quarta-feira, 31 de agosto de 2022

MÃE

MÃE 


Reza, porque o mundo é caos

E é preciso andar com Deus.

Mas vai mover terra e céus

Em meio a homens bons e maus

Para dar de si aos seus.


Ama tanto que nem sabe

Se amar tão imensamente 

Faz bem para a sua gente

Ou é carinho que não cabe

N’um coração que só sente.


É verdade que m’escapa…

É saber que não alcanço…

Tal como o rio em remanso

S’espraia nos pés da lapa,

Eu em seu colo descanso.


Cuida de tudo e de todos 

Pois que amor não s’entesoura.

Antes, guardado desdoura

Ou se perde com engodos

De quem, mesquinho, lhe agoura.


Não ama sem mais findar,

Mãos-largas, por extremosa.

Sim cumpre a sina da rosa,

Que despetala ao deixar

Sua essência perfumosa.


Betim - 30 08 2022

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

INERTE

INERTE


A força necessária para pôr-me

Agora novamente em movimento

É a mesma que a todo vão momento

Mantém a Terra em órbita uniforme.


Pareço estar parado, mas conforme

Eu me abandono sobre o pavimento,

Abro os olhos e giro ao firmamento,

Enquanto a vizinhança inteira dorme.


Em equilíbrio está o Universo e eu,

A me prender ao chão tão firmemente,

Que nada tenho em mim de facto meu:


O corpo, massa apenas; a alma, mente.

Outro que nas estrelas se perdeu

De pé, parado, olhando para frente.


Betim - 29 08 2022



HIPOCRISIA

HIPOCRISIA 


A gente deseja, mas nem pensa!

A gente pensa, mas não fala…

A gente fala, mas nada faz.

A gente faz, mas esconde…!

A gente esconde, mas deseja?


A gente deseja, pensa, fala, faz, esconde e deseja de novo…


Mas é errado?!


A gente deseja errado porque acham a gente errado.

A gente é errado:

A gente deseja!


Mas mais errado é quem não deseja.


E, porque não deseja, não pensa.

E, porque não pensa, não fala.

E, porque não fala, não faz.

E, porque não faz,

não tem nada a esconder,

nem tampouco a mostrar.


Errado é quem acha errado!


Deixem de achar!!

Deixem de julgar os outros!


Betim - 25 08 2022

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

FUNERÁRIO

FUNERÁRIO


Figuro em meio à trama de terceiros

Como se fosse alguém n'alguma estampa.

Pequena personagem que pirilampa

Ao fundo dos actores verdadeiros.


Não comento seu actos derradeiros,

Tampouco quanto a morte aqui encampa.

Apenas cavo a cova; fecho a tampa...

Como é próprio do ofício dos coveiros.


Pois, com efeito, alguém tem-de enterrar

Àqueles que empesteiam o lugar

Após suas tragédias consumadas.


Eu deixo aos principais as suas galas,

Enquanto com as minhas poucas falas

Lhes ultimo as histórias desoladas.


Betim - 25 08 2022

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

À MANHÃ SEGUINTE

Ressábio em taças vazias,
Garrafas pelo tapete…
Fantasias e confete
De passadas alegrias:
A rainha mais o valete
Despem-se manto e colete…!

Pálida, a luz matinal
Suavemente se derrama
Sobre os lençóis pela cama,
Onde o desnudo casal
— um varão e sua dama —
Ensaia amorosa trama.

Pela beleza da fêmea
O prazer tão prometido:
A nádega à mão — “Querido!
Faz logo inveja à gêmea…”

Outro carinho atrevido;
Outro prazer desmedido.

Amantes regozijados,
Se vê em seu repousar:
Enfim o ardor dar lugar
À languidez dos ousados,
Ora entregues ao desfrutar
De ser amado e de amar

Tudo, porém, tem final:
A alvorada traz o dia!
Em face da hora tardia,
Mal se despede o casal,
A disfarçar toda a orgia
D'aquela noite vadia.

Belo Horizonte - 07 08 2022


terça-feira, 23 de agosto de 2022

FALAÇÃO

FALAÇÃO

Pois é: Falar, dá sede; ouvir, dá sono.
Quando o discurso evade em digressões,
Renuncio a quaisquer interações,
E já deixo a verdade com seu dono!

Cansado de absolutos, abandono
A aula que descambou em vis sermões
De quem arrota grandes opiniões,
Tratando todo o mais com desabono.

Depois de muito ouvir, passo a falar
E, à maneira dos outros do lugar,
Eu entulho a assembleia de argumentos.

Assim, seca a garganta; dura língua,
Deitando a falação os deixo à míngua,
Mediante intelectuais padecimentos.

Belo Horizonte - 12 08 2006

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

BANALIDADES

 BANALIDADES


Seria melhor falar do café forte,

Que me desceu queimando goela abaixo…

Ou então que tenho andado cabisbaixo

E penso mais no amor do que na morte.


Talvez falar ao léu não te conforte…

Tampouco sei se ainda eu cá m’encaixo!

Parece que andas meio para baixo

Ou simplesmente estás sem muita sorte.


Falar do frio, não do que te aquece…

De quantos dias mais para a quermesse…

Se cheia ou se minguante é hoje a lua.


Deixa estar! A questão é de quereres 

Ser-me ou não a mulher entre as mulheres:

Tu, em minha loucura; e eu pela tua.


Betim - 06 01 2021