalanto!
De modo que acordando,
Murmures quando em quando
                        [ este meu canto.”

VI

“Ainda estás dormindo...
Recebe-me em teus sonhos!
Faça-se meu cantar a ti bem-vindo
Até deixar teus olhos mais risonhos.
Escuta de meu peito o canto amante
Te entrar pela janela...
Agora, minha bela
                        [ e d’oravante.”

VII

Cantou tantas modinhas
N’aquela noite clara,
Que por fim suas almas bem juntinhas
Viu como se estivessem cara a cara.
Sem embargo, ninguém veio à janela:
Cantando até a aurora,
Após se fora embora
                        [ ‘inda sem vê-la.

VIII

Passaram muitos dias
E os dois não se encontraram.
Ansiava já, perdido em agonias,
Tudo o que as circunstâncias lhes negaram.
Teme que esse momento não se dê...
Dir-se-ia igual à lua,
Que ao sol se insinua,
                        [ e nunca o vê.

IX

Até que enfim a viu
Nos braços d’outro rapaz...
Ela, desconcertada, lhe sorriu;
Mas ele sequer d’isso foi capaz.
Seguiram por caminhos bem contrários
Sem nunca ele esquecer
O quanto puderam ser
                        [ extraordinários.

X

De facto, muitos anos
E amores se passaram.
Seguindo cada qual com seus enganos.
Bem confusos e vãos se reencontraram.
Era como se fosse ainda jovem...
Jamais foi tão feliz!...
E os sonhos que lhe quis
                        [ ainda o comovem.

XI

Contudo, ela mudou
E não sabe o que quer.
Já ele nunca mais se enamorou,
Como se não houvesse outra mulher.
Sabia que na noite serenada
Deixara o coração
Em cada só canção
                        [ ali cantada.
 

XII

A noite se enluarara
Nas cordas do violão.
À luz sabidamente tão rara
D’uns olhos marejados de emoção,
Ele e ela se encontrando novamente:
Não cuidam do futuro
Ou mesmo se algo obscuro
                        [ em seu presente.

XIII

E feito alucinados
Viveram o momento...
De facto, pela lua ora encantados
E ouvindo da seresta o movimento
Sentiram-se a ressoar em harmonia.
Em noite serenada,
Verdade misturada
                        [ à fantasia. 

Ouro Preto – 12 10 1995