quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

HAGIOGRAFIAS

HAGIOGRAFIAS
                               I
                                        são Francisco Xavier
Ir sempre mais além! Sempre mais longe!...
Por tocar de cada um o coração.
Que, se não faz a cruz bom o cristão,
Um hábito tampouco faz o monge.
Ide-vos! Passo a passo mais se alonje
Quem fostes n’uma antiga escuridão.
Para que, exercitados na oração,
Esta às máculas d’alma lave e esponje.
Tende por armas antes a bondade,
Onde a misericórdia vos transborde
Desde o peito uma real felicidade.
Com um júbilo uníssono de acorde,
Buscai com todos ter boa-vontade,
Fazendo-nos um mundo mais concorde.
*  *  *
                               II
                                     são Francisco de Assis
Marcaste-me, Jesus, com Tuas chagas.
Rasgas profundamente as minhas palmas
Mas mesmo assim, na dor após me acalmas,
Do que na solidão sempre me indagas.”
Bendigo o sangue, a angústia, o ardor, as pragas...
Caminho pelas trevas, mas me psalmas.
Pelas fadigas d’este mundo, às almas
Toda a luz que me deste não me apagas.
Porque ouvida a ordem Tua, a obedeci,
E visto sinal Teu, o acompanhei;
Vivendo-te a Paixão, eu renasci.
Perdido para o mundo, me ganhei;
Um trovador de Deus me conheci:
Teu amor arde em mim, e eu te sonhei.
*  *  *
                              III
                                  santo Antônio de Lisboa
Douto, tanto dos Céus quanto da Terra,
Tivera a sua língua incorrompida
Para mostrar na morte o que na vida
Fora d'hereges máquina de guerra.
Sem embargo, o carinho que 'inda encerra
Sua imagem por séculos querida
Do Menino-Jesus o fez guarida,
Como honra a quem ao lúcido se aferra.
Divina é a razão posta a serviço,
Cá dos homens que às cegas buscam Deus
E se perdem p'lo mundo com os seus.
Mais festeje este seu povo tudo isso:
Aquele que na Glória luz em feixes,
Após pregar Jesus até aos peixes.
*  *  *
        
                            IV
                                                  santa Bárbara
Há quem afinal clame pela santa
Sob o clarão dos raios de tempestade...
Quando de súbito uma claridade
Bem perto do vivente se agiganta.
Sua estupefacção então é tanta
Que mal se lembrará da autoridade
D'essa virgem e mártir que, em verdade,
Mais pelo exemplo e fé há tanto encanta.
Dos mártires é a alma iluminada.
Enquanto os olhos têm fitos em Deus,
Elevam-se, por fumo, para os céus.
Dos algozes a sorte está lançada...
Vãs as invocações feitas a Zeus:
Os raios do Tonante vingam os réus!
*  *  *
                                VI
                                                  são Sebastião
Mártir são Sebastião, crivado em setas,
Que estais atado a ramos tão agrestes
Para dar testemunho de fé a estes
Cuja violência contam os profetas,
Oh, vinde em nosso auxílio!  -- nós, os poetas --
Livrai-nos enfim d'estas negras pestes;
Seja o niilismo ou tédio... Prometestes
Iluminar às mentes sós e inquietas.
Curai o nosso escuro coração 
Sem vos curvar jamais favores, mimos...
Antes a mais perfeita contrição.
Trovadores do nada, vos pedimos:
Sede nosso advogado em intercessão
Contra o imenso vazio que sentimos.
*  *  *
                                VI
                                                    santa Cecília
Mas, entre o amor e as artes, Deus quem sabe...
Quando servi-LO é tudo o que deseja,
Oferta os seus talentos para a Igreja:
Põe música e poesia em quanto cabe.
Pouco importa que um dia o céu desabe
E leve embora amores ou o que seja,
Ela abençoa a mão que a apedreja,
Antes que a melodia à boca acabe.
Grande restauradora de canções,
Trouxera a voz dos anjos às prisões
Onde homens e mulheres esperando...
Eis a mais nobre força de tais  artes!
Não fazer esquecer de quando em quando,
Sim alumiar a dor em tantas partes.
*  *  *

VII
                                             santa Rita de Cássia
Aquela que olha pelos malcasados
Chora com eles dores também suas...
Pois têm, mesmo passadas tantas luas,
Ainda os sonhos vãos despedaçados.

Se na vida a dois tudo tem três lados,
Tanto um e outro se veem verdades cruas:
O mesmo amor que aquece as peles nuas
Depois lhes deixa os olhos marejados...

Há quem diga ser coisa do demônio
E a passionalidade igual maldade
Que lhes destrói família e patrimônio.

Isso faz admirável, em verdade,
Quem soubera fazer do matrimônio
Uma estrada de dor e santidade.
Betim - 10 11 1999