segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A MÃO DE DEUS

A MÃO DE DEUS
                                                  iluminura
Separa luz de treva em frontispício
A mão de Deus ao criar a obra divina.
Uma exegese ao Gênesis ensina,
Enquanto põe às claras Seu ofício.

Ilustrando-nos com arte e artifício
O gesto que de Deus tudo origina,
Um pergaminho em cores se ilumina
E revela o Universo antes do início.

Eis a imagem de  cosmogonias
N’um códice que cheio de alegorias
Traz as respostas sós d'Aquele que é

O medievo saber de tantos monges 
Elevará o espírito nos longes
Pondo em duplipensar razão e fé.

*     *     *
                                                        tese
A crença é de que está na mão de Deus
A balança que pesa nossos actos.
Forçoso é ter, porém, como inexactos
Seus dons tal como veem os europeus:

Sistemas religiosos põem nos breus
Verdades a luzir além dos factos
No afã de perpetuar os sociais pactos
De ordem e de poder aos filhos Seus.

Com efeito, a função social da fé
Há séculos mantém sempre de pé
As Igrejas com suas catedrais.

Uma cruz a serviço de coroas
Antes a submissão quer das pessoas,
Que lhes prover de bens espirituais.

*     *     *   
                                                            antítese
Tem o homem criado Deus — não o contrário —
Assim, à sua imagem-semelhança;
Para, habilmente, haver outra esperança
Inventada a lhe dar conforto vário.

Engenhoso artífice; bom operário,
Pôde o homem da Natura obter pujança;
E insensível a toda má mudança,
Se quer sem superior ou intermediário.

Super-homem d'uma era pós-moderna
De Deus morto e morte-arte, à beira-abismo, 
Contempla o Fim dos Tempos, da caverna.

Pois se reduz ao mais vão materialismo,
Sem saber de Criador ou vida eterna,
Senhor e servo em seu próprio egoísmo.

*    *    *
                                                        síntese
Homens se moldam ídolos divinos,
Igual o oleiro à argila põe no torno.
Quem faz quem? É levada a massa ao forno,
Que após se vivifica em preces e hinos...

Estatuetas que humanos desatinos
Têm ora como símbolo; ora adorno.
Si mesmas obras d’arte, em cujo entorno
Parecem emanar fatais destinos.

A mão que faz a mão cria a criatura.
São seres que se fazem porque Seus
Junto a todos os seres da Natura.

Suas as nossas obras -- a olhos meus,
Separa treva e luz na iluminura --
Onde a mão do homem é a mão de Deus.

Belo Horizonte – 11 11 1999