sexta-feira, 4 de outubro de 2019

SALTITANTES

SALTITANTES

As meninas na rua pulam corda
Ritmadas com cantigas de ciranda.
Decerto à brincadeira quem comanda
É uma que de tranças atiça a horda...

Outra, de laço rosa e meio gorda,
Lembra alguém que comigo pôs demanda...
A criança que fui olha da varanda
E entre admirado e só tudo recorda:

Eram tardes infindas as d'antanho
Quando sob outras cordas, saltitantes,
As tranças d'um cabelo algo castanho.

Eram meninas lindas como as d'antes...
Deveras, sob o meu olhar estranho
Estas foram aquelas por instantes!

Betim - 04 10 2019










TRESLOUCADO

TRESLOUCADO

Depois que me varreram o juízo
Com repetidos tombos vida afora,
Restou tão-só buscar em obscura hora,
Sempre o significado mais preciso.

Aprendi a ficar de sobreaviso
Em busca da palavra que incorpora
Meu louco vir-a-ser cuja demora
Me faz mais extenuado que indeciso.

É uma compulsão desmedida
Na qual eu tenho gasto minha vida
Em páginas escritas sem descanso.

Por toda a noite em meio às letras ando
E, inadvertidamente, as vou jogando
Pedras na lua feito um louco manso.

Betim - 27 09 2019

DE REPENTE

DE REPENTE

Muda da noite para o dia.
Muda do dia para a noite.
Encara a Hora com ousadia
Ainda que vida te afoite.

Ainda que da vida o açoite
Te fustigando a fantasia.
Muda do dia para a noite;
Muda da noite para o dia.

Ainda que da vida a via
Te levando tal como foi-te,
No fim tudo é sabedoria.
Muda do dia para a noite;
Muda da noite para o dia.

Betim - 02 10 2019

TRÊS DE OUTUBRO

TRÊS DE OUTUBRO

Impacienta-me não saber o que fazer
n'esse momento grave de minha vida, quando
meus passos não me conduzem e as portas não se abrem.

Tenho ânsias de infinito, mas vomito vinho doce...

Pretenso tantas coisas, desconfio não ser mais nada
e aguardo o Juízo como se já morto e enterrado. Não há
umbrais d'onde minhas carnes possam retornar incorruptas...
Não, tudo o que há é a estranheza d'este momento
que se arrasta faz semanas sem me propor veredas.

Pela primeira vez na vida tenho medo.

Temo a hipertensão e a guerra global em igual medida, claudico
há dias pelas ruas de minha cidade: Há dor.
Temo o dinheiro curto e as pequenas expectativas, pior:
Temo ter me tornado irrelevante.

Esquecido no corredor d'alguma corporação, eu verso
ciente de que deveria trabalhar, mas não há trabalho senão
enxugar o gelo do icebergue à deriva...

Não sou sequer um perdedor, pois, não entrei em campo.
Não fui bom o bastante para envergar o uniforme e ser carne de canhão.

Há conflitos nas ruas; nos becos... Há sombras
estendendo-se por sobre toda a metrópole. Há sinais
de fumaça e poeira informando do fim próximo. Há tardes
de sol abrasador com a secura de saaras enquanto passo a caminho. Há ódios
reverberando em milhões de olhos vidrados em telas azuis que hipnotizam. Há distâncias
capazes de desumanizar os outros e a mim mesmo para os outros... Basta!
É preciso continuar andando.

Todavia, aonde vou?

Estou velho demais para m'empolgar com promessas de sucesso.
Já ouvi muitas; já persegui várias...
Estou cansado. Não, estou entediado.

E jamais se deve subestimar o poder criador-destruidor do tédio.

Betim - 2019 

CICATRIZES

CICATRIZES

A vida escreve linhas sobre a pele
Onde grafismos contam-nos a história.
Mesmo um facto apagado da memória
Talvez em vagas marcas se revele...

No mais, o que dizer d'este ou d'aquele
Senão do que se apura em sua glória?
Visto que, involuntária ou meritória,
A chaga mal curada ainda o impele.

Com efeito, após quedas e entreveros,
Ainda guarda o encontro contundente
Como um vestígio claro d'exasperos.

Pois ainda que oblíqua negue a mente,
Impresso co'os rigores mais severos
O trauma restará sempre presente.

Betim - 03 10 2019

DA NOITE PARA O DIA

DA NOITE PARA O DIA

Tão repentinamente a mente muda,
Que a gente já não vê como antes via.
Tudo o que era mistério se desnuda
E a verdade se mostra fantasia,
     Vindo a lume da noite para o dia.

Aquele que em segredos mais s'escuda
Passa os dias e as noites em vigia,
Certo de que nas sombras, linguaruda,
Tem a própria traição por companhia,
     Vindo a lume da noite para o dia.

Em cada rosto, sem qu'ele se iluda,
Enxergava um traidor, cuja ousadia
Lhe deixa a face sempre altiva e muda,
Após encher-lhe as horas de agonia,
     Vindo a lume da noite para o dia.

Sem desdenhar do tédio a hora vazia,
Logo topa com quem falso lhe ajuda:
Como n'um espelho, ele a si traía!
Sua dor sob a face carrancuda
Veio a lume da noite para o dia…

Belo Horizonte -15 09 2019

terça-feira, 1 de outubro de 2019

MANQUITOLA

MANQUITOLA

Inopinadamente claudicante,
Eu sigo d'olhos baixos pela vila.
Dou passo, mas a perna já vacila
Pondo um esgar de dor no meu semblante.

Chegar a algum lugar ninguém garante,
Tampouco caminhada mais tranquila.
Se a coxa torta súbito perfila
O resto vai de modo semelhante...

Mas talvez, por ser poeta, ande como ando
-- Isto é, por ir e vir manquitolando,
Atento a alguma história como a minha.

E tanto quanto manco pela vida,
Meu verso vacilante se acomprida
Escrito em cada mal traçada linha.

Betim - 01 10 2019